Neste 10 de junho, João Gilberto faria 90 anos. Lembro-me de ouvir, nas conversas sobre ele que entabulei ou presenciei, inclusive nos dias posteriores à sua morte, em 2019, alguns comentários incomodados com o adjetivo "gênio" que vinha normalmente colado ao seu nome. Há mesmo uso banal, sem critério, do termo - hoje, qualquer pessoa que faz um comentário espertinho e engraçadinho, por exemplo, é chamada de "gênio". No entanto, João é um dos raros casos a que o termo se aplica, se nos guiarmos pela classificação de escritores, e que pode se estender para artistas em geral, feita por Ezra Pound em ABC da Literatura. Conforme o grande poeta e crítico americano, os inventores/gênios são os inovadores, criadores de formas distintas das estabelecidas e definidoras de novos parâmetros de qualidade artística. Mestres são aqueles que dominam quase à perfeição as formas artísticas criadas pelos inventores, tornando-se, com isso, também uma referência de qualidade. E diluidores são os que conhecem as obras dos inventores/gênios, aprendem com os mestres, mas limitam-se a reproduzi-los, sem contribuições e, muitas vezes, sem alcançar as mesmas sutileza e riqueza. Não é difícil concluir em qual dessas três categorias, portanto, João pode entrar. Ele criou, ao violão, uma nova divisão rítmica para o samba, sincopada e mais sintética do que a comum, e definiu, com Tom Jobim e Vinicius de Morais, toda uma nova forma de expressão para a música brasileira, mais intimista e despojada, ao mesmo tempo complexa e coloquial - bem distinta do que geralmente se fazia até aqueles anos 1950 de boleros e canções dor-de-cotovelo. "Chega de saudade", de 1958, continha letra diferente e harmonia diferente, às quais João aliou interpretação diferente e batida diferente. Ele não foi um diluidor; foi um inventor que se tornou mestre.
Nos seus 90 anos e sempre, portanto, podem chamá-lo de gênio, sim, à vontade. Porque ele foi mesmo um.
(Lucas Colombo)
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quinta-feira, 10 de junho de 2021
Gênio, sim
quarta-feira, 9 de janeiro de 2019
MM Recomenda - Lado B, Lado A, banda O Rappa
"Hoje, eu desafio o mundo sem sair da minha casa..." (Me Deixa)
Esta recomendação contém uma boa dose de nostalgia. Em 1999, o pop rock nacional ainda tinha uma certa relevância cultural. Movimentava e ditava modas e tendências entre os jovens e interessados pelo universo pop, no Brasil. Aliás, nesse termo "pop rock" (por incrível que pareça, ele existia) poderia se enquadrar uma banda como O Rappa, que lançava o bom Lado B, Lado A. Um apanhado de letras sagazes de Marcelo Yuka, cobertas por uma sonoridade urbana, repleta de guitarras e efeitos eletrônicos. A temática era nacional, mas a pegada tinha um quê dos ingleses do Asian Dub Fundation e Black Grape. Um disco acima da média. Figura em diversas seleções de melhores discos brasileiros de todos os tempos. Bom de ouvir em um engarrafamento, no ônibus/metrô lotado ou em qualquer situação de um dia insuportavelmente quente de verão. O saudosismo evocado por Lado B, Lado A é de um período de ebulição: início da música digital (mp3, Ipod e afins), CDs piratas, paradas de sucesso com presença de diferentes estilos musicais, rádios jovens, publicações de música, programas de auditório, clipes na MTV. Para se ter uma ideia, o vocalista d'O Rappa, Falcão, era um personagem corriqueiro em revistas e programas de fofoca, pois namorava a atriz Débora Secco. O cenário de 1999 foi realmente emblemático. O último suspiro de um jeito de ver e consumir cultura pop. Hoje, provavelmente