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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Quatro Perguntas para Leandro Narloch



Ele está de volta - para a raiva de muitos. Ex-editor das revistas Aventuras na História” e “Superinteressante”, o jornalista Leandro Narloch tem provocado celeuma com seu "Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil" (ed. Leya, 320 p.) desde que o lançou e o viu entrar, para não sair mais, na lista de livros mais vendidos, em 2009. Justifica-se: com base em publicações, teses e documentos, o volume oferece um contraponto à História geralmente maniqueísta e ideologizada ensinada nas escolas e universidades brasileiras. Lá estão fatos "incômodos" do passado nacional, como os de que o líder da resistência à escravidão, Zumbi, também tinha escravos; Santos Dumont não foi o grande inventor do avião; e os guerrilheiros que combateram o regime militar (1964-1985) lutavam não por democracia, mas para implantar outra ditadura, socialista.

A princípio, mais de 200 mil pessoas informaram-se sobre tais temas, já pesquisados mas ainda pouco difundidos, por meio desse "Guia", o que pode fazer Narloch considerar-se com o dever cumprido. E o fato de ter indignado muitos historiadores e a parcela mais politicamente correta do público-leitor, também, já que "enfurecer um bom número de cidadãos" era igualmente um de seus objetivos. O trabalho, porém, não para. Agora, o autor publica um novo "Guia", que segue a mesma linha do primeiro, mas num terreno maior: a América Latina.

Escrito em parceria com o também jornalista Duda Teixeira, editor assistente da revista Veja, o "Guia Politicamente Incorreto da América Latina" tem como alvo o "falso herói latino-americano", como escrevem Narloch e Teixeira no prefácio, e certo viés de "coitadismo" que muitos autores imprimem a seus relatos sobre personagens históricos dessa região do globo. Então, depoimentos de chilenos sobre a crise econômica e institucional do período em que Salvador Allende foi presidente, descrições de execuções sem julgamento e de perseguições a roqueiros, hippies e gays realizadas por Che Guevara, e relatos de comemorações de grande parte dos "explorados" incas, maias e astecas quando da chegada dos conquistadores espanhóis (pois estes venceram os imperadores indígenas que obrigavam seus povos a fazer migrações forçadas) são alguns dos conteúdos que as 335 páginas do livro trazem. No twitter de Narloch, reclamações de leitores já começaram. E cumprimentos também.

Nesta entrevista, concedida por e-mail, ele fala da ideia que deu origem ao livro, do desprezo que muitos professores de História têm por jornalistas que escrevem sobre a área e, é claro, do chavão politicamente correto que pensa ser o maior da América Latina hoje. !Adelante!
(Lucas Colombo)



1. Cada capítulo do "Guia Politicamente Incorreto da América Latina" trata de alguma figura mítica da região, como Evita Perón, Salvador Allende e Simón Bolívar. Como foi a escolha dos temas? Ficou muita coisa de fora? Durante a produção do "Guia" brasileiro, a ideia para este já foi se configurando também?
Narloch - Eu e o Duda Teixeira tivemos a ideia do livro durante uma conversa, alguns meses depois do primeiro "Guia". Ele tinha acabado de voltar da Bolívia, aonde foi fazer uma matéria sobre políticos que se fazem de índios. Percebemos que existe uma militância ideológica muito forte relacionada à identidade latino-americana. Um livro sobre a mania dos latino-americanos de lamentar o próprio passado era mais do que necessário.

2. Na Introdução do "Guia" brasileiro, você diz que procurou reunir somente "erros das vítimas e heróis da bondade" e "virtudes dos considerados vilões", para ir de encontro ao tratamento romântico conferido a certos fatos de nossa História e, assim, "enfurecer um bom número de cidadãos". Uma das funções do jornalismo é (ou deveria ser) mesmo incomodar. Na sua opinião, a imprensa brasileira, atualmente, cumpre esse papel?
Narloch - Sim, incomodar, mostrar contradições e fazer barulho é um excelente papel da imprensa. Algumas publicações cumprem, sim, mas não com tanta audácia quanto fora do Brasil. Ainda há timidez em falar de concorrentes (nos EUA um jornal publica escândalos do concorrente) e sobretudo de anunciantes. Mas não é papel obrigatório da imprensa incomodar. Cada leitor deve escolher o tipo de jornalismo de que gosta mais. Quanto à história do Brasil, considero um mérito dos "Guias" chacoalhar o debate e fazer uma chamada geral para que livros didáticos se atualizem.

