sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Por fim


Nossos colunistas são convocados a emitir suas últimas palavras de 2016.


- Neste verão, você me encontrará... sonhando que o sol nasceu quadrado para os políticos de Brasília citados na Lava Jato.

- Melhor coisa de estar vivo em 2016: ler o livro de Adriana Calcanhoto, "Pra que é que serve uma canção como esta".


- Pior coisa de estar vivo em 2016:
 ter a sensação de que perdemos 20 anos ou mais... Afinal, quando é que o Brasil vai perceber a importância da arte e educação?


- Texto que adorei ter lido no MM em 2016:
 "Quarteto em Sol Menor"




- Neste verão, você me encontrará... onde não houver sinal de internet.

- Melhor coisa de estar vivo em 2016:
 t
estemunhar a História do Brasil.

- Pior coisa de estar vivo em 2016: testemunhar a História do Brasil.

- Texto que adorei ter lido no MM em 2016: "Longo tempo de Quaresma". Um artigo que identificou um personagem centenário que ainda resiste, porque o homem sempre vai acreditar. E quem acredita sempre se decepciona.



- Neste verão, você me encontrará... lendo os livros e revistas que não tive tempo de ler durante o ano.

- Melhor coisa de estar vivo em 2016: poder encontrar e conversar com pessoas inteligentes e sensíveis (as poucas que ainda restam).


- Pior coisa de estar vivo em 2016: ver os fenômenos de negação da realidade e desonestidade intelectual se espalharem pelo país e mundo.



- Neste verão, você me encontrará... duvidando de tudo que vejo, ouço e também de tudo o que acredito.
    - Melhor coisa de estar vivo em 2016: começar a ler o romance "Pureza", de Jonathan Franzen, e esperar para ler o novo romance de Jonathan Safran Foer, "Here I Am".
      - Pior coisa de estar vivo em 2016: ver o declínio do jornalismo no Brasil e a vitória de Trump nos EUA.
        - Texto que adorei ter lido no MM em 2016: "Princípio de corrupção"


        (MM)

        quarta-feira, 30 de novembro de 2016

        Indignação inócua



        Philip Roth geralmente não gosta das adaptações cinematográficas de seus romances, e com razão. Em Fatal, versão de O Animal Agonizante, e Revelações, de A Marca Humana, para citar só dois casos, passou-se uma niveladora sobre as histórias. Acontece o mesmo em Indignação, dirigido por James Schamus. Não é contado pelo protagonista à beira da morte, como o livro. Sim, é difícil fazer um enorme flashback dar certo como filme, mas então que se adaptasse outro autor, ora. A força de Indignação, que nem é dos melhores títulos de Roth, se deve muito a esse recurso narrativo, cuja referência o americano admitiu ter sido o Brás Cubas machadiano: sob efeito de morfina, no hospital, o jovem judeu Marcus, ferido na Guerra da Coreia, recapitula sua vida e reflete sobre a inexorabilidade do destino, sobre como o momento histórico e a cultura em que estamos inseridos sufocam nossos projetos de vida. A adaptação não vai fundo nessa reflexão; prefere enfatizar o envolvimento de Marcus com Olívia, moça ao mesmo tempo depressiva e altiva. Ela é o tema de um ótimo - bem rothiano, pela crueza blasé - diálogo do romance, entre Marcus e seu roommate da universidade: "Ela chupou meu pau". "Ok, fico feliz por você, Marcus, mas, se não se importa, tenho um trabalho a fazer...". Esse, pelo menos, entrou no filme. Está lá também a discussão áspera sobre religião que o jovem trava com o reitor. Não entrou, porém, uma das melhores cenas do livro, bastante ao estilo "obsessivo" de Roth: Marcus gosta tanto do que Olívia escreve numa carta, que lambe a assinatura dela demoradamente. Só na última cena o filme consegue ser sutil, mas aí já é tarde. O ator, Logan Lerman, fraquinho, também não colabora para melhorar as coisas ao ficar com a mesma expressão facial do início ao fim. Não adianta, nunca é fácil adaptar uma voz literária de primeira linha (mais ou menos o que ressaltou este artigo da New Yorker). A discussão é velha, mas incontornável.

        (Lucas Colombo)

        terça-feira, 4 de outubro de 2016

        Desculpa


        Uma das noções mais destrutivas da história do pensamento humano é a utopia. A ideia de que é possível formar uma sociedade perfeita, seja nesta vida ou em outra posterior, é muito destrutiva. Porque a consequência é que não importa se você matou um milhão de pessoas no caminho: o objetivo é a perfeição e isso desculpa qualquer crime.

        - Escritor britânico Ian McEwan, de “Reparação” e “Na praia”, em entrevista ao ElPaís Brasil. Recado que poderia ser dirigido aos brasileiros empenhados em propagar a ideia de que corrupção é um fato menor diante da “redução da pobreza”...


