segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

O que estou lendo - III


Continua a série:


Seleção de depoimentos retirados principalmente de entrevistas a jornais e revistas (algumas estavam perdidas), Nelson Rodrigues – Por ele mesmo (Nova Fronteira, 2012, org. Sonia Rodrigues) é um livro apinhado de curiosidades sobre vida e obra do jornalista e dramaturgo, autor de 17 peças reconhecidas como o auge da dramaturgia brasileira. Nelson consagrou, com sua linguagem polêmica e sem pudor, uma nova forma de fazer teatro no Brasil, sendo um dos pioneiros do modernismo nas artes cênicas do país. O livro traz suas opiniões agudas, seu humor peculiar e suas frases emblemáticas – ainda citadas hoje em dia. Não faltam relatos sobre as angústias da vida e dificuldades para sobreviver de escrita. Nelson dizia muita coisa que ninguém tinha coragem de dizer, sem se preocupar com críticas e julgamentos do seu meio. Leandro Schallenberger

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

O que estou lendo - II


A série continua:


- O livro mais recente que li foi aquela “ruindade deliciosa” que parece ser a marca registrada dos trabalhos de Dan Brown, Origem. O problema é que a “ruindade deliciosa” que me levava a passar a noite acordado só para saber o que aconteceria ao protagonista e sua sempre bela acompanhante envolvidos numa conspiração religiosa qualquer perdeu o adjetivo. Origem consegue a proeza de ser mal escrito e pretensioso ao mesmo tempo. É realmente patético quando um escritor apenas divertido começa a se levar a sério (o mesmo serve para leitores, mas isso não vem ao caso). Paulo Polzonoff

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

O que estou lendo


Começa aqui uma série de posts em que colunistas e colaboradores do MM vão, brevemente, comentar a "Reunião de folhas impressas presas por um lado e enfeixadas ou montadas em capa" (obrigado, Aurélio) que seus olhos percorrem no momento.



- Reli Dom Casmurro, do Machado, para a pós-graduação. Não acredite naquele tom confessional de Bentinho! Capitolina era mais mulher do que ele, homem. Foi essa a traição de Capitu. Dom Casmurro era sociopata. Podia estar em um filme do recém-falecido Tobe Hooper (ou servindo chá com veneno em um romance de Agatha Christie). A fixação pelos olhos de Escobar - e pelos braços da esposa - sempre darão o que falar. Ah... Obrigar a ler a primeira fase de Machado, romântica, na escola, devia condenar qualquer professor a dividir uma cela com o  carrapato do José Dias. De quebra, o docente seria amarrado e exposto a duas horas da (massacrante, mas não elétrica) História dos Subúrbios. Jeison Karnal



- É seguramente a história mais intensa - e triste - do futebol brasileiro. Muito bem contada por Marcos Eduardo Neves, que tabulou um vasto material sobre Heleno de Freitas, um dos maiores artilheiros do Botafogo. Quem gostou da biografia de Garrincha, escrita por Ruy Castro, vai aprovar essa também. Vaidoso e encrenqueiro, de trajetória marcada por excessos com álcool e drogas, o craque morreu em um manicômio, aos 39 anos. Foi tema de diversas crônicas de grandes escritores e jornalistas - um deles, Armando Nogueira, resumiu assim a trágica figura: "Heleno de Freitas morreu, sem gestos, de paralisia progressiva, e descansa, hoje, no cemitério de São João Nepomuceno, onde nasceu um dia para jogar a própria vida num match sem intervalo entre a glória e a desgraça". Biografia que fala muito mais do que futebol. Lucas Barroso



