terça-feira, 18 de setembro de 2018

MM Não Recomenda - Hereditário, filme de Ari Aster



Como todo mundo está comentando, talvez você, assim como eu, fique curioso e tome a decisão de assistir ao filme Hereditary num dia chuvoso qualquer. Não cometa esse erro. Não bastasse ser um filme de terror (gênero necessariamente infantil, com as exceções de praxe), Hereditary segue a modinha de criar narrativas cheias de detalhes confusos que, no final, farão sentido. Funciona com Christopher Nolan, mas nas mãos de um roteirista menor é uma verdadeira catástrofe. Você talvez - talvez! - tenha medo e fique realmente intrigado durante parte do filme. Mas aquele final... Ah, aquele final é digno de um Ed Wood. (Paulo Polzonoff)

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

MM Recomenda - Contos de Machado de Assis



No mês dos 110 anos da morte de Machado de Assis, indico dois contos dele que reli recentemente: Noite de Almirante, o melhor texto sobre decepção que já encontrei na literatura brasileira, e Um Apólogo, uma aula de escrita de diálogos - falas sintéticas, coloquiais sem serem simplórias, sempre fazendo a conversa avançar (e que final!). Ambos estão em The Collected Stories of Machado de Assis, reunião de 76 das melhores narrativas curtas do Bruxo publicada nos EUA. O livro recebeu uma crítica consagradora do New York Times, em junho. (Lucas Colombo)

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

MM Recomenda - A Vida É Doce, de Lobão



As constantes brigas e polêmicas transformaram Lobão em persona non grata no meio cultural brasileiro. Entretanto, é inegável que o autor de Me Chama, Cena de Cinema, Noite e Dia, Vida Bandida, entre outros hits, tem méritos no que mais importa: sua produção musical. Um exemplo disso é A Vida É Doce, disco lançado em 1999 de forma independente. O CD vinha numerado (uma das tantas disputas em que Lobão se meteu) e encartado em uma revista com edição caprichada. É possivelmente o único trabalho de Trip Hop feito no Brasil e vale muito ser ouvido. Lobão soube canalizar sua ira (como na faixa-título, El Desdichado II e Tão Menina) e sua candura (Uma Delicada Forma de Calor e Vou Te Levar) de maneira totalmente exitosa. Os seus discos anteriores, Nostalgia da Modernidade (1995) e Noite (1998), já experimentavam os efeitos da música eletrônica, deixando o rock de lado. Mas, em A Vida É Doce, Lobão foi mais feliz em sua empreitada. Então, é isso. Esqueça as tretas e foque na música, porque é um discaço. (Lucas Barroso)

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

MM Recomenda - Trapo, de Cristovão Tezza



A Record lançou uma reedição comemorativa celebrando os 30 anos de Trapo, de Cristovão Tezza. Leia. Leia nem que seja para entender a mente poética/beatnik tardia de poetas marginais como Leminski. Leia para mergulhar numa Curitiba que não tem nada a ver com o lugar geográfico: a Curitiba mítica, muito mais interessante. E leia para saborear a prosa sempre admirável de Cristovão Tezza. (Paulo Polzonoff)

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

MM Recomenda - A Longa Viagem de Prazer, de Juan José Morosoli



Os homens do pampa descritos sem adjetivos, floreios ou arroubos literários. A solidão e seus dias se arrastando. É isso o que têm a nos oferecer os magníficos contos de Juan José Morosoli (1899-1957), escritor uruguaio que é praticamente um desconhecido do público brasileiro. Por aqui, foram publicados apenas dois livros infanto-juvenis e este A Longa Viagem de Prazer (L&PM, 2009), uma coletânea de contos escolhidos e traduzidos por Sergio Faraco (outro grande contista), facilmente encontrada por baixo preço nos sebos. Mesmo com uma escrita simples, pois assim são os personagens apresentados, em sua maioria uruguaios "esquecidos" no interior do país, Morosoli não cede ao didatismo. O autor não entrega nada pronto ao leitor. A riqueza está no contexto e no que não é dito. E isso é uma das virtudes de um bom contista. A Longa Viagem de Prazer é leitura obrigatória para quem gosta de histórias curtas. Publiquei um dos contos - Solidão – no meu blog. (Lucas Barroso)

