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quarta-feira, 6 de junho de 2018

O que estou lendo - IV



- Philip Roth, que morreu no dia 22 de maio, não faz exatamente o meu tipo de literatura. Racional demais, realista, correto na forma. Mas há pouco li O Animal Agonizante e não tive dúvida da sua importância como escritor. É leitura de um fôlego só, escrita afiada, inteligente e que perturba. Sem floreios ou compromissos de qualquer espécie, exceto com uma visceral arqueologia dos instintos. Por vezes os personagens cansam, incomodam pelo cinismo, pelo excesso de ironia, autoidealização que não deixa de ser muito mundana. Mas isso não afeta a qualidade geral da obra, que está comprometida de maneira irrestrita com a honestidade do autor. Nada mais estranho a Roth do que agradar, escrever bonito. Ele fala sobre o que pensa e vê no íntimo do ser humano, exercendo total independência para ser desagradável, incorreto, provocador. Com isso ele traz suas verdades à tona, deixando marcas significativas e duradoras em quem lê. Muriel Paraboni

Mais "O Que Estou Lendo" aqui.


segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

O que estou lendo - III


Continua a série:


Seleção de depoimentos retirados principalmente de entrevistas a jornais e revistas (algumas estavam perdidas), Nelson Rodrigues – Por ele mesmo (Nova Fronteira, 2012, org. Sonia Rodrigues) é um livro apinhado de curiosidades sobre vida e obra do jornalista e dramaturgo, autor de 17 peças reconhecidas como o auge da dramaturgia brasileira. Nelson consagrou, com sua linguagem polêmica e sem pudor, uma nova forma de fazer teatro no Brasil, sendo um dos pioneiros do modernismo nas artes cênicas do país. O livro traz suas opiniões agudas, seu humor peculiar e suas frases emblemáticas – ainda citadas hoje em dia. Não faltam relatos sobre as angústias da vida e dificuldades para sobreviver de escrita. Nelson dizia muita coisa que ninguém tinha coragem de dizer, sem se preocupar com críticas e julgamentos do seu meio. Leandro Schallenberger

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

O que estou lendo - II


A série continua:


- O livro mais recente que li foi aquela “ruindade deliciosa” que parece ser a marca registrada dos trabalhos de Dan Brown, Origem. O problema é que a “ruindade deliciosa” que me levava a passar a noite acordado só para saber o que aconteceria ao protagonista e sua sempre bela acompanhante envolvidos numa conspiração religiosa qualquer perdeu o adjetivo. Origem consegue a proeza de ser mal escrito e pretensioso ao mesmo tempo. É realmente patético quando um escritor apenas divertido começa a se levar a sério (o mesmo serve para leitores, mas isso não vem ao caso). Paulo Polzonoff

quarta-feira, 30 de agosto de 2017

O que estou lendo


Começa aqui uma série de posts em que colunistas e colaboradores do MM vão, brevemente, comentar a "Reunião de folhas impressas presas por um lado e enfeixadas ou montadas em capa" (obrigado, Aurélio) que seus olhos percorrem no momento.



- Reli Dom Casmurro, do Machado, para a pós-graduação. Não acredite naquele tom confessional de Bentinho! Capitolina era mais mulher do que ele, homem. Foi essa a traição de Capitu. Dom Casmurro era sociopata. Podia estar em um filme do recém-falecido Tobe Hooper (ou servindo chá com veneno em um romance de Agatha Christie). A fixação pelos olhos de Escobar - e pelos braços da esposa - sempre darão o que falar. Ah... Obrigar a ler a primeira fase de Machado, romântica, na escola, devia condenar qualquer professor a dividir uma cela com o  carrapato do José Dias. De quebra, o docente seria amarrado e exposto a duas horas da (massacrante, mas não elétrica) História dos Subúrbios. Jeison Karnal



- É seguramente a história mais intensa - e triste - do futebol brasileiro. Muito bem contada por Marcos Eduardo Neves, que tabulou um vasto material sobre Heleno de Freitas, um dos maiores artilheiros do Botafogo. Quem gostou da biografia de Garrincha, escrita por Ruy Castro, vai aprovar essa também. Vaidoso e encrenqueiro, de trajetória marcada por excessos com álcool e drogas, o craque morreu em um manicômio, aos 39 anos. Foi tema de diversas crônicas de grandes escritores e jornalistas - um deles, Armando Nogueira, resumiu assim a trágica figura: "Heleno de Freitas morreu, sem gestos, de paralisia progressiva, e descansa, hoje, no cemitério de São João Nepomuceno, onde nasceu um dia para jogar a própria vida num match sem intervalo entre a glória e a desgraça". Biografia que fala muito mais do que futebol. Lucas Barroso



- Voltei a páginas d'O Mal-Estar na Cultura, de Freud, motivado pela tensão política dos tempos. O livro é fundamental para entender o fervor religioso com que tanta gente defende um partido ou ideologia. Freud postula que a perda do amparo dos pais, quando viramos adultos, nos faz inconscientemente procurar "substitutos" deles. Religião, ideologia ou vícios (cigarro e álcool, p.e.) funcionam, para muitos, como substitutos. Precisamos de uma bengala emocional, um amparo espiritual que nos faça aguentar os trancos da vida adulta, e religião ou ideologia proporcionam um sentido, uma força, àqueles que as adotam. Defendem-nas, ainda que confrontados com fatos negativos a respeito, para não desmoronarem, porque a vida sem elas equivaleria a cair no vazio. Sair da infância e amadurecer é um processo lento e doloroso. Eis a explicação para muitos comentários exaltados sobre política que aparecem nas nossas timelines de redes sociais. Lucas Colombo