- Voltei a páginas d'O Mal-Estar na Cultura, de Freud, motivado pela tensão política dos tempos. O livro é fundamental para entender o fervor religioso com que tanta gente defende um partido ou ideologia. Freud postula que a perda do amparo dos pais, quando viramos adultos, nos faz inconscientemente procurar "substitutos" deles. Religião, ideologia ou vícios (cigarro e álcool, p.e.) funcionam, para muitos, como substitutos. Precisamos de uma bengala emocional, um amparo espiritual que nos faça aguentar os trancos da vida adulta, e religião ou ideologia proporcionam um sentido, uma força, àqueles que as adotam. Defendem-nas, ainda que confrontados com fatos negativos a respeito, para não desmoronarem, porque a vida sem elas equivaleria a cair no vazio. Sair da infância e amadurecer é um processo lento e doloroso. Eis a explicação para muitos comentários exaltados sobre política que aparecem nas nossas timelines de redes sociais. Lucas Colombo

terça-feira, 29 de agosto de 2017

A grande beleza (que resta)



O filme mais recente do canadense Denys Arcand, diretor do definitivo As Invasões Bárbaras (2003), teve lançamento discretíssimo no Brasil, provavelmente por causa da recepção fria que obteve de público e crítica internacionais. É uma pena que não tenham notado que O Reino da Beleza vale a pena. Arcand parece tê-lo feito (cada filme dele contém um ceticismo sobre seu tempo que permite pensar isso) para resistir ao embrutecimento generalizado, para convidar-nos a contemplar e valorizar o pouco de beleza que ainda há no mundo. Sim, porque há, e ele a mostra: beleza da natureza, das cidades, das pessoas, das coisas simples da vida. É de uma elegância total o trabalho, inclusive no ritmo narrativo e nos diálogos. E, com a trama banal de um homem dividido entre a mulher e a amante, não vai muito além disso. Nem precisava. Buscar o belo, hoje, é um gesto ousado (sim, como foi a busca do “choque” décadas atrás) que já faz por si só uma criação artística se destacar na paisagem. Ao contrário da visão de terra arrasada que expôs no título anterior, A Idade das Trevas (2007), o diretor nos diz agora que a beleza ainda é possível. Ficou mais ingênuo? Não: mais sereno. Vejamos Denys Arcand, vejamos a beleza, e reflitamos sobre tudo isso.

(Lucas Colombo)

sexta-feira, 5 de maio de 2017

Gazeta, mon amour


A Gazeta do Povo vai encerrar suas atividades. Tá, eles vão manter a edição eletrônica, mas, para mim, o fim do jornal impresso, soltando tinta, é a morte do jornal. O que nunca confessei a ninguém, mas confesso agora, é que a Gazeta do Povo foi o grande amor não-realizado da minha vida profissional. Por consequência, o fim do periódico meio que consolida a morte de uma parte importante de mim.

A Gazeta do Povo sempre esteve presente na minha vida. Lembro-me de me levantar bem cedo no domingo, o gramado coberto pela geada, e subir uma baita ladeira no Bairro Alto a fim de comprar o jornal numa mercearia do bairro. E voltar para casa com aquele volumão, todo orgulhoso de ser um filho perfeito, ainda que, para compra-lo, eu tenha pegado dinheiro sem permissão da carteira do meu pai. Ele nunca reclamou.

Além de me dar as tirinhas do Garfield, as fotos-legendas de lugares peculiares de um mundo pré-Internet e as brincadeiras da Gazetinha (sem falar em um ou outro encarte das Lojas Americanas, Pernambucanas ou Mesbla com as mulheres trajando deliciosas, digo, lindas lingeries), a Gazeta do Povo foi a responsável por parte da minha formação intelectual, com as colunas de Paulo Francis, aquela seção de fotos antigas do Cid Destefani e matérias e críticas do Caderno G.

Quando passei no vestibular, corri para a sede do jornal para pegar o exemplar com meu nomezinho orgulhosamente estampado. Foi como um primeiro beijo. Até que, logo depois, acontecesse a ruptura que, hoje sei, foi uma falsa ruptura: entrei para a faculdade de jornalismo e nela descobri que não era de bom tom ler a Gazeta. Muito menos declarar qualquer amor pela Gazeta. Meus professores diziam que tudo ali era manipulado e aprendi a ver os jornalistas como seres maquiavélicos, destinados a, numa galé de máquinas-de-escrever, criar um mundo dividido entre oprimidos e opressores. Essa bobajada toda que a gente “aprende” na faculdade.