terça-feira, 21 de agosto de 2018

MM Não Recomenda - Baseado em Fatos Reais, de Roman Polanski



O novo Polanski, Baseado Em Fatos Reais, sobre escritora antipática em bloqueio criativo que acolhe fã misteriosa, é quase ruim. Narrativa muito acelerada, trilha sonora insistente, Eva Green se esforçando para parecer "enigmática". A história lembra o americano Louca Obsessão (1990), e o recurso à confusão entre ficção e realidade lembra trocentas outras obras criativas. Se você quiser ver um bom filme recente com personagem escritor e que se vale do mesmo recurso de um jeito bem mais envolvente, vá de O Cidadão Ilustre, dos argentinos Mariano Cohn e Gastón Duprat. Polanski perdeu a mão há muito tempo. Alguém que fez filmaços como O Bebê de Rosemary, Repulsa ao Sexo e O Pianista nem precisaria mais fazer muita coisa. (Lucas Colombo)

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

MM Recomenda - AR, de Almir Sater e Renato Teixeira


Se ainda faz sentido ouvir um "disco" do início ao fim, neste mundo de infinitas distrações, é o caso de AR (2015), de Almir Sater e Renato Teixeira. Canções brejeiras que falam de uma vida simples. As letras de Teixeira são doses de sabedoria popular, e a viola de Sater é precisa. Uma combinação difícil de dar errado. (Lucas Barroso)



quarta-feira, 13 de junho de 2018

Debussy, pour toujours


Como sempre digo, a melhor maneira de homenagear um grande artista, em efemérides, é revisitar sua obra. Façamos isso com Claude Debussy (1862-1918), o compositor "erudito" francês morto há cem anos, cuja influência também sobre músicos de jazz ou canção é notória. Tom Jobim, por exemplo, tinha-o em alta conta. Tanto que criou a melodia de Chovendo na Roseira partindo de uma citação às primeiras notas da linda Rêverie do francês. Ouça, compare e se enleve.



Há quem diga que o título original de Chovendo na Roseira, Children's Games, é também uma referência à suíte Children's Corner de Debussy. Na melodia de Jobim, o trecho que, depois, foi unido aos versos "Que é de Luiza/ Que é de Paulinho/ Que é de João" realmente lembra o começo do primeiro movimento da suíte, Doctor Gradus Ad Parnassum.


Beleza universal e eterna. C'est tout.

(Lucas Colombo)

quarta-feira, 6 de junho de 2018

O que estou lendo - IV



- Philip Roth, que morreu no dia 22 de maio, não faz exatamente o meu tipo de literatura. Racional demais, realista, correto na forma. Mas há pouco li O Animal Agonizante e não tive dúvida da sua importância como escritor. É leitura de um fôlego só, escrita afiada, inteligente e que perturba. Sem floreios ou compromissos de qualquer espécie, exceto com uma visceral arqueologia dos instintos. Por vezes os personagens cansam, incomodam pelo cinismo, pelo excesso de ironia, autoidealização que não deixa de ser muito mundana. Mas isso não afeta a qualidade geral da obra, que está comprometida de maneira irrestrita com a honestidade do autor. Nada mais estranho a Roth do que agradar, escrever bonito. Ele fala sobre o que pensa e vê no íntimo do ser humano, exercendo total independência para ser desagradável, incorreto, provocador. Com isso ele traz suas verdades à tona, deixando marcas significativas e duradoras em quem lê. Muriel Paraboni

Mais "O Que Estou Lendo" aqui.


segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

O que estou lendo - III


Continua a série:


Seleção de depoimentos retirados principalmente de entrevistas a jornais e revistas (algumas estavam perdidas), Nelson Rodrigues – Por ele mesmo (Nova Fronteira, 2012, org. Sonia Rodrigues) é um livro apinhado de curiosidades sobre vida e obra do jornalista e dramaturgo, autor de 17 peças reconhecidas como o auge da dramaturgia brasileira. Nelson consagrou, com sua linguagem polêmica e sem pudor, uma nova forma de fazer teatro no Brasil, sendo um dos pioneiros do modernismo nas artes cênicas do país. O livro traz suas opiniões agudas, seu humor peculiar e suas frases emblemáticas – ainda citadas hoje em dia. Não faltam relatos sobre as angústias da vida e dificuldades para sobreviver de escrita. Nelson dizia muita coisa que ninguém tinha coragem de dizer, sem se preocupar com críticas e julgamentos do seu meio. Leandro Schallenberger