3. Em claro corporativismo, professores brasileiros de História menosprezam jornalistas que escrevem a respeito. Eu já ouvi historiadores dizendo que jornalistas (que também sabem ser corporativos) não deveriam "se meter onde não são chamados". É uma atitude tipicamente brasileira: nos EUA e na Europa, por exemplo, jornalistas escrevem sobre o que lhes dá na telha, sem ouvir reclamações de quem se considera dono de um dado assunto. Aqui, inclusive, motivados justamente por essa aversão, hackers já tiraram do ar o site do também jornalista e escritor de sucesso Laurentino Gomes. Seu blog nunca foi tirado do ar (hehe), mas você já foi alvo de alguma reação desse tipo?
Narloch - Na minha opinião, esses historiadores não sabem o que faz um historiador. É trabalho de jornalistas falar com o público. Historiadores, para mim, analisam documentos, certidões, registros e tentam tirar dali conclusões científicas a despeito de suas convicções ideológicas. Isso passa muito longe dos meus livros. Eles não são parciais nem científicos: mostram apenas um lado, o mais desagradável, da história. Alguns historiadores gostaram do "Guia", outros não, mas a postura mais comum foi de indiferença. O que dá pra entender, afinal o livro não tem nada de original, nada que um historiador antenado não deva saber.

4. Pergunta chatinha, mas irresistível: que clichê politicamente correto é o mais eloquente na América Latina hoje, e que poderá ser contrariado por um "Guia" daqui a 30 anos?...
Narloch - O mito de que ser neoliberal é ruim. A prosperidade do Brasil nos dias de hoje é resultado de políticas liberais básicas - responsabilidade fiscal, controle da inflação, privatizações. Mas, para muita gente, "neoliberal" é demônio. É o capeta. É um nazista.

Leia também:
- Quatro Perguntas para Daniel Piza
- Quatro Perguntas para Carlos Fernando
- Quatro Perguntas para Sérgio Rodrigues

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Quatro Perguntas para Daniel Piza - especial



Daniel Piza
, o melhor colunista cultural brasileiro em atividade (e mestre deste que vos escreve...), já concedeu entrevista a mim, em 2008, por e-mail. Esta foi feita pessoalmente, na sua sala na redação de O Estado de São Paulo. Entre sua mesa e estantes apinhadas de livros e revistas, recebendo a todo momento, no monitor, avisos de novos comentários de leitores no seu ótimo blog, o jornalista, crítico, escritor e tradutor conversou comigo sobre seu mais recente livro. Em “Amazônia de Euclides – Viagem de Volta a um Paraíso Perdido” (Leya, 192 p.), Piza oferece a reportagem completa que produziu para o Estadão em março do ano passado, quando, para lembrar o centenário da morte de Euclides da Cunha (1866-1909), foi à região amazônica, acompanhado do fotógrafo Tiago Queiroz, a fim de refazer o percurso realizado pelo escritor carioca no rio Purus, no Acre, perto da fronteira com o Peru, em 1905. Em tal expedição, o autor de “Os Sertões”, designado para comandar a comitiva brasileiro-peruana de reconhecimento da região, foi além da tarefa de demarcar o curso e a nascente do rio: também colheu dados para um exame social e histórico daquela porção da Amazônia, trabalho que apresentou nos volumes “Contrastes e Confrontos” (1907) e “À Margem da História” (1909). Piza, então, mais de cem anos depois, atualizou as informações e análises de Euclides, comparando a realidade daquele início de século 20 com a que ele e Queiroz encontraram agora (fotos aqui). Os dois subiram o rio em uma baleeira – batizada, é claro, de Euclides da Cunha – e fizeram várias paradas para conversar com a população ribeirinha. Nos dez dias de viagem, Piza pôde observar não só a beleza da Amazônia, mas os “dramas brasileiros”, como diz nesta entrevista, existentes por lá. Aqui, o biógrafo de Machado de Assis ainda comenta a prosa de Euclides, também um grande escritor nacional, e fala do restrito espaço para grandes reportagens nos jornais de hoje.
(Lucas Colombo)



1. Caro Piza, você acredita que existe espaço na imprensa brasileira para grandes reportagens, como essa que você fez na Amazônia, nesses tempos em que a maioria dos leitores procura o que há de mais rápido e superficial? Já ouvi você falando sobre isso e dizendo que sim, mas o assunto é fascinante - então, por favor, fale mais um pouco...

