quarta-feira, 19 de junho de 2019

Auster seduz estranhos



Passado literário? O escritor norte-americano Paul Auster, autor do recente 4321 (Companhia das Letras, 2018), cita um escritor preferido, J. M. Coetzee: "As obras anteriores são como pacotes que a gente se livra pelo caminho; deixamos pela estrada para que outros peguem; as obras só são do escritor durante o processo". Mas, ao dizer isso, Auster (que falou aos gaúchos por videoconferência no evento Fronteiras do Pensamento) não denega o passado e até o evoca para abrandar o fetiche atual pela tecnologia: "Livro em papel é uma tecnologia que funciona bem, os e-books venderam muito nos EUA, agora o mercado esfriou, essa tecnologia não traz nem o número de páginas, só o percentual já lido", ironiza. "O smartphone faz as pessoas pensarem que têm o mundo na palma da mão, acho que o que as redes sociais conseguiram foi colocar online pessoas loucas todas juntas." Admite ainda sofrer para escrever. São oito horas por dia para obter apenas duas páginas, no máximo: "A arte é um presente para o outro, eu escrevo para um outro imaginário, o livro é o momento em que dois estranhos se encontram", filosofa. "Livros, filmes? Todos os povos sempre criaram histórias para se explicar e explicar a origem de todas as coisas. Isso não muda." (Jeison Karnal)

terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

MM Não Recomenda - Roma, de Alfonso Cuarón + MM Recomenda - A Esposa, de Björn Runge



Os gringos até podem cair nessa de que Roma, lançado recentemente pela Netflix e concorrente ao Oscar, é uma obra-prima do cinema moderno. Não é. Mas eles acreditarem nisso, tudo bem. O que assusta é que nós estejamos repercutindo essa falácia. No Brasil, temos diversos exemplares de Roma. É um filme que reproduzimos aos montes, desde o Cinema Novo. Todo ano tem uns dez, no mínimo. Recentemente, tivemos os didáticos Que Horas Ela VoltaCasa Grande, descrevendo a relação entre pobres e ricos. A história de Roma é a batida via crúcis do miserável. Em que ele é, acima de tudo, um forte. O desafortunado suporta as agruras do mundo, sempre meio alienado, e segue em frente. Pois a vida é assim mesmo. Os bem vividos são os culpados, os alienados de verdade, que não enxergam a real situação das coisas. O pobre vive a História. O rico só serve para narrá-la. Roma é um dramalhão frio, que se passa na Cidade do México, década de 70, durante o truculento governo do presidente Luis Echeverría Álvarez, considerado uma ditadura perfeita por Mario Vargas Llosa. Narra a rotina de uma empregada doméstica de família. O pai do clã some, restando às mulheres da casa tomarem conta de tudo. O motivo da fuga só é explicitado no fim. E aí está uma boa sacada. Somente aí. Todo o resto é lugar-comum para nós, terceiro-mundistas. Ao longo de duas horas, ficamos diante da mesma estética de um filme nacional típico. A lentidão de acontecimentos, a trilha insignificante, a culpa burguesa do diretor (o mexicano Alfonso Cuarón, mas poderia ser algum Moreira Salles, não faria diferença), pesando no roteiro. O diferencial para nossos filmes, e que piora as coisas, é que Roma é rodado em um cafona preto e branco. Aquela fotografia pretensiosa (Salve, Sebastião Salgado!). Entretanto, nem tudo é negativo. É preciso também ver o lado bom. E a vantagem de Roma para outros filmes enfadonhos é que ele está disponível somente no catálogo da Netflix. Basta dar um stop e escolher outro. (Lucas Barroso)


* * *


A Esposa é um filme de pouco brilho, do ponto de vista formal. Narrativa quadradinha, convencional, com planos bonitos, diálogos afiados e grande atuação de Glenn Close (merecidamente a favorita ao Oscar de melhor atriz). Mas como faz pensar sobre questões com que toda pessoa que vive de escrita se defronta. Se alguém copidesca o texto de outro, quem é o verdadeiro autor? Como ver um incompetente ganhar elogios ou prêmios imerecidos e não nutrir ressentimento por isso? Se um escritor não conseguir ser publicado ou lido, deve desistir ou insistir? Não há respostas fáceis, e o filme não oferece nenhuma. O que é bom. (Lucas Colombo)