um disco como Lado B, Lado A não teria nem metade da repercussão e significação que teve. Logo na sequência, em 2000, Yuka foi baleado em assalto e ficou paraplégico. A banda, então, desandou, com discos abaixo da média e shows sofríveis. No palco, o som ficava lá atrás. Só se notava Falcão, com a postura de um guru de autoajuda, empilhando discursos vazios sobre qualquer tema pungente. Além disso, ele lançava mão de constantes vocalizações e onomatopeias que deixariam João Bosco corado. Em 2018, o grupo decidiu dar um tempo. É por tudo isso que ouvir aquele O Rappa, 20 anos depois, dá uma certa saudade. (Lucas Barroso)
quarta-feira, 5 de dezembro de 2018
MM Recomenda - Recomposed by Max Richter: Vivaldi – The Four Seasons
Para lembrar que a humanidade ainda é capaz de beleza (tá difícil, eu sei), ouça o CD com a recriação da suíte As Quatro Estações, de Vivaldi, feita em 2012 pelo compositor inglês Max Richter. Releitura de uma surrada peça musical em uma sonoridade minimalista, arejada e com elementos de eletrônica. Hipnotizante. Nem só de choque gratuito e efemeridade vive o pós-modernismo. (Lucas Colombo)
segunda-feira, 19 de novembro de 2018
MM Recomenda - Daquele Instante em Diante, de Rogério Velloso
Um documentário de 2011 que destrincha a trajetória de Itamar Assumpção, prolífico cantor e compositor que, durante seu período de atuação, não teve reconhecimento de grande parte do público e crítica, sendo taxado de artista "marginal" e "maldito". Ele participou do movimento Vanguarda Paulista, na década de 1980, junto de Arrigo Barnabé, Grupo Rumo, Premê, entre outros. Porém, sua carreira não se resume a isso. Vale ouvir com atenção seus discos. Neles, fica evidente o manancial criativo que foi Itamar Assumpção. Difícil carimbar rótulos no som que ele produziu. No filme, a filha dele, Anelis Assumpção, relembra um diálogo que teve e que demonstra bem o que foi a vida do pai artista (e é também um resumo do que é fazer arte no Brasil hoje):
- E depois que ele fez tudo isso e não teve o reconhecimento merecido, o que aconteceu com o Itamar?
- Depois disso, ele morreu.
(Lucas Barroso)
quarta-feira, 10 de outubro de 2018
MM Recomenda - Amoroso, de João Gilberto
Boa notícia para quem ainda sabe o que é boa música: Amoroso, de João Gilberto, será relançado em vinil. Foi nesse álbum de 1977 que o grande cantor e violonista se mostrou mais "universal". Então já ouvido no mundo todo e morando nos EUA, João pinçou canções em inglês, espanhol, italiano e português cujas letras falassem de relações amorosas (daí o título) para gravá-las em arranjos que uniam seu violão às cordas e sopros do maestro Claus Ogerman, alemão parceiro de Tom Jobim em alguns trabalhos. O resultado musical é tão bom, que compensa a má pronúncia de João nos idiomas estrangeiros. Ele leva 'S Wonderful, o standard dos irmãos Gershwin, numa interpretação delicada e em batida de bossa nova; despe Besame Mucho da dramaticidade de bolerão e, deixando-a quase irreconhecível, põe um figurino low profile no lugar, um tom baixo com harmonização inusitada; e faz scats vocais irresistíveis ("bailo, bailo, bãm bãm bãm...") em Tim-tim por tim-tim, um samba antigo bem sincopado, a faixa mais 'rítmica' do disco. Completa o Lado A a italiana Estate, a única que, arrastada, não dá vontade de ouvir até o fim. No Lado B estão Wave, Retrato em Branco e Preto, Caminhos Cruzados e Triste, quatro belos casamentos de letra e melodia perpetrados por Jobim. John Pizzarelli e Diana Krall, dois nomes competentes do jazz e da canção atuais, já fizeram declarações de amor ao disco. You can't blame them for feeling amorous: é realmente uma beleza esse Amoroso. Vou te contar... (Lucas Colombo)
