segunda-feira, 13 de junho de 2016
Rekado
"Conservadoristas, regionalistas, nacionalistas e populistas da cultura: forget. Cultura não tem pátria, nem jeito, nem local, nem hora. Vem de todos os lados, por todos os caminhos. Cultura só não sai dos ministérios de Kultura".
- Millôr Fernandes. Nem preciso dizer por que estou citando-o.
(Lucas Colombo)
sexta-feira, 8 de abril de 2016
"O eterno petista"
"A Operação Lava Jato e as discussões sobre o impeachment de Dilma revelaram um tipo interessante de brasileiro – o eterno petista.
O eterno petista continua defendendo o PT mesmo depois de todos os seus ideais terem sido traídos pelo partido. Continua petista mesmo depois do PT ter levado a níveis estratosféricos a corrupção que prometia erradicar. Mesmo depois do partido se aliar aos homens que o eterno petista considerava os vilões da política brasileira.
Para justificar a durabilidade da sua crença, o eterno petista é capaz das mais impressionantes acrobacias intelectuais. Foi assim na última década – quando Lula decidiu manter a política econômica de FHC, ou durante o mensalão, na aliança com Fernando Collor e Paulo Maluf, no petrolão, nas trapalhadas econômicas de Dilma, na reforma do sítio e do tríplex, na nomeação de Lula ao cargo de ministro. É interessante imaginar como o eterno petista reagirá se o PT continuar governando o Brasil nas próximas décadas.
Em 2017, a inflação chegará a 32%. O eterno petista dirá, primeiro, que vivemos uma conspiração de estatísticos do IBGE e da FGV contra o governo Dilma. Depois, vai requentar discursos dos anos 80 e culpará os donos de supermercados pelo aumento dos preços.
Em 2018, durante uma conversa com diretores da OAS, Lula dirá “como assim não tem mais doação pra campanha, querido? Quer contrato com a Petrobras ou não? ”. O eterno petista dirá que Lula foi vítima de um grampo ilegal determinado por juízes com motivações golpistas que só investigam o PT. “A luta contra a corrupção foi também o mote usado pelos que apoiaram o golpe em 1964”, afirmará o eterno petista em vídeos e em artigos de jornal.
“Cadê meus milhão?”, dirá Lula numa outra ligação grampeada com autorização judicial. O eterno petista explicará que Lula na verdade se referia a doações de milhos para os voluntários de sua campanha a presidente, e que ele não sabe flexionar o plural porque tem uma origem humilde, e exatamente por isso é preciso votar nele e se revoltar contra blogueiros da elite conservadora que ridicularizam as limitações gramaticais dos brasileiros menos favorecidos.
Em janeiro de 2019, em sua primeira semana de governo, o presidente Lula vai ordenar o BNDES a emprestar 33 trilhões de reais para a Odebrecht, a OAS e a Camargo Correia. O Jornal Nacional revelará que 20% desse valor foram parar na conta de um dos filhos do presidente. O eterno petista absolverá o PT e acusará a “imprensa controlada por cinco famílias que nunca toleraram a ascensão de Lula”."
- Jornalista e escritor Leandro Narloch, com humor irresistível, em sua coluna no site da Veja. Leia o texto inteiro aqui.
(Lucas Colombo)
terça-feira, 16 de fevereiro de 2016
Editor's choice
Em ordem cronológica, o que de melhor o MM publicou nos últimos 12 meses, na visão deste editor. Para (re)ler nas férias.