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

MM Recomenda - Lacombe, Lucien, de Louis Malle



Lacombe, Lucien, filme que completa 45 anos de lançamento neste 2019, é o melhor de Louis Malle (1932-1995). Suas riqueza e força estão na abordagem “neutra” (entre aspas, porque a opção pela “neutralidade” faz sobressair-se uma crítica a todos os lados envolvidos) de um fato político espinhoso: a colaboração de franceses à ocupação nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Malle e o escritor Patrick Modiano, com quem elaborou o roteiro, não condenam nem absolvem o personagem, um rapaz simplório e ignorante que adere aos nazistas não por ser exatamente “mau”, mas porque isso o faz se sentir importante e poderoso pela primeira vez na vida. Não defendem tese, não tentam justificar nada; somente contam a história, em toda a sua ambiguidade, a ambiguidade tão esperada em uma obra de arte. Lucien causa nojo, mas também pode causar pena (ser perdoado? Jamais). É uma abordagem quase impossível de se obter, por exemplo, da maioria dos cineastas brasileiros, que infantilmente insistem no esquematismo, em identificar “vilões”, fazer dramaturgia brechtiana para “conscientizar as plateias”. “Há pessoas com que não se pode discutir, gente que navega eternamente na idealização e na mitologia”, disse Malle sobre seu filme, em entrevista de 1975 mas ainda atual. Tão atual quanto a ideia que emana de Lacombe, Lucien: o problema não é ser de esquerda ou de direita, é ser estúpido. (Lucas Colombo)

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

MM Recomenda - Lado B, Lado A, banda O Rappa



"Hoje, eu desafio o mundo sem sair da minha casa..." (Me Deixa)

Esta recomendação contém uma boa dose de nostalgia. Em 1999, o pop rock nacional ainda tinha uma certa relevância cultural. Movimentava e ditava modas e tendências entre os jovens e interessados pelo universo pop, no Brasil. Aliás, nesse termo "pop rock" (por incrível que pareça, ele existia) poderia se enquadrar uma banda como O Rappa, que lançava o bom Lado B, Lado AUm apanhado de letras sagazes de Marcelo Yuka, cobertas por uma sonoridade urbana, repleta de guitarras e efeitos eletrônicos. A temática era nacional, mas a pegada tinha um quê dos ingleses do Asian Dub Fundation e Black Grape. Um disco acima da média. Figura em diversas seleções de melhores discos brasileiros de todos os tempos. Bom de ouvir em um engarrafamento, no ônibus/metrô lotado ou em qualquer situação de um dia insuportavelmente quente de verão. O saudosismo evocado por Lado B, Lado A é de um período de ebulição: início da música digital (mp3, Ipod e afins), CDs piratas, paradas de sucesso com presença de diferentes estilos musicais, rádios jovens, publicações de música, programas de auditório, clipes na MTV. Para se ter uma ideia, o vocalista d'O Rappa, Falcão, era um personagem corriqueiro em revistas e programas de fofoca, pois namorava a atriz Débora Secco. O cenário de 1999 foi realmente emblemático. O último suspiro de um jeito de ver e consumir cultura pop. Hoje, provavelmente um disco como Lado B, Lado A não teria nem metade da repercussão e significação que teve. Logo na sequência, em 2000, Yuka foi baleado em assalto e ficou paraplégico. A banda, então, desandou, com discos abaixo da média e shows sofríveis. No palco, o som ficava lá atrás. Só se notava Falcão, com a postura de um guru de autoajuda, empilhando discursos vazios sobre qualquer tema pungente. Além disso, ele lançava mão de constantes vocalizações e onomatopeias que deixariam João Bosco corado. Em 2018, o grupo decidiu dar um tempo. É por tudo isso que ouvir aquele O Rappa, 20 anos depois, dá uma certa saudade. (Lucas Barroso)

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

50 Anos Blues



Nestas últimas semanas deste moribundo ano, não faltou quem associasse as mobilizações dos “coletes amarelos” em Paris ao movimento de, como se convencionou chamar, “Maio de 68” – e os manifestantes atuais deram motivo, é claro, ao preencher cartazes com frases que aludiam àquele episódio. Mas o ano inteiro foi de festa para o cinquentenário dos protestos que marcaram o 1968 do Ocidente. Especificamente do “Maio” parisiense, sobre o qual foi jogada a maior parte dos confetes da festa, dizem que “Foi uma revolução” (não foi; revolução pressupõe ruptura da ordem estabelecida), “Um grito de insatisfação similar ao de 2013 no Brasil” (e tão difuso e contraditório quanto, não?), etc. etc. Não sei se há razões para saudade e exaltação de um ano que gerou muito calor e pouca luz, que viu radicalismos de esquerda e de direita se retroalimentarem (guerrilha socialista, Black Panthers, Primavera de Praga, AI-5...). Só se for por identificação freudiana, nestes tediosamente polarizados anos 2010.