        (Lucas Colombo)

        quarta-feira, 13 de julho de 2016

        Tempos (pós-) modernos



        O muito bom MoMA de San Francisco, California, reinaugurado em maio, abriga a escultura "Sequence" (2006), feita com placas de aço por Richard Serra, para mim o mais respeitável nome da chamada arte contemporânea. Trabalho grande e elegante, como se espera de seu autor, compõe-se de elipses retorcidas interligadas por um "S", por dentro das quais o público pode andar, como num labirinto. O "S" dá a impressão de que estamos voltando para o ponto de onde partimos, mas não estamos.

        O aço pesado consegue transmitir leveza. Eis a ambiguidade sempre desejada numa obra de arte.



        E o museu tem ainda uma mostra temporária com os mobiles de Alexander Calder, o escultor americano morto há 40 anos. Chapas de metal coloridas e vazadas unidas por fios de arame, que se movem com o vento. Frequentador do Brasil entre os anos 1940 e 1960 (doou a peça "Black widow" para o Instituto dos Arquitetos do Brasil, em SP), Calder deitou influências na chamada segunda geração modernista. Sua obra ecoa, especialmente, na de Abraham Palatnik, com a diferença de que as esculturas desse se movimentam por força de motores e imãs.


        Um de seus stabiles, com os quais os "Bichos" de Lygia Clark dialogam:


        Elegância, leveza, precisão e reflexão.

        (Lucas Colombo, de San Francisco - EUA)

        segunda-feira, 13 de junho de 2016

        Rekado


        "Conservadoristas, regionalistas, nacionalistas e populistas da cultura: forget. Cultura não tem pátria, nem jeito, nem local, nem hora. Vem de todos os lados, por todos os caminhos. Cultura só não sai dos ministérios de Kultura".

        - Millôr Fernandes. Nem preciso dizer por que estou citando-o.

        (Lucas Colombo)

        sexta-feira, 8 de abril de 2016

        "O eterno petista"


        "A Operação Lava Jato e as discussões sobre o impeachment de Dilma revelaram um tipo interessante de brasileiro – o eterno petista.

        O eterno petista continua defendendo o PT mesmo depois de todos os seus ideais terem sido traídos pelo partido. Continua petista mesmo depois do PT ter levado a níveis estratosféricos a corrupção que prometia erradicar. Mesmo depois do partido se aliar aos homens que o eterno petista considerava os vilões da política brasileira.

        Para justificar a durabilidade da sua crença, o eterno petista é capaz das mais impressionantes acrobacias intelectuais. Foi assim na última década – quando Lula decidiu manter a política econômica de FHC, ou durante o mensalão, na aliança com Fernando Collor e Paulo Maluf, no petrolão, nas trapalhadas econômicas de Dilma, na reforma do sítio e do tríplex, na nomeação de Lula ao cargo de ministro. É interessante imaginar como o eterno petista reagirá se o PT continuar governando o Brasil nas próximas décadas.

        Em 2017, a inflação chegará a 32%. O eterno petista dirá, primeiro, que vivemos uma conspiração de estatísticos do IBGE e da FGV contra o governo Dilma. Depois, vai requentar discursos dos anos 80 e culpará os donos de supermercados pelo aumento dos preços.

        Em 2018, durante uma conversa com diretores da OAS, Lula dirá “como assim não tem mais doação pra campanha, querido? Quer contrato com a Petrobras ou não? ”. O eterno petista dirá que Lula foi vítima de um grampo ilegal determinado por juízes com motivações golpistas que só investigam o PT. “A luta contra a corrupção foi também o mote usado pelos que apoiaram o golpe em 1964”, afirmará o eterno petista em vídeos e em artigos de jornal.

        “Cadê meus milhão?”, dirá Lula numa outra ligação grampeada com autorização judicial. O eterno petista explicará que Lula na verdade se referia a doações de milhos para os voluntários de sua campanha a presidente, e que ele não sabe flexionar o plural porque tem uma origem humilde, e exatamente por isso é preciso votar nele e se revoltar contra blogueiros da elite conservadora que ridicularizam as limitações gramaticais dos brasileiros menos favorecidos.

        Em janeiro de 2019, em sua primeira semana de governo, o presidente Lula vai ordenar o BNDES a emprestar 33 trilhões de reais para a Odebrecht, a OAS e a Camargo Correia. O Jornal Nacional revelará que 20% desse valor foram parar na conta de um dos filhos do presidente. O eterno petista absolverá o PT e acusará a “imprensa controlada por cinco famílias que nunca toleraram a ascensão de Lula”."

        - Jornalista e escritor Leandro Narloch, com humor irresistível, em sua coluna no site da Veja. Leia o texto inteiro aqui.