- "Que crítica?!...", by Carlos Fernando e Frederico Barbosa
- "O cinema e a guerra", by Muriel Paraboni
- "Operação Questionar", by Lucas Colombo
- "TV Excelência" (Mad Men), by Lucas Colombo
- "Las ventanas", by Emerson Machado
- "Ativismo é a segunda pauta", by Lucas Barroso
- "A linguagem do rio", by Muriel Paraboni
- "A essência da arte", by Lucas Barroso
- "Contra os clichês" (entrevista com Cíntia Moscovich), by Lucas Colombo
- "Não há rei no Brasil" (Chatô), by Rafael Fais
- "Longo tempo de Quaresma", by Lucas Colombo
(Lucas Colombo)
terça-feira, 12 de janeiro de 2016
Quaresma prossegue
No meu artigo feito na esteira dos cem anos de “Triste Fim de Policarpo Quaresma”, republicado no MM, destaquei trechos do romance que Lima Barreto poderia ter escrito em 2015, tamanha a semelhança com o atual cenário político brasileiro. Aqui vão mais dois:
“Esse entusiasmo e esse fanatismo, que o ampararam, que o animaram, que o sustentaram, só teriam sido possíveis depois de ter ele sido ajudante general do Império, senador, ministro, isto é, após se ter ‘fabricado’ à vista de todos e cristalizado a lenda na mente de todos.” O narrador refere-se a Floriano Peixoto, segundo presidente da História do Brasil, mas bem poderia estar falando de Dilma Rousseff.
“Os governos, com os seus inevitáveis processos de violência e hipocrisias, ficam alheados da simpatia dos que acreditam nele; e demais, esquecidos de sua vital impotência e inutilidade, levam a prometer o que não podem fazer, de forma a criar desesperados, que pedem sempre mudanças e mudanças.” É o que vemos agora: uma população que reclama de ter sido enganada pela candidata vencedora das eleições e, por isso e pelas crises política e econômica, dão-lhe índices recordes de impopularidade.
Lima parece descrever aspectos da cultura atual também: “aquelas cantigas gritadas, berradas, num ritmo duro e de uma grande indigência melódica” é a observação de uma personagem acerca de uma festa de rua...
Uma das razões por que a crítica tem saudado a geração atual de romancistas brasileiros é a de essa não ter uma “agenda” política (perfil do elogiado Daniel Galera, na revista Piauí, dava conta de que ele não se interessa pelo tema). A despreocupação em debater a sociedade brasileira é vista como sinal de maturidade. Ok, é bom mesmo haver mais diversidade, sutileza e fuga do mero panfleto. Mas umas cutucadas literárias bem dadas no país, como as que Lima deu e como as que, por exemplo, autores americanos contemporâneos dão nos EUA, às vezes fazem falta por aqui (terá Fernando Bonassi vindo suprir a carência?)... Motivos para cutucar proliferam. Lima sabia disso, seu personagem centenário termina sabendo, e os brasileiros enfim desiludidos agora também sabem.
(Lucas Colombo)
terça-feira, 31 de março de 2015
Problemas
O problema político das ciclovias
O problema da ciclotimia dos políticos
O problema da abundância de sacolas de plástico
O problema da falta de saco
O problema da falta de água
O problema do desafio do balde de gelo
O problema da desvalorização da vida
O problema da precificação da vida
O problema das pessoas que só ficam nas redes sociais
O problema das pessoas que não tem acesso à internet
O problema do adoçante cancerígeno
O problema do açúcar cancerígeno
O problema da escassez de empregadas domésticas
O problema da sobra de patrões
O problema da velocidade da internet
O problema da lentidão da humanidade
O problema dos chefs que querem ser celebridades
O problema da irritação com os chefs que querem ser celebridades
O problema da oposição ao governo
O problema da situação do governo
O problema da intolerância ao glúten
O problema da tolerância ao mundo
O problema do empreendedorismo
O problema da vagabundagem
O problema das atrizes que fazem cirurgias plásticas e ficam irreconhecíveis
O problema das atrizes que não fazem cirurgias plásticas e ficam irreconhecíveis
O problema do excesso de sódio nos alimentos
O problema da dessalinização da água
O problema de quem não come carne
O problema da carne de cavalo nas lasanhas europeias
O problema do derretimento do gelo nas calotas polares
O problema do congelamento de óvulos de funcionárias da Apple e do Facebook
O problema da falta de comida na África
O problema do excesso de peso nos Estados Unidos da América
O problema em ser atendido por garçons franceses mal educados
O problema em ser Danuza Leão
O problema do Lula que não fala nada
O problema da verborragia do Eduardo Cunha
O problema da Dilma que não sabia de nada
O problema do Valério que sabia demais
O problema do excesso de informação
O problema do analfabetismo funcional
O problema de quem tem assunto demais
O problema do bloqueio criativo em jovens escritores
O problema das coisas que estão desaparecendo porque a internet apareceu
O problema dos personal stylists
O problema da falta de estilo e personalidade das pessoas
O problema da compulsão por sexo
O problema da falta de libido
O problema dos enrustidos
O problema dos fechativos
O problema dos workaholics
O problema dos desempregados
O problema da hiperatividade
O problema da paralisia cerebral
O problema da castidade
O problema da promiscuidade
O problema do sexo barato
O problema da prostituição de luxo
O problema do excesso de notícia sobre o Papa Francisco
O problema da falta de notícia sobre o Papa Ratzinger
O problema do tédio no campo
O problema da ansiedade nos grandes centros
O problema da medicalização da vida
O problema da morte
O problema da gentrificação
O problema dos novos ricos
O problema do entusiasmo
O problema da depressão
O problema da mania
O problema da inércia
O problema em problematizar tudo
O problema em buscar solução para tudo
O problema em começar um texto
O problema em terminar um texto.