Dois slogans do “Maio de 68” francês provam como a herança cultural daquela época não é tão admirável assim - nem vou falar do “É proibido proibir”, uma contradição em termos e, pior, emitida por quem exibia fotos dos totalitários Mao e Lênin:

1. A inteligência caminha mais que o coração, mas não vai tão longe”. Tipo de mentalidade que ajudou a moldar esta era de muita sensação e pouca razão, muito hedonismo e pouca responsabilidade. A espetaculosa arte atual e o predomínio quase sufocante da cultura pop que o digam.

2. Se nossa situação nos arrasta para a violência, é que a sociedade inteira nos violenta”: Infantilidade pura, essa de colocar a culpa sempre nos outros ou no “sistema” (“Não foi a greve que gerou o caos, foi o caos que gerou a greve”, etc.). Também ajudou a modelar um pensamento comum hoje, o “todomundofazismo”, a noção de que, se algo, mesmo antiético, for praticado pela maioria, então “pode”.

Maio de 68 também deu contribuição decisiva para o “marketing da rebeldia”, a ideia de que juventude e rebeldia são um valor em si só (Nelson Rodrigues já a questionou bem melhor do que eu), outro legado bastante contestável. Se for para apontar uma herança positiva – que, sim, toda reação vivaz deixa –, é a dessacralização do sexo. Hoje, o tema é abordado abertamente por pais, filhos, professores e mídia, e jovens, adultos e idosos têm bem mais autonomia para se relacionar com quem quiserem (apesar das crescentes patrulhas à esquerda e à direita). Há também mais diversidade no vestir e no falar (idem). Mas, infelizmente, o desprezo ao método e à reflexão nuançada e o cacoete mental de se dividir as pessoas entre conservadores/“reaças” e progressistas/“fluidos” foi o que mais permaneceu. Passados 50 anos, já é mais do que hora de crescer. Ou envelhecer, como recomendou, com mais humor, Nelson, outra vez.
(Lucas Colombo)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2018

MM Recomenda - Recomposed by Max Richter: Vivaldi – The Four Seasons



Para lembrar que a humanidade ainda é capaz de beleza (tá difícil, eu sei), ouça o CD com a recriação da suíte As Quatro Estações, de Vivaldi, feita em 2012 pelo compositor inglês Max Richter. Releitura de uma surrada peça musical em uma sonoridade minimalista, arejada e com elementos de eletrônica. Hipnotizante. Nem só de choque gratuito e efemeridade vive o pós-modernismo. (Lucas Colombo)

domingo, 25 de novembro de 2018

MM Não Recomenda - Reprodução, de Bernardo Carvalho



Em Reprodução (Cia. das Letras, 2013), romance recentemente premiado e incensado pela crítica, Bernardo Carvalho cria monólogos insuportáveis (na verdade, são diálogos em que só um personagem fala, com o outro oculto) para traçar uma história que se passa em um aeroporto. Boa parte da narrativa se detém no personagem "estudante de chinês", uma figura caricata e de falas copiadas de caixas de comentário da internet (daí o título). Com isso, Carvalho tenta construir uma trama sagaz e irônica, focada em estereótipos e lugares-comuns de nosso tempo. Contando assim, dá a entender que o livro resultou em algo engraçado e relevante. Mas não. Longe disso. Dessa empreitada fica apenas uma leitura extremamente cansativa. A cada página vencida, o leitor se questiona: aonde ele quer chegar com tanta bobagem? Surge um novo monólogo e, mais adiante, outro. A história, rala e sem sal, pouco se desenrola. Por fim, é elucidada a trama e ela se conclui rapidamente. Lá se foram 168 páginas de bocejos. Reprodução foi descrito por alguns entendidos em Literatura como um retrato dos dias atuais. Pode ser. Afinal, em todos os períodos da humanidade há bestas ensandecidas. Mas prefiro acreditar que Carvalho escreveu um romance à frente de seu tempo: um livro que daqui a 30 ou 40 anos seguirá sendo ruim. (Lucas Barroso)