segunda-feira, 3 de setembro de 2018
MM Recomenda - A Vida É Doce, de Lobão
As constantes brigas e polêmicas transformaram Lobão em persona non grata no meio cultural brasileiro. Entretanto, é inegável que o autor de Me Chama, Cena de Cinema, Noite e Dia, Vida Bandida, entre outros hits, tem méritos no que mais importa: sua produção musical. Um exemplo disso é A Vida É Doce, disco lançado em 1999 de forma independente. O CD vinha numerado (uma das tantas disputas em que Lobão se meteu) e encartado em uma revista com edição caprichada. É possivelmente o único trabalho de Trip Hop feito no Brasil e vale muito ser ouvido. Lobão soube canalizar sua ira (como na faixa-título, El Desdichado II e Tão Menina) e sua candura (Uma Delicada Forma de Calor e Vou Te Levar) de maneira totalmente exitosa. Os seus discos anteriores, Nostalgia da Modernidade (1995) e Noite (1998), já experimentavam os efeitos da música eletrônica, deixando o rock de lado. Mas, em A Vida É Doce, Lobão foi mais feliz em sua empreitada. Então, é isso. Esqueça as tretas e foque na música, porque é um discaço. (Lucas Barroso)
segunda-feira, 20 de agosto de 2018
MM Recomenda - AR, de Almir Sater e Renato Teixeira
Se ainda faz sentido ouvir um "disco" do início ao fim, neste mundo de infinitas distrações, é o caso de AR (2015), de Almir Sater e Renato Teixeira. Canções brejeiras que falam de uma vida simples. As letras de Teixeira são doses de sabedoria popular, e a viola de Sater é precisa. Uma combinação difícil de dar errado. (Lucas Barroso)
quarta-feira, 13 de junho de 2018
Debussy, pour toujours
Como sempre digo, a melhor maneira de homenagear um grande artista, em efemérides, é revisitar sua obra. Façamos isso com Claude Debussy (1862-1918), o compositor "erudito" francês morto há cem anos, cuja influência também sobre músicos de jazz ou canção é notória. Tom Jobim, por exemplo, tinha-o em alta conta. Tanto que criou a melodia de Chovendo na Roseira partindo de uma citação às primeiras notas da linda Rêverie do francês. Ouça, compare e se enleve.
Há quem diga que o título original de Chovendo na Roseira, Children's Games, é também uma referência à suíte Children's Corner de Debussy. Na melodia de Jobim, o trecho que, depois, foi unido aos versos "Que é de Luiza/ Que é de Paulinho/ Que é de João" realmente lembra o começo do primeiro movimento da suíte, Doctor Gradus Ad Parnassum.
Beleza universal e eterna. C'est tout.
(Lucas Colombo)
segunda-feira, 22 de dezembro de 2014
Editor's choice
Em ordem cronológica, o que de melhor o MM publicou em 2014, na visão deste editor:
- "Geografia", by Lucas Barroso
- "Ética a Internauta", by Lucas Colombo
- "Memórias sem cárcere", by Rafael Fais
- "Anotações", by Lucas Colombo
- "(Não) Gostar de futebol", by Leandro Schallenberger
- "Mickey é um rato limpinho?", by Rafael Fais
- "A dama canta o blues", by Lucas Colombo
- "O realismo do instinto", by Muriel Paraboni
- "Arte não é corrida", by Lucas Barroso
- "Centenário da independência", by Lucas Colombo
- "Você acreditou em 2014?", by Lucas Barroso
- "Eu, você, nós dois", by Lucas Colombo
Feliz 2015.
(Lucas Colombo)
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terça-feira, 2 de setembro de 2014
Poucas e ótimas
Na coluna, contestei alguns comentários ilógicos, radicais, politicamente corretos ou tudo isso junto que ouvi/li recentemente. Aqui, vou para o outro lado: endosso pensamentos que li/reli nos últimos dias.