Piza – Bom, são duas perguntas. Primeiramente, acho que existe, sim, mas ainda muito pouco, se comparado com outras épocas do jornalismo brasileiro ou com o jornalismo atual de outros países, como o inglês, o americano, e mesmo o italiano e o francês – até porque nesses países há muito mais publicações, mais revistas semanais. Aqui no Brasil só temos revistas semanais de notícias, não de cultura ou de jornalismo “de fôlego”. Mas aumentou o espaço nos jornais para isso. O Estadão tem dado mais espaço para grandes reportagens – tenho batalhado por isso aqui –, a Folha às vezes abre o caderno Mais! para reportagens mais longas, surgiram a revista Piauí e a Granta Brasileira, há blogs fazendo coisas nesse sentido... E em relação ao fato de as pessoas quererem matérias mais curtas e sintéticas, concordo que é assim, mas ainda acredito que há uma minoria que gosta de textos mais longos. E o jornalismo literário, a grande reportagem, nem sempre precisa ser longo, também. Há reportagens que são curtas, mesmo, mas têm uma qualidade tal que transcende isso. Alguns textos do George Orwell, como “O Abate de um Elefante” e “Um Enforcamento”, ocupam quatro ou cinco páginas de livro, o que daria uma ou duas de jornal standard. A Piauí tem vendido bem – vende mais que a Cult e a Bravo!, por exemplo –, livros-reportagem têm sido lançados... O “Amazônia de Euclides” é um livro-reportagem: eu relato a viagem que o Euclides fez em paralelo à viagem que nós fizemos, numa forma narrativa de não-ficção. E o livro está indo super bem. O trabalho foi muito bem acolhido, me chamaram para tudo que é lugar... Então, há público para isso, há espaço, mas tudo ainda muito pequeno, muito tímido.
Quando o Décio de Almeida Prado fez o projeto do “Suplemento Literário” do Estadão, ele escreveu lá: “não devemos transigir com a preguiça intelectual do chamado leitor médio”. A frase é lapidar. Você tem que chegar ao leitor não especializado, não iniciado, e atraí-lo, seduzi-lo, mas sem fazer concessões, demagogias, sem apelar a ele. Você tem que trazê-lo para cima, nivelar para cima, não nivelar por baixo. Não fazer populismo, mas ir lá, esforçar-se para seduzir o leitor. Mas, também, não adianta pensar que, ao escrever sobre Tolstoi, você será lido por milhões... Cada coisa no seu tamanho. Mas é preciso, sim, criar um público mínimo para gerar uma massa crítica maior do que a atualmente existente.

2. Do trabalho de Euclides da Cunha em Canudos e na Amazônia, o que serve de exemplo a repórteres? Que qualidades a serem buscadas têm esses relatos que ele fez?
Piza – Em primeiro lugar, é preciso ressalvar que o Euclides foi um repórter ao estilo daquele tempo. Não se deve imitá-lo, porque, hoje em dia, diríamos que os relatos dele “editorializam” demais. A narrativa às vezes assume ares de editorial, de uma opinião cabal sobre as coisas, inclusive com muitos preconceitos. Mas o Euclides era essencialmente um jornalista, e por isso eu disse certa vez que ele foi o primeiro jornalista literário brasileiro. Porque não só entendeu que tinha uma grande história na mão – que não era a guerra, era o fracasso do exército republicano diante daquela situação no sertão. Ele também entendeu que essa história tinha muitas implicações e foi capaz de apontar essas implicações para o leitor do livro. Nas reportagens que ele enviou ao Estadão, já transparece um pouco isso. Mas depois que voltou de Canudos, muito impactado pelos últimos dias de combate – ele não viu até o final, mas chegou a ver a parte bem dramática daquela carnificina da guerra –, foi elaborando aquilo dentro dele, e transformou numa obra-prima, que mistura ensaio científico, antropológico, com uma narrativa de não-ficção, principalmente no capítulo “A Luta”. E é aí que eu considero um grande pioneirismo de jornalismo literário, porque o Euclides conta aquela história com a riqueza de implicações que ela tem. Ele não colheu muitos depoimentos, porque não teve chance, estava dentro de uma tropa, mas relatou a situação do lado de lá – “advoga pelo sertanejo”, como diz. Ele revelou quais eram os objetivos da república, campanha a campanha, e os erros e acertos cometidos. E, sobretudo, entendeu que não se tratava apenas de uma guerra entre um reduto de monarquistas rebelados e o exército, mas que era um drama que representava o Brasil, os dramas do Brasil na época, a dúvida de “pra que lado ir”, naquela fase de formação do país. Então, acho que Euclides deve ser muito lido e seguido nesse aspecto: de um repórter que viu na ocasião que testemunhou não só uma “historiazinha”, mas a História, com H maiúsculo.