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

MM Recomenda - Daquele Instante em Diante, de Rogério Velloso



Um documentário de 2011 que destrincha a trajetória de Itamar Assumpção, prolífico cantor e compositor que, durante seu período de atuação, não teve reconhecimento de grande parte do público e crítica, sendo taxado de artista "marginal" e "maldito". Ele participou do movimento Vanguarda Paulista, na década de 1980, junto de Arrigo Barnabé, Grupo Rumo, Premê, entre outros. Porém, sua carreira não se resume a isso. Vale ouvir com atenção seus discos. Neles, fica evidente o manancial criativo que foi Itamar Assumpção. Difícil carimbar rótulos no som que ele produziu. No filme, a filha dele, Anelis Assumpção, relembra um diálogo que teve e que demonstra bem o que foi a vida do pai artista (e é também um resumo do que é fazer arte no Brasil hoje):
- E depois que ele fez tudo isso e não teve o reconhecimento merecido, o que aconteceu com o Itamar? 
- Depois disso, ele morreu.
(Lucas Barroso)

sábado, 10 de novembro de 2018

MM Recomenda - O Filme da Minha Vida, de Selton Mello



Perguntado sobre o que buscou para O Filme da Minha Vida, lançado no ano passado, Selton Mello respondeu: "A beleza". Esse pensamento raro em cinema brasileiro me levou a assistir ao longa, que está na programação dos canais Telecine. De fato, o diretor conseguiu o que pretendia: fez um belo filme, e distinto do costumeiramente feito aqui. A uma trama familiar e melancólica que se desenrola na Serra Gaúcha do começo dos anos 1960, com alguns tipos que têm função narrativa ou de comic relief, apõe uma fotografia em tom sépia, como fotos antigas, e uma trilha sonora que vai da delicadeza sentimental de Charles Aznavour (Hier Encore) ao soul explosivo de Nina Simone (I Put a Spell on You). Ficou algo Fellini sem a histeria. O problema, recorrente no cinema nacional, são os diálogos, no caso um tanto literários - traindo a origem da história, um romance do chileno Antonio Skármeta - e com imprecisões temporais. Mas o filme é um bonito e bem-vindo esforço que merece parabéns. É o melhor longa brasileiro que vi nos últimos anos (ou o único realmente bom). (Lucas Colombo)

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

MM Recomenda - Amoroso, de João Gilberto



Boa notícia para quem ainda sabe o que é boa música: Amoroso, de João Gilberto, será relançado em vinil. Foi nesse álbum de 1977 que o grande cantor e violonista se mostrou mais "universal". Então já ouvido no mundo todo e morando nos EUA, João pinçou canções em inglês, espanhol, italiano e português cujas letras falassem de relações amorosas (daí o título) para gravá-las em arranjos que uniam seu violão às cordas e sopros do maestro Claus Ogerman, alemão parceiro de Tom Jobim em alguns trabalhos. O resultado musical é tão bom, que compensa a má pronúncia de João nos idiomas estrangeiros. Ele leva 'S Wonderful, o standard dos irmãos Gershwin, numa interpretação delicada e em batida de bossa nova; despe Besame Mucho da dramaticidade de bolerão e, deixando-a quase irreconhecível, põe um figurino low profile no lugar, um tom baixo com harmonização inusitada; e faz scats vocais irresistíveis ("bailo, bailo, bãm bãm bãm...") em Tim-tim por tim-tim, um samba antigo bem sincopado, a faixa mais 'rítmica' do disco. Completa o Lado A a italiana Estate, a única que, arrastada, não dá vontade de ouvir até o fim. No Lado B estão Wave, Retrato em Branco e Preto, Caminhos Cruzados e Triste, quatro belos casamentos de letra e melodia perpetrados por Jobim. John Pizzarelli e Diana Krall, dois nomes competentes do jazz e da canção atuais, já fizeram declarações de amor ao disco. You can't blame them for feeling amorous: é realmente uma beleza esse Amoroso. Vou te contar... (Lucas Colombo)