(Mas que, com sorte, esquece logo depois).

Tive uma carreira profissional bastante interessante. Rápida. Meteórica, como se diz. Trabalhei nos vários lugares onde meu currículo diz que trabalhei. Mas nunca trabalhei na Gazeta do Povo. E esta é uma ferida que o fechamento do jornal escancara. Para minha própria surpresa, aliás. Fecho os olhos e me lembro das boas casas que me acolheram, mas nesta imagem falta sempre meu lugar ali na sede da praça Carlos Gomes. No final das contas, percebi recentemente que não fiz faculdade para ser jornalista; fiz faculdade para trabalhar na Gazeta.

Se me permito, pois, flertar com a nostalgia e me demorar num inútil momento de autocomiseração, é porque ela, a Gazeta da minha infância, adolescência e parte da vida adulta, acabou sem jamais me dar a mão. Sinto-me como aqueles personagens de romances de aventura que vivem milhares de coisas em todos os lugares possíveis para descobrirem que a felicidade simples estava ali perto, em casa mesmo. Só que, neste caso, a minha casa um tornado digital derrubou.

- Paulo Polzonoff, em seu blog.

sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Por fim


Nossos colunistas são convocados a emitir suas últimas palavras de 2016.


- Neste verão, você me encontrará... sonhando que o sol nasceu quadrado para os políticos de Brasília citados na Lava Jato.

- Melhor coisa de estar vivo em 2016: ler o livro de Adriana Calcanhoto, "Pra que é que serve uma canção como esta".


- Pior coisa de estar vivo em 2016:
 ter a sensação de que perdemos 20 anos ou mais... Afinal, quando é que o Brasil vai perceber a importância da arte e educação?


- Texto que adorei ter lido no MM em 2016:
 "Quarteto em Sol Menor"




- Neste verão, você me encontrará... onde não houver sinal de internet.

- Melhor coisa de estar vivo em 2016:
 t
estemunhar a História do Brasil.

- Pior coisa de estar vivo em 2016: testemunhar a História do Brasil.

- Texto que adorei ter lido no MM em 2016: "Longo tempo de Quaresma". Um artigo que identificou um personagem centenário que ainda resiste, porque o homem sempre vai acreditar. E quem acredita sempre se decepciona.



- Neste verão, você me encontrará... lendo os livros e revistas que não tive tempo de ler durante o ano.

- Melhor coisa de estar vivo em 2016: poder encontrar e conversar com pessoas inteligentes e sensíveis (as poucas que ainda restam).


- Pior coisa de estar vivo em 2016: ver os fenômenos de negação da realidade e desonestidade intelectual se espalharem pelo país e mundo.



- Neste verão, você me encontrará... duvidando de tudo que vejo, ouço e também de tudo o que acredito.
    - Melhor coisa de estar vivo em 2016: começar a ler o romance "Pureza", de Jonathan Franzen, e esperar para ler o novo romance de Jonathan Safran Foer, "Here I Am".
      - Pior coisa de estar vivo em 2016: ver o declínio do jornalismo no Brasil e a vitória de Trump nos EUA.
        - Texto que adorei ter lido no MM em 2016: "Princípio de corrupção"


        (MM)