3. Você comentou que, além da oportunidade de conhecer mais profundamente a região amazônica, uma razão fundamental para fazer a reportagem foi a admiração pela literatura de Euclides. Eu também gosto de sua prosa. Mas o estilo ‘pomposo’ do autor, sua escrita barroca, rebuscada (para cada substantivo, inseria um adjetivo, e construía períodos longos), não pode espantar o leitor contemporâneo?
Piza – Certamente. Conheço muita gente que diz: “puxa, falam tanto desse livro, e eu não consegui passar da página 30...”. O vocabulário é mesmo muito amplo; em alguns momentos, inclusive, o Euclides tenta dar uma impressão científica à coisa, de uma forma até um pouco flácida. É chato, porque os períodos são realmente muito longos – tanto que os textos sobre a Amazônia, que ele fez depois, já têm períodos menores. Neles, o Euclides é mais objetivo na escrita, faz frases mais sintetizadoras do que procura dizer. Mas é mesmo difícil de ler. Acho, porém, que ler direto “A Luta”, por exemplo, não é nenhum crime... Eu costumo dizer que o Euclides era o “Google Earth”: ele começa lá na grande dimensão, na caatinga, no semi-árido, aí diminui para aquela etnia, e depois “fecha” na guerra. Mas se o leitor for direto para a descrição da guerra em si, não tem problema. Recentemente, por causa de um curso, fui reler o capítulo “A Terra” – um dos livros que mais releio é “Os Sertões”, aliás – e, se você ler em voz alta algumas passagens, deixando pra lá palavras desconhecidas, começa a captar a música daquele estilo. Euclides tem uma prosa poética e científica, ao mesmo tempo. Tem uma sonoridade. Ele era aficionado por poesia. Assim como Machado, o desejo dele era ser poeta romântico, como Castro Alves, Victor Hugo. Felizmente, os dois fracassaram e foram para a prosa (risos)... Levaram esse “fracasso” para a prosa brasileira, enriquecendo-a muito. Então, o leitor deveria ter esse ponto de vista. Deveria saber da necessidade de insistir. Eu sou muito a favor da leitura guiada pelo prazer, escrevo muito sobre isso. Mas não o prazer passivo, aquele em que você vai lá, abre o livro, espera dez minutos e vê se gostou ou não. É o prazer conjugado com esforço. Precisa se esforçar, perseguir, insistir, ler os críticos para entender o contexto e a riqueza daquela prosa, porque às vezes tem detalhes que te escapam por você não estar acostumado àquilo. A insistência faz parte da formação cultural, tanto quanto o prazer.