(Rafael Fais)
segunda-feira, 22 de dezembro de 2014
Editor's choice
Em ordem cronológica, o que de melhor o MM publicou em 2014, na visão deste editor:
- "Geografia", by Lucas Barroso
- "Ética a Internauta", by Lucas Colombo
- "Memórias sem cárcere", by Rafael Fais
- "Anotações", by Lucas Colombo
- "(Não) Gostar de futebol", by Leandro Schallenberger
- "Mickey é um rato limpinho?", by Rafael Fais
- "A dama canta o blues", by Lucas Colombo
- "O realismo do instinto", by Muriel Paraboni
- "Arte não é corrida", by Lucas Barroso
- "Centenário da independência", by Lucas Colombo
- "Você acreditou em 2014?", by Lucas Barroso
- "Eu, você, nós dois", by Lucas Colombo
Feliz 2015.
(Lucas Colombo)
terça-feira, 2 de setembro de 2014
Poucas e ótimas
Na coluna, contestei alguns comentários ilógicos, radicais, politicamente corretos ou tudo isso junto que ouvi/li recentemente. Aqui, vou para o outro lado: endosso pensamentos que li/reli nos últimos dias.
- Paulo Francis, em 1991. Depois disso, até fico com vergonha de linkar para meu texto sobre Billie, (re)publicado na Toca-disco.
(Lucas Colombo)
segunda-feira, 9 de junho de 2014
Tudo que falta
"Desafinado", com Celso e o grande saxofonista Leo Gandelman
“A bossa nova está largada. Eu faço show no exterior há 14 anos, e rigorosamente em toda viagem, seja na Europa, América do Sul ou Japão, as pessoas me perguntam onde podem ouvir bossa nova no Rio. Eu respondo: lá na minha casa. Ou no seu iPod. (...) A bossa nova tem tudo que falta neste momento: elegância, delicadeza e qualidade. Eu sou apaixonado pelo Rio, mas é um terror ver o que acontece na cidade”.
- Cantor e compositor Celso Fonseca, no site d’O Globo, atingindo uma nota aguda.
(Lucas Colombo)
quarta-feira, 19 de março de 2014
Barril de pólvora
Autodenominados “justiceiros” prendem adolescente infrator nu a um poste. Torcedores fanáticos invadem o CT de um time e agridem jogadores. Militante ‘black bloc’ mata cinegrafista ao acender rojão na direção dele. Presidiários praticam decapitações. Fabricantes de “blu ray” recusam-se a prensar filmes que têm cenas fortes de sexo. Qualquer protesto descamba para o quebra-quebra. População pensando que “político é tudo safado” e descrendo nas instituições. Onde o Brasil vai parar?
segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
Editor's choice
Para este editor, o que de melhor o MM publicou em 2013, em ordem cronológica:
- "Reis magos Blues" (seção Toca-disco), by Moziel T. Monk
- "Nem mesmo o amor", by Muriel Paraboni
- "Chet", by Lucas Colombo
- "Casa" (seção Enquadramentos), by Marcelo Donadussi
- "Personagens brasileiros, 2013", by Lucas Colombo
- "Livros sobre o mensalão" - I, II e III, by Rafael Fais
- "Visões do ano", by Lucas Barroso
- "Jornalismo em 2013", by Rafael Fais
Feliz 2014.