        quarta-feira, 30 de novembro de 2016

        Indignação inócua



        Philip Roth geralmente não gosta das adaptações cinematográficas de seus romances, e com razão. Em Fatal, versão de O Animal Agonizante, e Revelações, de A Marca Humana, para citar só dois casos, passou-se uma niveladora sobre as histórias. Acontece o mesmo em Indignação, dirigido por James Schamus. Não é contado pelo protagonista à beira da morte, como o livro. Sim, é difícil fazer um enorme flashback dar certo como filme, mas então que se adaptasse outro autor, ora. A força de Indignação, que nem é dos melhores títulos de Roth, se deve muito a esse recurso narrativo, cuja referência o americano admitiu ter sido o Brás Cubas machadiano: sob efeito de morfina, no hospital, o jovem judeu Marcus, ferido na Guerra da Coreia, recapitula sua vida e reflete sobre a inexorabilidade do destino, sobre como o momento histórico e a cultura em que estamos inseridos sufocam nossos projetos de vida. A adaptação não vai fundo nessa reflexão; prefere enfatizar o envolvimento de Marcus com Olívia, moça ao mesmo tempo depressiva e altiva. Ela é o tema de um ótimo - bem rothiano, pela crueza blasé - diálogo do romance, entre Marcus e seu roommate da universidade: "Ela chupou meu pau". "Ok, fico feliz por você, Marcus, mas, se não se importa, tenho um trabalho a fazer...". Esse, pelo menos, entrou no filme. Está lá também a discussão áspera sobre religião que o jovem trava com o reitor. Não entrou, porém, uma das melhores cenas do livro, bastante ao estilo "obsessivo" de Roth: Marcus gosta tanto do que Olívia escreve numa carta, que lambe a assinatura dela demoradamente. Só na última cena o filme consegue ser sutil, mas aí já é tarde. O ator, Logan Lerman, fraquinho, também não colabora para melhorar as coisas ao ficar com a mesma expressão facial do início ao fim. Não adianta, nunca é fácil adaptar uma voz literária de primeira linha (mais ou menos o que ressaltou este artigo da New Yorker). A discussão é velha, mas incontornável.

        (Lucas Colombo)

        terça-feira, 4 de outubro de 2016

        Desculpa


        Uma das noções mais destrutivas da história do pensamento humano é a utopia. A ideia de que é possível formar uma sociedade perfeita, seja nesta vida ou em outra posterior, é muito destrutiva. Porque a consequência é que não importa se você matou um milhão de pessoas no caminho: o objetivo é a perfeição e isso desculpa qualquer crime.

        - Escritor britânico Ian McEwan, de “Reparação” e “Na praia”, em entrevista ao ElPaís Brasil. Recado que poderia ser dirigido aos brasileiros empenhados em propagar a ideia de que corrupção é um fato menor diante da “redução da pobreza”...


        (Lucas Colombo)

        quarta-feira, 13 de julho de 2016

        Tempos (pós-) modernos



        O muito bom MoMA de San Francisco, California, reinaugurado em maio, abriga a escultura "Sequence" (2006), feita com placas de aço por Richard Serra, para mim o mais respeitável nome da chamada arte contemporânea. Trabalho grande e elegante, como se espera de seu autor, compõe-se de elipses retorcidas interligadas por um "S", por dentro das quais o público pode andar, como num labirinto. O "S" dá a impressão de que estamos voltando para o ponto de onde partimos, mas não estamos.

        O aço pesado consegue transmitir leveza. Eis a ambiguidade sempre desejada numa obra de arte.



        E o museu tem ainda uma mostra temporária com os mobiles de Alexander Calder, o escultor americano morto há 40 anos. Chapas de metal coloridas e vazadas unidas por fios de arame, que se movem com o vento. Frequentador do Brasil entre os anos 1940 e 1960 (doou a peça "Black widow" para o Instituto dos Arquitetos do Brasil, em SP), Calder deitou influências na chamada segunda geração modernista. Sua obra ecoa, em especial, na de Abraham Palatnik, com a diferença de que as esculturas desse se movimentam ordenadamente por força de motores e imãs.


        Um de seus stabiles, com os quais os "Bichos" de Lygia Clark dialogam:


        Elegância, leveza, precisão e reflexão.

        (Lucas Colombo, de San Francisco - EUA)

        segunda-feira, 13 de junho de 2016

        Rekado


        "Conservadoristas, regionalistas, nacionalistas e populistas da cultura: forget. Cultura não tem pátria, nem jeito, nem local, nem hora. Vem de todos os lados, por todos os caminhos. Cultura só não sai dos ministérios de Kultura".

        - Millôr Fernandes. Nem preciso dizer por que estou citando-o.

        (Lucas Colombo)