        (Lucas Colombo)

        terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

        Editor's choice


        Em ordem cronológica, o que de melhor o MM publicou nos últimos 12 meses, na visão deste editor. Para (re)ler nas férias.

        - "Que crítica?!...", by Carlos Fernando e Frederico Barbosa
        - "O cinema e a guerra", by Muriel Paraboni
        - "Operação Questionar", by Lucas Colombo
        - "TV Excelência" (Mad Men), by Lucas Colombo
        - "Las ventanas", by Emerson Machado
        - "Ativismo é a segunda pauta", by Lucas Barroso
        - "A linguagem do rio", by Muriel Paraboni
        - "A essência da arte", by Lucas Barroso
        - "Contra os clichês" (entrevista com Cíntia Moscovich), by Lucas Colombo
        - "Não há rei no Brasil" (Chatô), by Rafael Fais
        - "Longo tempo de Quaresma", by Lucas Colombo

        (Lucas Colombo)

        terça-feira, 12 de janeiro de 2016

        Quaresma prossegue


        No meu artigo feito na esteira dos cem anos de “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, republicado no MM, destaquei trechos do romance que Lima Barreto poderia ter escrito em 2015, tamanha a semelhança com o atual cenário político brasileiro. Aqui vão mais dois:

        Esse entusiasmo e esse fanatismo, que o ampararam, que o animaram, que o sustentaram, só teriam sido possíveis depois de ter ele sido ajudante general do Império, senador, ministro, isto é, após se ter ‘fabricado’ à vista de todos e cristalizado a lenda na mente de todos.” O narrador refere-se a Floriano Peixoto, segundo presidente da História do Brasil, mas bem poderia estar falando de Dilma Rousseff.

        Os governos, com os seus inevitáveis processos de violência e hipocrisias, ficam alheados da simpatia dos que acreditam nele; e demais, esquecidos de sua vital impotência e inutilidade, levam a prometer o que não podem fazer, de forma a criar desesperados, que pedem sempre mudanças e mudanças.” É o que vemos agora: uma população que reclama de ter sido enganada pela candidata vencedora das eleições e, por isso e pelas crises política e econômica, dão-lhe índices recordes de impopularidade.

        Lima parece descrever aspectos da cultura atual também: “aquelas cantigas gritadas, berradas, num ritmo duro e de uma grande indigência melódica” é a observação de uma personagem acerca de uma festa de rua...

        Uma das razões por que a crítica tem saudado a geração atual de romancistas brasileiros é a de essa não ter uma “agenda” política (perfil do elogiado Daniel Galera, na revista Piauí, dava conta de que ele não se interessa pelo tema). A despreocupação em debater a sociedade brasileira é vista como sinal de maturidade. Ok, é bom mesmo haver mais diversidade, sutileza e fuga do mero panfleto. Mas umas cutucadas literárias bem dadas no país, como as que Lima deu e como as que, por exemplo, autores americanos contemporâneos dão nos EUA, às vezes fazem falta por aqui (terá Fernando Bonassi vindo suprir a carência?)... Motivos para cutucar proliferam. Lima sabia disso, seu personagem centenário termina sabendo, e os brasileiros enfim desiludidos agora também sabem.

        (Lucas Colombo)

        domingo, 6 de dezembro de 2015

        Paralisia bienal


        Percorrer a 10ª Bienal do Mercosul, encerrada hoje, fez-me lembrar um artigo do Daniel Piza, "Mitos paralisantes", do livro "Questão de gosto", em que ele diz existir, na cultura brasileira, grupos que vivem de "agregar bajuladores em eventos auto-referentes", vendendo "a mesma ideia há 40 anos" mesmo que ainda se afirmem inovadores, e que, com esse discurso de sempre, impedem a arte brasileira de ir para frente. Nomes aos bois: cinema glauberiano, tropicalismo, teatro de Zé Celso e... concretismo e antropofagia. Essa Bienal deu razão a Piza. Estavam ali, de novo, Augusto de Campos e Ferreira Gullar e o lugar-comum da antropofagia oswaldiana, o deglutir de influências estrangeiras e sua devolução como produto 'original', 'nacional'. E tome Tarsila, tome Oiticica...

        A mostra do Santander Cultural, intitulada, claro, "Antropofagia neobarroca", foi toda nessa direção, sem esquecer a velha abordagem do "colonialismo", cara à esquerda latino-americana. Isso explica a presença de "Ecce Homo", do uruguaio Federico Arnaud, vídeo com a logomarca da Coca-Cola. As telas de artistas contemporâneos que também compunham a mostra eram mais ilustrações do que pinturas, com pouca interação entre figura e fundo, nada muito digno de atenção, e a clássica "Tiradentes supliciado", de Pedro Américo, me pareceu constar mais pelo valor histórico do que artístico. Uma curiosidade era a pintura de 1994 de Beatriz Milhazes, ainda sem as características que nos acostumamos a ver na autora (muitas cores, arabescos), a não ser os círculos concêntricos. Gostei de "Anaconda", do venezuelano Carlos Zerpa, 2013, foto abaixo. Exemplo do que se pode fazer com um material de uso superado como discos de vinil, além de, claro, ser uma boa representação do 'envolvimento' que a música nos proporciona. Mais do que uma referência ao mito amazônico do réptil que come grandes animais e os rumina por dias, no que seria 'antropofágico', etc. etc.


