segunda-feira, 19 de novembro de 2018

MM Recomenda - Daquele Instante em Diante, de Rogério Velloso



Um documentário de 2011 que destrincha a trajetória de Itamar Assumpção, prolífico cantor e compositor que, durante seu período de atuação, não teve reconhecimento de grande parte do público e crítica, sendo taxado de artista "marginal" e "maldito". Ele participou do movimento Vanguarda Paulista, na década de 1980, junto de Arrigo Barnabé, Grupo Rumo, Premê, entre outros. Porém, sua carreira não se resume a isso. Vale ouvir com atenção seus discos. Neles, fica evidente o manancial criativo que foi Itamar Assumpção. Difícil carimbar rótulos no som que ele produziu. No filme, a filha dele, Anelis Assumpção, relembra um diálogo que teve e que demonstra bem o que foi a vida do pai artista (e é também um resumo do que é fazer arte no Brasil hoje):
- E depois que ele fez tudo isso e não teve o reconhecimento merecido, o que aconteceu com o Itamar? 
- Depois disso, ele morreu.
(Lucas Barroso)

sábado, 10 de novembro de 2018

MM Recomenda - O Filme da Minha Vida, de Selton Mello



Perguntado sobre o que buscou para O Filme da Minha Vida, lançado no ano passado, Selton Mello respondeu: "A beleza". Esse pensamento raro em cinema brasileiro me levou a assistir ao longa, que está na programação dos canais Telecine. De fato, o diretor conseguiu o que pretendia: fez um belo filme, e distinto do costumeiramente feito aqui. A uma trama familiar e melancólica que se desenrola na Serra Gaúcha do começo dos anos 1960, com alguns tipos que têm função narrativa ou de comic relief, apõe uma fotografia em tom sépia, como fotos antigas, e uma trilha sonora que vai da delicadeza sentimental de Charles Aznavour (Hier Encore) ao soul explosivo de Nina Simone (I Put a Spell on You). Ficou algo Fellini sem a histeria. O problema, recorrente no cinema nacional, são os diálogos, no caso um tanto literários - traindo a origem da história, um romance do chileno Antonio Skármeta - e com imprecisões temporais. Mas o filme é um bonito e bem-vindo esforço que merece parabéns. É o melhor longa brasileiro que vi nos últimos anos (ou o único realmente bom). (Lucas Colombo)

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

MM Recomenda - Amoroso, de João Gilberto



Boa notícia para quem ainda sabe o que é boa música: Amoroso, de João Gilberto, será relançado em vinil. Foi nesse álbum de 1977 que o grande cantor e violonista se mostrou mais "universal". Então já ouvido no mundo todo e morando nos EUA, João pinçou canções em inglês, espanhol, italiano e português cujas letras falassem de relações amorosas (daí o título) para gravá-las em arranjos que uniam seu violão às cordas e sopros do maestro Claus Ogerman, alemão parceiro de Tom Jobim em alguns trabalhos. O resultado musical é tão bom, que compensa a má pronúncia de João nos idiomas estrangeiros. Ele leva 'S Wonderful, o standard dos irmãos Gershwin, numa interpretação delicada e em batida de bossa nova; despe Besame Mucho da dramaticidade de bolerão e, deixando-a quase irreconhecível, põe um figurino low profile no lugar, um tom baixo com harmonização inusitada; e faz scats vocais irresistíveis ("bailo, bailo, bãm bãm bãm...") em Tim-tim por tim-tim, um samba antigo bem sincopado, a faixa mais 'rítmica' do disco. Completa o Lado A a italiana Estate, a única que, arrastada, não dá vontade de ouvir até o fim. No Lado B estão Wave, Retrato em Branco e Preto, Caminhos Cruzados e Triste, quatro belos casamentos de letra e melodia perpetrados por Jobim. John Pizzarelli e Diana Krall, dois nomes competentes do jazz e da canção atuais, já fizeram declarações de amor ao disco. You can't blame them for feeling amorous: é realmente uma beleza esse Amoroso. Vou te contar... (Lucas Colombo)

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

MM Recomenda - Nove Estórias, de J. D. Salinger



Nove Estórias (1953) é Salinger em sua essência. Os temas recorrentes dele estão ali: infância, juventude, classe média, burguesia, traumas da guerra (o escritor serviu na Segunda Guerra), beisebol, paixões não correspondidas, problemas de comunicação... Os personagens ranzinzas e seus diálogos sagazes, com ou sem gírias, também. Os tais nove contos da coletânea foram publicados na renomada revista New Yorker, entre 1948 e 1953. Portanto, o leitor mais atento identificará alguns protótipos de Holden Caulfield, o célebre garoto desajustado de O Apanhador no Campo de Centeio (1951), em algumas histórias. No Brasil, é um pouco complicado encontrar o livro, mesmo em sebos, porque não há grandes tiragens recentes. A Editora do Autor, que detém os direitos autorais de Nove Estórias, é tão ou mais reservada quanto o mitológico e ermitão Salinger. Para se ter uma ideia, desde 1990 a editora só publica o norte-americano. Tem apenas três títulos em seu catálogo: além dos dois já citados, há Franny e Zooey (1961). (Lucas Barroso)