(Lucas Colombo)
domingo, 8 de dezembro de 2013
Poucas e boas
- “A tristeza, a compreensão e a desigualdade de nível mental do meu meio familiar agiram sobre mim de um modo curioso: deram-me anseios de inteligência.” (Lima Barreto, na primeira frase de "Recordações do Escrivão Isaías Caminha", de 1909)
- "Gostaria de poder erguer-me entre os mortos, a cada dez anos, caminhar até a banca de jornais e comprar alguns. Não pediria mais nada. Com os jornais debaixo do braço, lívido, esbarrando nos muros, retornaria ao cemitério e leria os desastres do mundo, antes de tornar a dormir, satisfeito na proteção tranquilizadora da sepultura..." (Luis Buñuel, cineasta espanhol, em seu livro de memórias, "Meu último suspiro", comentando que a morte não o incomodava, desde que pudesse fazer isso)
- "A única coisa que se encontra depois de escalar uma montanha são mais montanhas para escalar." (Recém-falecido Nelson Mandela, ex-presidente sul-africano, no que serve como recado aos brasileiros, costumeiramente contentes com pouco)
(Lucas Colombo)
terça-feira, 11 de junho de 2013
Seus sonhos, seus planos
"Falou de tudo com entusiasmo. Explicou seus sonhos, seus planos, acha que o país necessita fundamentalmente de sua geração e que cabe a ele, pessoalmente, toda a mudança política no país. Pretende aproveitar todas as oportunidades que se apresentarem para dar o máximo de si mesmo à terra em que nasceu. Rapaz extraordinário. Parece até um jovem estrangeiro."
- Millôr Fernandes, em 1980. Mas como é atual!
(Lucas Colombo)
terça-feira, 12 de junho de 2012
Ivan Lessa no MM
O céu está querendo lembrar como se faz jornalismo cultural e, em seis meses, mandou chamar Daniel Piza, Millôr e agora Ivan Lessa (1935-2012). Aqui no MM, ele foi citado nesses textos/posts:
- Tipo raro (Entrevista com Daniel Piza - 14/11/2008)
- Uma lágrima para Daniel Piza (09/01/2012)
- Gip-Gip Nheco-Nheco (15/08/2008)
quinta-feira, 5 de abril de 2012
Millôr no MM
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
"Short cuts" - Cenas da vida (brasileira)
"I lived in Brazil for fifteen years and have observed that the culture alluded to in this article is rampant throughout all levels of society, rich or poor, not just in Brasília.
The really blatant cases brought to public attention are frowned upon by all, but by-in-large people tolerate it as they too takes 'short cuts' (jeitinho).
Parents grease the way for their kids in to schools and universities (or better grades), traffic offenses can often be 'resolved' on the spot rather than getting a ticket, petty theft in the work place is rife, the bureaucracy is so stifling that 'facilitators' are often the only way to get things done. Red traffic lights are a pretty colour, to be obeyed when one pleases. Just some simple examples. It's everywhere.
How do you change a culture? I don't know, maybe education brings a higher level of personal pride and stops cheating. Maybe better policing will wake people up. But until the overriding culture changes, don't expect miracles in the capital."
- O melhor do artigo da revista The Economist sobre a (suposta) "faxina" de Dilma foi ter provocado este comentário categoria "disse tudo" do(a) leitor(a) Dwrig. Sem mais.