4. Você sempre foi um jornalista com uma visão cética e crítica do país – e, por favor, continue assim...(risos). Que tipo de situação ou comportamento você viu na Amazônia e considerou representativo do “Brasil” como um todo, para o bem ou para o mal?
Piza – O problema é que bem e mal se misturam muito... lá, especialmente. Veja a questão social. É um dos piores IDHs (Índice de Desenvolvimento Humano) do Brasil. Há alta mortalidade infantil: as crianças têm muita verminose, as condições de higiene e saúde são mínimas. A educação é péssima: eles têm três dias de aula por semana, seis meses por ano. São analfabetos funcionais - meninos de 14 anos dizem que sabem escrever, mas só escrevem o nome, não sabem escrever um bilhete. Esta, aliás, é a grande mentira das estatísticas brasileiras na atualidade, é o grande escândalo brasileiro atual. Mas aí você pode dizer: "bom, por outro lado, os avós deles sequer sabiam escrever o nome, sequer tinham documentos..." Eu acompanhei a documentação de povos ribeirinhos, e ver as pessoas obtendo RG e certidão de nascimento pela primeira vez na vida é emocionante. O Bolsa-Família chega lá, é verdade. Muito melhor que chegue do que não chegue. Só que o Brasil tende a se satisfazer com esse patamar. E não é assim; a vida exige mais, a civilização é exigente, não é fácil. Por isso a democracia é muito boa: ela permite sempre rediscutir as coisas, e não achar que a força inercial nos levará ao paraíso.
O brasileiro tende a achar: “ah, estamos quase lá, é uma questão de tempo...”. Não é uma questão de tempo: é de luta, de esforço, de conscientização, de ruptura com certas coisas do passado, como os Sarneys e ACMs da vida... Se a situação fica melhor no prazo de cinco ou dez anos, o brasileiro pensa que vai ficar melhor no prazo de 50... Mas não: em 50 anos o mundo vai mudar, os desafios serão outros, e temos que ficar atentos a isso. Por exemplo: o Brasil continua sendo exportador de commodities – frango, carne, soja. São produtos que têm uma sofisticação, o trabalho da Embrapa por trás. São bons para o país, trazem dividendos para cá, mas não podemos viver só disso. O Brasil não pode ser uma grande fazenda. Nosso país é industrializado, tem um parque industrial respeitável. E lá na região do rio Purus, o que se vê é: numa vila de cem pessoas, 80 são crianças, 15 são mulheres e cinco são homens. Por quê? Porque gerar filho virou um bom negócio. Uma mulher gera um filho por ano e, então, tem seis salários mínimos por ano. Naquela região, quatro mil reais anuais representam muita coisa. Mais cento e poucos reais de Bolsa-Família por mês... as mulheres dominam o pedaço. E geram filho atrás de filho para continuar dominando o pedaço. É toda uma nova geração sendo posta no mundo sem perspectiva de futuro. Há perspectiva de presente: poder ir à escola e a mãe receber um dinheiro para poder comer alguma coisa. Mas isso não é perspectiva. Perspectiva é receber uma escola de qualidade, atendimento de saúde de qualidade, existir um mínimo de vida produtiva naquela região – pois eles vivem da cultura da subsistência: plantar, caçar, pescar e comer. No máximo, fazem uma troca com um vizinho, um escambo. Não existe fruticultura, piscicultura, pesquisa científica... A Amazônia inteira tem menos da metade de doutores do que a USP. Então, sem enfrentar essas questões da produção e do conhecimento, a civilização, no melhor sentido da palavra, não consegue chegar àquele lugar. Não ‘civilização’ que destrói o ambiente: pelo contrário, que trabalha junto. Como acontece lá em Juazeiro, Petrolina: o mapa do IDH mostra um bolsão de exceção no mundo do semi-árido, porque ali a Embrapa entrou, fez uma divisão de terras... As pessoas pagam pela água, pois, num lugar onde chove só dois meses por ano, a água vai sair cara mesmo. Só que elas pagam sabendo o que fazer com essa água. Que não é só para beber, mas para irrigar, irrigar sem perda. É para plantar, mas não plantar só jerimum, também plantar goiaba para vender aos japoneses... Existe uma lógica produtiva ali e uma infraestrutura dada pelo conhecimento, que, no caso, vem da Embrapa. Só se resolverá o problema do Acre, da Amazônia, se houver esse tipo de raciocínio. Tem que se criar zonas produtivas na Amazônia e zonas intocáveis na Amazônia. O que se vê hoje é só devastação, que prejudica os dois lados.