- “O
brasileiro é assim, né? Ou somos os melhores do mundo, ou os piores, os
amarelões... Se somos bons, é porque nossa raça mestiça tem a vocação para
isso; se vamos mal, é porque nosso DNA impede. Que infantilidade! Passou da
hora de o Brasil parar de associar discurso racial e esporte, de ver isso como
questão de honra. Esporte ajuda a aproximar pessoas e inspirar exemplos, mas
não define a superioridade ou inferioridade de uma nação.”
- Da primeira entrevista que Daniel Piza
concedeu ao MM, em 2008, ano da Olimpíada de Pequim. Resposta a uma pergunta
sobre os extremos da relação brasileira com o esporte, muito pertinente a este
período pós-vexame na Copa.
- “O primeiro dever do
intelectual é esclarecer, desfazer confusões, limpar os cérebros das teias de
aranha da paixão e da ideologia.”
- Escritor mexicano Octavio Paz, no que se
relaciona ao “Quem se diz um pensador marxista não é pensador”, do Millôr,
e “O senso comum é a trama ideológica fundamental”, do sociólogo francês
Jacques Ellul. Tarefa dura, essa recomendada por ele, mas cada vez mais
necessária.
- “A arte me fez entender certas
questões existenciais mais claramente do que qualquer livro ou aula teórica o
fariam. Seria um exagero dizer que se pode educar alguém por meio da arte. Mas
ela é capaz de fazer de nós pessoas melhores e mostrar que existem muitos
mundos além do nosso umbigo.”
- Robert Hughes, crítico de arte australiano,
naturalizado americano, e ex-editor da revista Time.
- Paulo Francis, em 1991. Depois disso, até fico com vergonha de linkar para meu texto sobre Billie, (re)publicado na Toca-disco.
(Lucas Colombo)
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segunda-feira, 9 de junho de 2014
Tudo que falta
"Desafinado", com Celso e o grande saxofonista Leo Gandelman
“A bossa nova está largada. Eu faço show no exterior há 14 anos, e rigorosamente em toda viagem, seja na Europa, América do Sul ou Japão, as pessoas me perguntam onde podem ouvir bossa nova no Rio. Eu respondo: lá na minha casa. Ou no seu iPod. (...) A bossa nova tem tudo que falta neste momento: elegância, delicadeza e qualidade. Eu sou apaixonado pelo Rio, mas é um terror ver o que acontece na cidade”.
- Cantor e compositor Celso Fonseca, no site d’O Globo, atingindo uma nota aguda.
(Lucas Colombo)
segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
Editor's choice
Para este editor, o que de melhor o MM publicou em 2013, em ordem cronológica:
- "Reis magos Blues" (seção Toca-disco), by Moziel T. Monk
- "Nem mesmo o amor", by Muriel Paraboni
- "Chet", by Lucas Colombo
- "Casa" (seção Enquadramentos), by Marcelo Donadussi
- "Personagens brasileiros, 2013", by Lucas Colombo
- "Livros sobre o mensalão" - I, II e III, by Rafael Fais
- "Visões do ano", by Lucas Barroso
- "Jornalismo em 2013", by Rafael Fais
Feliz 2014.
(Lucas Colombo)
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sexta-feira, 9 de novembro de 2012
Top 5 musical
E se, depois de acomodar os livros formadores, eu tivesse que pôr na estante apenas cinco CDs?
- "Summit - Reunión Cumbre", de Astor Piazzolla e Gerry Mulligan
- "Getz/Gilberto", de Stan Getz, João Gilberto, Astrud Gilberto e Tom Jobim
- "The Brazil Project", de Toots Thielemans e Luis Bonfá, João Bosco, Chico Buarque, Caetano Veloso et al.