        "O canibal" (2000), de Ana Norogandro, também me fez parar para fotografar:


        A exposição reservada ao MARGS, "Modernismo em paralaxe", deveria se chamar "Pós-modernismo em paralaxe", pois o que mais se viam eram trabalhos da chamada 
        segunda fase modernista, iniciada nos anos 1960. Li que a proposta era "desconstruir a noção de um movimento internacional coeso e organizado", mas, sorry, a proposta não foi atingida. As peças expostas eram bastante semelhantes, voltadas às estéticas modernistas conhecidas: cubismo, abstracionismo geométrico, concretismo... E, como de hábito, havia na mostra alguns daqueles trabalhos de "arte contemporânea" que não dá para levar muito a sério. Caso de "Pilha", do carioca Milton Machado, apenas gaveteiros empilhados (talvez fosse mais pertinente a uma feira de móveis); das colagens do gaúcho André Petry, muito simples na forma e de conteúdo pouco ambicioso; e da videoarte do mexicano Francisco Ugarte, 2011, uma projeção de slides de formas geométricas (se você quiser uma obra criativa mais satisfatória envolvendo projeção de slides, fique com essa cena linda da primeira temporada de Mad Men). Me prendeu mais a tela com uma das paisagens nebulosas, algo melancólicas, de Guignard. A foto a seguir é um detalhe da escultura "Coluna neoconcreta", do austríaco naturalizado brasileiro Franz Weissmann, com os "Parangolés" de Oiticica ao fundo. Aliás, um contrassenso: criadas para que o público pudesse trajá-las, essas capas e túnicas foram expostas na parede, com aquela faixa branca de "Não ultrapasse" no chão a impedir o contato dos visitantes.


        Na Usina do Gasômetro, um trabalho discreto e atraente era o "Tintas Polvo" (2013), de Adriana Varejão, um conjunto de bisnagas de tinta desenvolvido pela artista a partir 
        de cores que, numa pesquisa, brasileiros atribuíram às suas peles: "parda clara", "meio preto", "sapecada", "branquinha" e por aí vai. Valeu ver, também, a instalação "Roda dos prazeres", de Lygia Pape, e os globos iluminados do colombiano Oswaldo Maciá. Pelo inusitado, o maior destaque lá era a mostra "Olfatório: o cheiro na arte", constituída por obras que exalam ou evocam aromas, agradáveis - a exemplo das caixas olfativas de José Ronaldo Lima - ou desagradáveis - a videoarte da paraguaia Patricia Wich, composta por imagens de corpos em decomposição. That's rare.

        Ainda na Usina, a seção "Aparatos do corpo", reunião de trabalhos que representavam corpos ou a relação do homem com as vestimentas, tinha um excelente Iberê, "Mímica", (1987), do período em que o grande pintor voltou ao figurativismo (abaixo, detalhe). De resto, muita arte conceitual, aquela que exige do espectador conhecer o 'conceito' para, só assim, entender as obras, em boa parte responsável pelo afastamento do público das artes visuais nas últimas décadas, e, guess what?, mais um Oiticica, com, de novo, a instalação "Tropicália".


        Bienal de altos e baixos, mais baixos que altos. E que barulho e problemas geram esses baixos.


        (Texto e fotos: Lucas Colombo)

        quinta-feira, 19 de novembro de 2015

        Complacência


        “A complacência da crítica com um filme como Onde Anda Você, de Sérgio Rezende, é de pasmar. Sempre contaminada por ideologia, mesmo sem saber, ela viu ali uma busca felliniana da inocência brasileira que merece elogio já por tal pretensão. Mas o fato é que o filme, mistura de Tieta e Central do Brasil, não passa de uma sucessão de clichês (com a cena final na praia) e piadas sem graça (até aquela do falso paralítico!), com atuações muito desiguais. Não teremos uma cultura sólida enquanto o padrão de exigência continuar tão baixo.”

        - Daniel Piza, em comentário de 25 de abril de 2004 que vale muitíssimo para este momento de quase unanimidade crítica em torno de “Que horas ela volta?”, filme de defeitos semelhantes aos aí relacionados. Os críticos de dez anos atrás devem ser os mesmos de agora.

        (Lucas Colombo)