terça-feira, 18 de setembro de 2018

MM Não Recomenda - Hereditário, filme de Ari Aster



Como todo mundo está comentando, talvez você, assim como eu, fique curioso e tome a decisão de assistir ao filme Hereditary num dia chuvoso qualquer. Não cometa esse erro. Não bastasse ser um filme de terror (gênero necessariamente infantil, com as exceções de praxe), Hereditary segue a modinha de criar narrativas cheias de detalhes confusos que, no final, farão sentido. Funciona com Christopher Nolan, mas nas mãos de um roteirista menor é uma verdadeira catástrofe. Você talvez - talvez! - tenha medo e fique realmente intrigado durante parte do filme. Mas aquele final... Ah, aquele final é digno de um Ed Wood. (Paulo Polzonoff)

sexta-feira, 14 de setembro de 2018

MM Recomenda - Contos de Machado de Assis



No mês dos 110 anos da morte de Machado de Assis, indico dois contos dele que reli recentemente: Noite de Almirante, o melhor texto sobre decepção que já encontrei na literatura brasileira, e Um Apólogo, uma aula de escrita de diálogos - falas sintéticas, coloquiais sem serem simplórias, sempre fazendo a conversa avançar (e que final!). Ambos estão em The Collected Stories of Machado de Assis, reunião de 76 das melhores narrativas curtas do Bruxo publicada nos EUA. O livro recebeu uma crítica consagradora do New York Times, em junho. (Lucas Colombo)

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

MM Recomenda - A Vida É Doce, de Lobão



As constantes brigas e polêmicas transformaram Lobão em persona non grata no meio cultural brasileiro. Entretanto, é inegável que o autor de Me Chama, Cena de Cinema, Noite e Dia, Vida Bandida, entre outros hits, tem méritos no que mais importa: sua produção musical. Um exemplo disso é A Vida É Doce, disco lançado em 1999 de forma independente. O CD vinha numerado (uma das tantas disputas em que Lobão se meteu) e encartado em uma revista com edição caprichada. É possivelmente o único trabalho de Trip Hop feito no Brasil e vale muito ser ouvido. Lobão soube canalizar sua ira (como na faixa-título, El Desdichado II e Tão Menina) e sua candura (Uma Delicada Forma de Calor e Vou Te Levar) de maneira totalmente exitosa. Os seus discos anteriores, Nostalgia da Modernidade (1995) e Noite (1998), já experimentavam os efeitos da música eletrônica, deixando o rock de lado. Mas, em A Vida É Doce, Lobão foi mais feliz em sua empreitada. Então, é isso. Esqueça as tretas e foque na música, porque é um discaço. (Lucas Barroso)

quarta-feira, 29 de agosto de 2018

MM Recomenda - Trapo, de Cristovão Tezza



A Record lançou uma reedição comemorativa celebrando os 30 anos de Trapo, de Cristovão Tezza. Leia. Leia nem que seja para entender a mente poética/beatnik tardia de poetas marginais como Leminski. Leia para mergulhar numa Curitiba que não tem nada a ver com o lugar geográfico: a Curitiba mítica, muito mais interessante. E leia para saborear a prosa sempre admirável de Cristovão Tezza. (Paulo Polzonoff)

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

MM Recomenda - A Longa Viagem de Prazer, de Juan José Morosoli



Os homens do pampa descritos sem adjetivos, floreios ou arroubos literários. A solidão e seus dias se arrastando. É isso o que têm a nos oferecer os magníficos contos de Juan José Morosoli (1899-1957), escritor uruguaio que é praticamente um desconhecido do público brasileiro. Por aqui, foram publicados apenas dois livros infanto-juvenis e este A Longa Viagem de Prazer (L&PM, 2009), uma coletânea de contos escolhidos e traduzidos por Sergio Faraco (outro grande contista), facilmente encontrada por baixo preço nos sebos. Mesmo com uma escrita simples, pois assim são os personagens apresentados, em sua maioria uruguaios "esquecidos" no interior do país, Morosoli não cede ao didatismo. O autor não entrega nada pronto ao leitor. A riqueza está no contexto e no que não é dito. E isso é uma das virtudes de um bom contista. A Longa Viagem de Prazer é leitura obrigatória para quem gosta de histórias curtas. Publiquei um dos contos - Solidão – no meu blog. (Lucas Barroso)

terça-feira, 21 de agosto de 2018

MM Não Recomenda - Baseado em Fatos Reais, de Roman Polanski



O novo Polanski, Baseado Em Fatos Reais, sobre escritora antipática em bloqueio criativo que acolhe fã misteriosa, é quase ruim. Narrativa muito acelerada, trilha sonora insistente, Eva Green se esforçando para parecer "enigmática". A história lembra o americano Louca Obsessão (1990), e o recurso à confusão entre ficção e realidade lembra trocentas outras obras criativas. Se você quiser ver um bom filme recente com personagem escritor e que se vale do mesmo recurso de um jeito bem mais envolvente, vá de O Cidadão Ilustre, dos argentinos Mariano Cohn e Gastón Duprat. Polanski perdeu a mão há muito tempo. Alguém que fez filmaços como O Bebê de Rosemary, Repulsa ao Sexo e O Pianista nem precisaria mais fazer muita coisa. (Lucas Colombo)