Acho que um dos dramas do “Brasil lulístico” e “pós-lulístico” é esse: como dar uma perspectiva de futuro produtivo para uma geração que está sendo induzida a se multiplicar por força do assistencialismo. Assistencialismo é fundamental, todo país tem, principalmente em fases em que este país ainda está buscando desenvolvimento. Mas acredito que é preciso pensar mais em médio e longo prazo. Brasileiro é muito imediatista. A nossa cultura é a do “sem retorno imediato, não quero”. Sérgio Buarque diz isso em “Raízes do Brasil”. Embora o Brasil que ele analisou fosse muito diferente do Brasil de hoje e ele tivesse uma desconfiança grande em relação à democracia americana, que se mostrou extremamente bem-sucedida, Buarque foi o sujeito que melhor leu o Brasil. Um país onde ainda domina o laço pessoal, dominam as relações imediatas, e não o raciocínio de médio e longo prazo. Organização não vai acabar com a capacidade de improviso, a alegria, que o Brasil tem – mas se só tem isso, não serve para muita coisa. O improviso só ganha se tiver o respaldo da organização. Não a organização castradora, mas a inteligente. E falta organização inteligente no Brasil, em tudo. Em qualquer empresa, sempre há um cara que resolve tudo, sem delegar funções aos outros. Na OSESP (Orquestra Sinfônica do Estado de SP), o maestro diz: “a orquestra sou eu”. No Senado, Sarney e Renan brandem documentos falsos num espaço público e passam impunes. O Brasil todo é mal-organizado, falta muita seriedade ao país. E seriedade, inclusive, em nome do prazer, da alegria, do improviso, da informalidade... Esse é o drama brasileiro.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Quatro Perguntas para Carlos Fernando



A elaboração do meu artigo sobre o Nouvelle Cuisine despertou curiosidade por saber o que Carlos Fernando Nogueira, ex-vocalista do quinteto, estaria fazendo ultimamente, afastado do mainstream. No processo de checagem e redação, deparei-me com a possibilidade de um contato direto com ele. E fui adiante, claro.

Carlos é um grande cantor, mas não lança discos já há algum tempo. Tem trabalhado como arquiteto (é formado pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP) na Casa das Rosas, espaço cultural da Av. Paulista, em São Paulo, e feito shows eventuais, depois de ter parado de cantar no bar Baretto, também na capital paulista, onde era “fixo”. O repertório dos shows varia conforme a ocasião. No último dia 17, por exemplo, no I Encontro Nacional de Museus, no Memorial da América Latina, Carlos e o violonista Luiz Ribeiro apresentaram canções cujas letras evocam o passado, como “Saudosismo”, de Caetano Veloso. Em maio, na esteira das comemorações referentes ao Ano da França no Brasil, Carlos interpretou músicas francesas no auditório da CPFL Cultura, em Campinas.

Um CD, porém, mais de dez anos após o último álbum com o Nouvelle, está nos planos do cantor. Carlos já tem prontas as ‘bases’ de um disco de sambas, que pretende lançar “assim que tiver tempo de fazer tudo bem”. Isso porque, além de estar atarefado com a arquitetura e os shows, passou recentemente por um problema na voz (“Disfonia”, contou) e teve de fazer tratamento com fonoaudiólogo. Mas agora está ok.

Nesta conversa que tivemos por telefone, numa tarde de sábado, Carlos revela por que deixou o Nouvelle Cuisine, comenta suas influências no canto e declara-se favorável ao compartilhamento de músicas pela internet. Confira.
(
Lucas
Colombo)



1. Carlos, vou começar com uma pergunta clichê, mas inescapável: “Por que você saiu do Nouvelle Cuisine?”.

Carlos Fernando –
Houve um descompasso entre mim e os demais integrantes. Eu estava 100% dedicado ao Nouvelle Cuisine, e os outros tinham trabalhos paralelos. A produtividade estava um tanto lenta por causa disso. Eu tinha um projeto chamado Bossa Nouvelle, para trabalhar a bossa nova como conceito, fazer uma releitura de alguns temas clássicos do gênero e outros menos conhecidos. Eu propunha isso para o grupo, e as atitudes variavam. O Guga e o Maurício (baterista e guitarrista, respectivamente) eram muito preocupados com a realidade mercadológica, duvidavam se o projeto ia funcionar, não avançavam, e eu lá mandando brasa... A ponta do iceberg foi essa. Mas já havia um descompasso, antes.

2. O Nouvelle Cuisine surgiu numa época não muito rica da música brasileira. Os anos 80 foram marcadamente pop, nasciam bandas que faziam um rock bem pobrinho... E vocês, jovens, apareceram com uma proposta de sofisticação nos arranjos, de tocar música boa, clássicos com roupagem nova e elegante. Foi algo consciente, ou não? Vocês simplesmente se reuniram e deu no que deu, ou pensaram: “nos recusamos a ser mais uma Legião Urbana”?...