(Lucas Colombo)
quarta-feira, 24 de agosto de 2011
Quatro Perguntas para Leandro Narloch
Ele está de volta - para a raiva de muitos. Ex-editor das revistas “Aventuras na História” e “Superinteressante”, o jornalista Leandro Narloch tem provocado celeuma com seu "Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil" (ed. Leya, 320 p.) desde que o lançou e o viu entrar, para não sair mais, na lista de livros mais vendidos, em 2009. Justifica-se: com base em publicações, teses e documentos, o volume oferece um contraponto à História geralmente maniqueísta e ideologizada ensinada nas escolas e universidades brasileiras. Lá estão fatos "incômodos" do passado nacional, como os de que o líder da resistência à escravidão, Zumbi, também tinha escravos; Santos Dumont não foi o grande inventor do avião; e os guerrilheiros que combateram o regime militar (1964-1985) lutavam não por democracia, mas para implantar outra ditadura, socialista.
A princípio, mais de 200 mil pessoas informaram-se sobre tais temas, já pesquisados mas ainda pouco difundidos, por meio desse "Guia", o que pode fazer Narloch considerar-se com o dever cumprido. E o fato de ter indignado muitos historiadores e a parcela mais politicamente correta do público-leitor, também, já que "enfurecer um bom número de cidadãos" era igualmente um de seus objetivos. O trabalho, porém, não para. Agora, o autor publica um novo "Guia", que segue a mesma linha do primeiro, mas num terreno maior: a América Latina.
Escrito em parceria com o também jornalista Duda Teixeira, editor assistente da revista Veja, o "Guia Politicamente Incorreto da América Latina" tem como alvo o "falso herói latino-americano", como escrevem Narloch e Teixeira no prefácio, e certo viés de "coitadismo" que muitos autores imprimem a seus relatos sobre personagens históricos dessa região do globo. Então, depoimentos de chilenos sobre a crise econômica e institucional do período em que Salvador Allende foi presidente, descrições de execuções sem julgamento e de perseguições a roqueiros, hippies e gays realizadas por Che Guevara, e relatos de comemorações de grande parte dos "explorados" incas, maias e astecas quando da chegada dos conquistadores espanhóis (pois estes venceram os imperadores indígenas que obrigavam seus povos a fazer migrações forçadas) são alguns dos conteúdos que as 335 páginas do livro trazem. No twitter de Narloch, reclamações de leitores já começaram. E cumprimentos também.
Nesta entrevista, concedida por e-mail, ele fala da ideia que deu origem ao livro, do desprezo que muitos professores de História têm por jornalistas que escrevem sobre a área e, é claro, do chavão politicamente correto que pensa ser o maior da América Latina hoje. !Adelante!
(Lucas Colombo)
1. Cada capítulo do "Guia Politicamente Incorreto da América Latina" trata de alguma figura mítica da região, como Evita Perón, Salvador Allende e Simón Bolívar. Como foi a escolha dos temas? Ficou muita coisa de fora? Durante a produção do "Guia" brasileiro, a ideia para este já foi se configurando também?
Narloch - Eu e o Duda Teixeira tivemos a ideia do livro durante uma conversa, alguns meses depois do primeiro "Guia". Ele tinha acabado de voltar da Bolívia, aonde foi fazer uma matéria sobre políticos que se fazem de índios. Percebemos que existe uma militância ideológica muito forte relacionada à identidade latino-americana. Um livro sobre a mania dos latino-americanos de lamentar o próprio passado era mais do que necessário.
2. Na Introdução do "Guia" brasileiro, você diz que procurou reunir somente "erros das vítimas e heróis da bondade" e "virtudes dos considerados vilões", para ir de encontro ao tratamento romântico conferido a certos fatos de nossa História e, assim, "enfurecer um bom número de cidadãos". Uma das funções do jornalismo é (ou deveria ser) mesmo incomodar. Na sua opinião, a imprensa brasileira, atualmente, cumpre esse papel?
Narloch - Sim, incomodar, mostrar contradições e fazer barulho é um excelente papel da imprensa. Algumas publicações cumprem, sim, mas não com tanta audácia quanto fora do Brasil. Ainda há timidez em falar de concorrentes (nos EUA um jornal publica escândalos do concorrente) e sobretudo de anunciantes. Mas não é papel obrigatório da imprensa incomodar. Cada leitor deve escolher o tipo de jornalismo de que gosta mais. Quanto à história do Brasil, considero um mérito dos "Guias" chacoalhar o debate e fazer uma chamada geral para que livros didáticos se atualizem.
