terça-feira, 1 de julho de 2008

Impávidos que nem Muhammad Ali


Foto: Agência Bossa/Santander Cultural


Soube hoje que o artista urbano Nunca, um dos nomes presentes na mostra TRANSFER, em cartaz no Santander Cultural (Porto Alegre), finalizou um painel (foto) que estava confeccionando no próprio espaço da mostra, para o público acompanhar. Em uma parede de 15x8 metros, ele fez uma pintura que remete à já famosa foto de uma tribo indígena isolada no Acre, divulgada pela FUNAI em maio e bastante comentada na imprensa brasileira e também na internacional. A imagem que inspirou Nunca mostrava índios pintados para a guerra, atirando flechas contra o avião da FUNAI, em plena Floresta Amazônica. A fundação afirmou se tratar de uma tribo totalmente desconhecida e sem nenhum contato com o homem civilizado.

Pois bem. A tal foto gerou polêmica. O jornal inglês The Guardian e o espanhol El País publicaram matérias, semana passada, dando conta de que a imagem seria uma fraude. O próprio sertanista que tirou a foto, José Carlos Meirelles, teria confessado para um correspondente estrangeiro no Brasil que a tribo era conhecida desde 1910. Conforme o Guardian e o El País, a área onde a tribo se encontrava também seria conhecida pela FUNAI há quase 20 anos. E, segundo um site da Holanda, um antropólogo de lá, ao analisar a foto, concluiu que ela era resultado de uma 'encenação' para a câmera (a impressão - impressão, repito - ao olhar a foto é essa, mesmo). Tudo teria sido armado por Meirelles e pela organização de defesa dos índios Survival International para chamar a atenção sobre a exploração ilegal de madeira naquela região do Brasil.

Ontem, porém, o sertanista divulgou uma nota em que afirma ter havido equívocos no tratamento que a imprensa estrangeira dispensou ao caso. Disse que, realmente, a existência daquela tribo é conhecida há muito tempo, mas que, dessa informação, o The Guardian tirou a conclusão precipitada de que a foto havia sido uma fraude. Meirelles sustentou que divulgou a imagem apenas para mostrar que a tribo existe, e não para anunciar a 'descoberta' dela. A imprensa européia teria 'embarcado' na matéria do Guardian, fazendo um estardalhaço que, segundo Meirelles, só contribuiu para que os madeireiros continuem motivados a explorar as terras dos índios. E aí, quem está certo nessa história?

A polêmica foi assunto no Estadão e no Manhattan Connection do último domingo. Enquanto as coisas não se esclarecem, fiquemos com o interessante painel de Nunca no Santander. Na realização deste parece que não houve nenhuma farsa.

(Lucas Colombo)

Um comentário:

Vássia Silveira disse...

O Meirelles trabalha na Frente de Proteção Etno-ambiental do Rio Envira há mais de 20 anos e em 2004 chegou a ser atacado a flechadas por índios de etnia desconhecida. Seu trabalho é sério e de fundamental importância para evitar o contato do homem branco com os índios isolados (e isso inclue, é claro, o avanço da extração ilegal de madeira na região). Acompanhei a divulgação e o estardalhaço que a mídia fez em torno das fotos e acho que falar de "fraude" só não soa engraçado porque parece que a imprensa estrangeira conseguiu inventar piada maior: a de que os índios estavam posando para a câmera!