Carlos Fernando –
Nós éramos amigos havia muito tempo. Tocávamos jazz por prazer e, sim, odiávamos o cenário musical da época. Uma amiga do Guga que fazia assessoria de imprensa para um bar chamado Espaço Off, de São Paulo, nos convidou para tocar lá, e foi só por causa desse convite que decidimos nos apresentar em público. Fizemos um show para uma plateia “média”, não tinha muitas pessoas. Mas houve boca-a-boca, e, na segunda noite, lotou. A repercussão foi uma surpresa para nós. A Folha começou a comentar os shows, a Veja... Aí gravamos o primeiro disco, em 1988. Foi uma bola de neve. Mas tudo plenamente consciente. Era o que gostávamos na música.

3. Sua maior influência no canto continua sendo o Mel Tormé? E o que você acha dos atuais jovens intérpretes do jazz, como Esperanza Spalding e outros mais ‘ecléticos’ como Michael Bublé, Diana Krall e Madeleine Peyroux?

Carlos Fernando –
Gosto muito do Mel, mas quem mudou minha vida foi Sarah Vaughan. Acho-a genial. Ela tem uma competência harmônica e uma “frieza racional” que é maravilhosa. Soma uma certa malícia formal a um timbre belíssimo. Em alguns discos, fez coisas que a Ella Fitzgerald, por exemplo, nunca chegou perto de fazer.
Não conheço muito o trabalho da Esperanza Spalding, não posso opinar. Já a Madeleine Peyroux, não há como negar, é imitação da Billie Holiday. Sinceramente, ela não me diz nada. O Michael é uma imitação do Mel Tormé também. É muito competente do ponto de vista técnico, mas ainda penso que ele precisa mostrar a que veio. Falta ver que música ele realmente quer fazer.

4. Os três álbuns do Nouvelle Cuisine tendo você como vocalista não foram lançados em CD. Neste formato, há apenas a coletânea “E-collection”, com algumas faixas de cada disco. Na internet, contudo, há vários links para download gratuito das músicas do grupo, e do seu CD ao lado do Toninho Horta também. Isso te incomoda?

Carlos Fernando –
O primeiro disco chegou a sair em CD, mas com uma tiragem bem discreta. Dessa coletânea aí, eu não gosto. Nós apresentamos à gravadora as músicas que gostaríamos que entrassem, e a Warner acabou lançando uma coisa totalmente diferente, inclusive com faixas que nós tínhamos descartado dos outros discos, porque não apreciávamos o resultado. Realmente, não gosto. Quanto aos downloads, vejo como uma prática inevitável – e muito bem-vinda! Foi um jeito que o mundo encontrou para se virar. Sou favorável. Eu mesmo mando, para amigos, links em que meus discos podem ser baixados. Pirataria pode até ter um efeito saudável: reforçar a importância do show, da presença física do artista perante o público. O que dá dinheiro para os músicos são mesmo os shows. Acho a internet ótima, o futuro da informação é esse. A mobilidade que ela proporciona é fantástica. É preciso ter mais consciência do que ela significa do ponto de vista histórico. Olhe o que aconteceu no Irã. Graças à internet, ninguém mais consegue fazer sacanagem em lugar algum do mundo. É totalmente livre.

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Quatro Perguntas para Sérgio Rodrigues



E eis que surge a nova seção do blog: Quatro Perguntas consistirá num bate-papo rápido com gente interessante da cultura, do jornalismo, das ciências, etc etc. Da política, também. Talvez. Será difícil encontrar um político brasileiro com algo de conteúdo para declarar, mas tentaremos.

O MM, que já contava com a seção Entrevista no site, abre agora mais este espaço. Quatro perguntas, a partir das quais já será possível se
saber muita coisa.

Explicações dadas (e nariz de cera terminado), vamos a Sérgio Rodrigues. O jornalista e escritor publicou, em março, o romance "Elza, a Garota", em que apresenta a história da adolescente Elvira Cupello Calônio, assassinada por ordem do Partido Comunista Brasileiro em 1936. Amante de um membro do partido, Elvira, codinome Elza Fernandes, foi acusada de ter delatado companheiros de 'luta', que estavam sendo perseguidos pelo governo Getúlio Vargas após a Intentona Comunista, fracassada tentativa de Luis Carlos Prestes de tomar o poder no país, em 1935. Um caso obscuro do passado brasileiro, do qual nem a "esquerda" (por motivos óbvios) nem a "direita" (por criar paranoia em torno do fato) saem bem.