3. Em claro corporativismo, professores brasileiros de História menosprezam jornalistas que escrevem a respeito. Eu já ouvi historiadores dizendo que jornalistas (que também sabem ser corporativos) não deveriam "se meter onde não são chamados". É uma atitude tipicamente brasileira: nos EUA e na Europa, por exemplo, jornalistas escrevem sobre o que lhes dá na telha, sem ouvir reclamações de quem se considera dono de um dado assunto. Aqui, inclusive, motivados justamente por essa aversão, hackers já tiraram do ar o site do também jornalista e escritor de sucesso Laurentino Gomes. Seu blog nunca foi tirado do ar (hehe), mas você já foi alvo de alguma reação desse tipo?
Narloch - Na minha opinião, esses historiadores não sabem o que faz um historiador. É trabalho de jornalistas falar com o público. Historiadores, para mim, analisam documentos, certidões, registros e tentam tirar dali conclusões científicas a despeito de suas convicções ideológicas. Isso passa muito longe dos meus livros. Eles não são parciais nem científicos: mostram apenas um lado, o mais desagradável, da história. Alguns historiadores gostaram do "Guia", outros não, mas a postura mais comum foi de indiferença. O que dá pra entender, afinal o livro não tem nada de original, nada que um historiador antenado não deva saber.
4. Pergunta chatinha, mas irresistível: que clichê politicamente correto é o mais eloquente na América Latina hoje, e que poderá ser contrariado por um "Guia" daqui a 30 anos?...
Narloch - O mito de que ser neoliberal é ruim. A prosperidade do Brasil nos dias de hoje é resultado de políticas liberais básicas - responsabilidade fiscal, controle da inflação, privatizações. Mas, para muita gente, "neoliberal" é demônio. É o capeta. É um nazista.
Leia também:
- Quatro Perguntas para Daniel Piza
- Quatro Perguntas para Carlos Fernando
- Quatro Perguntas para Sérgio Rodrigues
terça-feira, 26 de abril de 2011
Entre R$ 116 mil e R$ 131 mil por mês
Altamente recomendável que se leia isto.
Como disse anos atrás (lembram? Espero que sim) o agora ex-deputado Carlos Rodrigues, a vida de um parlamentar brasileiro é mesmo muito dura.
(Lucas Colombo)
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Poucas e boas pós-eleitorais
Se houve o post abaixo, teria de haver este. Aqui vão (bons) tweets de colunistas e colaboradores do MM sobre o pós-eleição:
- Lucas Colombo (@lucas_colombo)
. Dilma já declarou que prefere o “barulho da imprensa livre ao silêncio das ditaduras”. Façamos barulho, então.
. Aécio Neves diz que, antes de ter candidato à presidência, o PSDB precisa ter um projeto para o país. Será que a ficha enfim caiu?
. Como a Dilma tem aparecido e falado bastante, não?.. Assim sabemos bem sua visão de Brasil e quais seus projetos. Excelente.
- Flávio Aguilar (@flavioaguilar)
. Não comemoro vitória de ninguém. Teremos 4 anos para saber o resultado de nossas escolhas neste ano.
. Quero saber é quando teremos o primeiro presidente rastafári.
- Leandro Narloch (@lnarloch)
. Dilma e Serra passaram o último mês dizendo que o respectivo adversário é incompetente p/ governar o país. Ambos estão certos.
. Em 89, o Nordeste votou em peso no Collor, e a turma disse que era coronelismo. Hoje o Nordeste garante a vitória da Dilma. E aí, é o quê?
. Quais ideias ganharam ontem? A julgar pelo discurso da Dilma (meritocracia, menos tributos, menos controle da mídia), foram as tucanas.
- Leandro Demori (@braziu)
. "Pela primeira vez no Brasil uma mulher assume a Presidência" (copiem, colem na capa dos jornais e vão pra cama). Boa noite.
. Sugestão de polêmica para a semana: "presidente" ou "presidenta"? Quem optar pela primeira é Sexista do Mal.
. Dilma no JN reconhece e sabe que os próximos anos serão piores do que os mais recentes.
- Bruno Galera (@bgalera)
. Gaúchos dementes, parem de reclamar do Tiririca. DANRLEI, PAULO BORGES, JOSÉ OTÁVIO GERMANO, MANO CHANGES.
- Fabiano Schüler (@fschuler)
. E aí? Votaram na abóbora ou no morcego?
. Pessoas que ainda reclamam do resultado das eleições: mostrem que vocês são tão democratas quanto alegam ser e acatem a vontade da maioria.
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Poucas e boas eleitorais
Alguns (bons) tweets de colunistas e colaboradores do MM sobre o processo eleitoral:
- Lucas Colombo (@lucas_colombo)
. Realmente, brasileiro adora aplaudir tudo. #debaterecord
. O horário político do Collor, em Alagoas, diz que ele foi cassado "em razão do preconceito contra nordestinos". Eu mereço.
. Serra está especialista em falar só de SP. Dilma está especialista em ler teleprompter. E o Brasil vai bem.
- Flávio Aguilar (@flavioaguilar)
. ATENÇÃO PARA O PLÍNIO
. Marina acha que está concorrendo à presidência da Dinamarca com esse papo ambiental-cabeça.
- Leandro Demori (@braziu)
. Ficha Limpa é uma lei que procura impedir que você vote em bandido. Você precisa de uma lei pra isso. Reflita (evite).
. Dilma quer que o Brasil se torne "um país de classe média". Mas o grande vilão do Braziu não era a classe média? Naummm tendi.
. Serra cantando, Serra lendo a Bíblia. É um susto atrás do outro, Braziu. #horarioeleitoral
- Moziel T.Monk (@blodega)
. Ontem, ao invés do debate, assisti a "Machete". mentira por mentira...
- Bruno Galera (@bgalera)
. Alguém mais fica tenso com aquele cartaz da Juliana Brizola onde aparece o fantasma do véio? Tá louco.
- Fabiano Schüler (@fschuler)
. Candidato @joseserra, para sua "defesa civil nacional" chegar "rápido" a SC saindo de BSB, só com helicópteros supersônicos. Que não existem.
. "Precisamos gerar emprego. Para isso, precisamos de uma taxa de crescimento elevada", diz a @dilmabr. ORLY?
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Laurentino Gomes no Nomes & Obras
(Fotos: Emerson Machado)A programação de agosto dos eventos do MM em parceria com a Letras&Cia. foi aberta, excepcionalmente, na última (e fria) quinta-feira, 5, com o jornalista e escritor paranaense Laurentino Gomes como convidado do Nomes & Obras. Ao lado do mediador - o editor do MM, Lucas Colombo -, o autor do sucesso de vendas "1808" falou a uma plateia de jovens estudantes sobre seu livro e o período retratado nele, o qual considera o mais importante da História brasileira: os treze anos de permanência (1808-1821) da família real portuguesa no Brasil.
Para começar, Laurentino explicou que a mola propulsora de "1808" foi uma pauta da revista Veja, da qual era editor. Como comenta nas primeiras páginas do livro, ele fora encarregado, em 1997, de elaborar um conteúdo sobre o episódio da vinda da Corte portuguesa ao Brasil, para integrar um suplemento com temas da História nacional que acompanharia edições da revista. O projeto acabou cancelado, mas Laurentino ficou fascinado pelas histórias que descobriu e seguiu pesquisando a respeito. Foram dez anos de pesquisa, com cerca de 150 obras lidas, que resultaram em "1808". Lucas elogiou a densidade informativa do livro e sua escrita clara e fluente, oposta à da maioria dos trabalhos sobre História lançados no país, feitos por acadêmicos e, por isso, enfadonhos e repletos de jargões. Laurentino salientou que essa foi uma preocupação dele: produzir um texto aprofundado e, ao mesmo tempo, acessível. Uma "reportagem em livro", enfim. E que abordar fatos complexos de um modo atraente para o leitor é justamente um dos papéis do jornalismo.