Aqui, Sérgio fala, além do novo livro, também da infantilidade de se pensar em internet e jornal como meios excludentes ("esse quebra-pau que vemos hoje entre os fanáticos do meio digital e os fundamentalistas do papel me aborrece um pouco") e do finado NoMínimo ("
Foi um trabalho bem feito, sem dúvida"), o mais prestigiado site jornalístico da história da internet no Brasil, do qual foi editor e titular da coluna literária "Todoprosa", hoje seu blog. Confira.
(Lucas Colombo)


1. Caro Sérgio, você tem uma coluna ("Palavra da Semana") na Revista da Semana e mantém o blog Todoprosa, atualizado quase diariamente. Quais são os pontos positivos e negativos de cada gênero, coluna semanal e blog? E ainda: você concorda que internet e jornal/revista não são meios excludentes?

Sérgio - Não acho que a questão da periodicidade tenha tanta importância além da óbvia, claro, que é a freqüência com que você é obrigado a se ocupar do trabalho. Os meios, sim, acabam influenciando muito mais o tipo de informação e a própria linguagem. Mas esse quebra-pau que vemos hoje entre os fanáticos do meio digital e os fundamentalistas do papel me aborrece um pouco. Parece bem evidente que os meios estão destinados a conviver, pelo menos por um longo tempo ainda. Não vejo nada de excludente neles, pelo contrário - acho que são complementares e isso pode e precisa ser mais bem explorado do que está sendo.

2. Você foi editor-executivo e colunista do NoMínimo, que, com seu conteúdo de alto nível e grande interatividade com o público, foi a melhor revista eletrônica já criada "nessepaís" (como diz o presidente). O site parou em 2007, por uma revoltante falta de anunciantes, e deixou muitos leitores órfãos, entre eles, eu (a chegada do As Últimas nos deu um pouco de alegria...). O NoMínimo, porém, marcou época na internet brasileira e foi referência para muitos outros projetos, inclusive pro Mínimo Múltiplo... Hoje, quase dois anos depois do fechamento, você e a turma já têm cristalizada a ideia de que "fizeram história"?
Sérgio - O fim do NoMínimo foi traumático para toda a equipe que o fazia. Acho que posso generalizar e dizer que todos nós, hoje espalhados por aí, ainda nos sentimos meio órfãos, provavelmente mais do que os leitores. Mas quanto a "fazer história", mesmo agradecendo a sua generosidade, devo dizer que acho um exagero. Foi um trabalho bem feito, sem dúvida, e sinto orgulho dele. Mas o jornalismo sempre se mexeu muito rápido e agora, na internet, ficou mais veloz ainda. Daqui a pouco tempo, quando se falar em NoMínimo, a reação mais normal será: Hã? O quê? E é saudável que seja assim.

3. Em "Elza, a Garota", você narra um episódio pouco conhecido do nosso passado. Imagino que a pesquisa tenha sido trabalhosa - afinal, é o típico caso sobre o qual não há interesse em manter muita documentação, não? Você disse numa entrevista recente que chegou a se arrepender de ter aceitado a encomenda da editora Nova Fronteira - um livro de não-ficção sobre a história -, até que teve a ideia de transformá-lo em romance...
Sérgio - Bom, o projeto de fazer um romance sobre essa história era tão ambicioso e cheio de armadilhas que, na verdade, me arrependi bem mais depois que tive a idéia de trabalhar o tema como ficção. Para piorar, o prazo acordado com a editora era curto. O pânico só começou a diminuir quando decidi que, se no fim das contas tivesse nas mãos um livro que considerasse ruim, simplesmente não o entregaria à editora e pronto. O resultado acabou sendo mais que satisfatório.

4. Este é seu segundo romance. Entre "As Sementes de Flowerville" (2006) e "Elza", o que mudou? O fato de o primeiro ter recebido resenhas elogiosas (algo que está se repetindo agora) aumentou ou diminuiu sua autocrítica como escritor?
Sérgio - Minha autocrítica não cresceu, ainda bem. Sempre foi muito grande e poderia virar auto-sabotagem se passasse de um certo ponto. "Flowerville" era de certa forma um livro de estréia, embora eu já tivesse publicado um volume de contos, "O homem que matou o escritor". Não renego meu primeiro romance de forma alguma, mas "Elza" é muito mais ambicioso, mais profissional e mais maduro. É meu melhor livro, sem dúvida.