Ainda sobre a abordagem do tema, respondendo a um comentário de Lucas sobre a (positiva) falta de expressões eufemísticas no livro, o convidado afirmou que, de fato, quis deixar claro o que aconteceu no período, sem cosméticos. Laurentino não usou, por exemplo, termos como "mudança" ou "transmigração" para tratar da vinda da família real portuguesa, como muitos autores atualmente fazem. Para ele, o que houve em 1807 foi uma "fuga", mesmo, e apressada. As tropas de Napoleão invadiram Lisboa no dia seguinte à saída da Corte e, provavelmente, teriam derrubado Dom João VI, se ele tivesse optado por ficar em Portugal. Tal atitude, porém, segundo Laurentino, não deve ser confundida com covardia, pois, numa situação de guerra, quando se está em desvantagem, fugir pode ser uma opção esperta - e nesse ponto está, conforme comentou Lucas, uma das contribuições do livro, a de iluminar outros aspectos da personalidade de D.João. Os próprios estudantes da plateia, perguntados sobre que imagem do rei tinham na cabeça, responderam que era a de um sujeito gordo, glutão e apalermado. Laurentino disse ter procurado mesmo mostrar que D.João não é só aquele apresentado no filme "Carlota Joaquina", de Carla Camuratti. Foi deveras um homem feio, tímido e indeciso, mas mais perspicaz do que o senso comum imagina, principalmente na escolha de ministros e auxiliares.
Na sequência, o autor falou um pouco sobre a situação de Portugal depois da fuga da realeza, já que se tende a esquecer o país quando se trata do episódio, aqui no Brasil. Como na época a monarquia absoluta personificava o Estado, o povo português ficou desamparado e promoveu revoltas e até guerrilhas contra os franceses invasores. Esse sentimento de abandono desembocou na revolução do Porto, de 1820, que obrigou D.João a retornar a Portugal.

Voltando a falar do Brasil, Laurentino, frente a uma observação do mediador de que o livro faz constatar que o patrimonialismo, tão forte na nossa política, vem daquela época, comentou que realmente muitas das mazelas políticas brasileiras existentes ainda hoje começaram em 1808. A monarquia portuguesa se instalou num país sem tradição nem instituições, fazendo, aqui, o Estado se formar antes da sociedade, com a população amoldada ao governo. E o resultado foi o surgimento de um grupo "agarrado" ao Estado, movido a troca de favores e compadrio, confundindo interesses privados com públicos - pragas, 200 anos depois, ainda não eliminadas do cenário político nacional.
No fim do bate-papo, Laurentino creditou os mais de 500 mil exemplares vendidos de "1808" a um interesse, que identifica no público atual, por conhecer o "DNA" do Brasil, o passado que permite compreender o presente e pensar no futuro. Associou, também, o fato de o livro ter sido lançado em outros formatos - audio-book, DVD, versão juvenil - à tendência ao "multimídia" do jornalismo contemporâneo, absorvida também pela literatura. E adiantou que a "continuação" de "1808" já está no prelo. O novo livro, "1822", tratará da independência do Brasil, e deve sair em setembro.

* * *
Esta semana é de Palavra Composta, e o tema a ser discutido também é de teor histórico: Anos 2000. Para conversar sobre fatos marcantes da década que termina, contaremos com dois jornalistas: Luiz Antônio Araújo, autor do livro "Binladenistão", e Leandro Demori, colaborador do MM e repórter internacional, que participará de Roma, na Itália, por meio de uma webcam. Amanhã, 18h, lá na Letras&Cia. Não percam.
Serviço
Palavra Composta e Nomes & Obras
Quando: toda terça-feira, de junho a setembro, às 18h
Onde: livraria Letras&Cia. (Osvaldo Aranha, 444, Porto Alegre)
Realização: MínimoMúltiplo.com e Letras&Cia.
Entrada e estacionamento (Osvaldo Aranha, 420) gratuitos