- "Time Out", de The Dave Brubeck Quartet
Cabe mais um? Cabe: "Concerto para Clarinete em Lá Maior", de W.A. Mozart, com Claudio Abbado e Sabine Meyer
(Lucas Colombo)
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Oh, how lovely
mm
Após oito álbuns de estúdio, a americana Stacey Kent, uma das mais elogiadas cantoras de jazz contemporâneas, lança seu primeiro trabalho ao vivo, "Dreamer in concert". Gravado no mês de maio em Paris, em um show intimista, o CD traz Stacey em novas interpretações para grandes canções americanas ("The best is yet to come", "They can't take that away from me"), francesas ("Ces petits riens", "Jardin d’hiver") e brasileiras ("Waters of march", "Dreamer" e "Corcovado" [trecho acima], versões de Jobim, e "Samba saravah", de Vinicius e Baden, cantada em francês). "Postcard lovers", com letra do romancista Kazuo Ishiguro, e "O comboio", com letra em português do poeta Antonio Ladeira, são melodias do marido de Stacey, o saxofonista e produtor Jim Tomlinson.
Stacey é apreciadora de música brasileira e já gravou bossa nova em discos anteriores. Aqui, já cantou no Tim Festival, em 2008, e foi a única artista estrangeira a se apresentar nas comemorações dos 80 anos do Cristo Redentor, no Aterro do Flamengo, no Rio, em outubro último.
(Do CulturaNews)
Após oito álbuns de estúdio, a americana Stacey Kent, uma das mais elogiadas cantoras de jazz contemporâneas, lança seu primeiro trabalho ao vivo, "Dreamer in concert". Gravado no mês de maio em Paris, em um show intimista, o CD traz Stacey em novas interpretações para grandes canções americanas ("The best is yet to come", "They can't take that away from me"), francesas ("Ces petits riens", "Jardin d’hiver") e brasileiras ("Waters of march", "Dreamer" e "Corcovado" [trecho acima], versões de Jobim, e "Samba saravah", de Vinicius e Baden, cantada em francês). "Postcard lovers", com letra do romancista Kazuo Ishiguro, e "O comboio", com letra em português do poeta Antonio Ladeira, são melodias do marido de Stacey, o saxofonista e produtor Jim Tomlinson.
Stacey é apreciadora de música brasileira e já gravou bossa nova em discos anteriores. Aqui, já cantou no Tim Festival, em 2008, e foi a única artista estrangeira a se apresentar nas comemorações dos 80 anos do Cristo Redentor, no Aterro do Flamengo, no Rio, em outubro último.
(Do CulturaNews)
quinta-feira, 2 de junho de 2011
Poucas e boas
- "A arte me fez entender certas questões existenciais mais claramente do que qualquer livro ou aula teórica o fariam. Seria um exagero dizer que se pode educar alguém por meio da arte. Mas ela é capaz de fazer de nós pessoas melhores e mostrar que existem muitos mundos além do nosso umbigo." (Robert Hughes, crítico de arte australiano radicado nos EUA)
- "É a harmonia que dá vida à música, que dá colorido emocional; não é o ritmo." (Stephen Sondheim, grande compositor americano, no que poderia ser um recado à imensa maioria das bandas de rock, ao axé, etc.)
- "O grande homem é aquele que, no meio da multidão, mantém com perfeita doçura a independência da solidão." (Ralph Waldo Emerson (1803-1882), poeta americano, dando uma definição elegante para 'solidão')
- “Não sou pessimista, o mundo é que é péssimo. São os pessimistas os únicos que querem mudar o mundo. Para os otimistas, tudo está muito bem. Deveria-se fazer profissão e militância do pessimismo." (José Saramago (1922-2010), escritor português)
(Lucas Colombo)
terça-feira, 20 de abril de 2010
Há Esperanza. E Karrin
Deixem-me dizer uma coisa: há, sim, exceções à mediocridade que nos rodeia. Não se registra, hoje em dia, ao contrário do que muitos pensam, uma falta insuportável de obras criativas, de boas ideias, de bons livros e filmes. Se, como sustentação para abordar a "crise cultural contemporânea" (com excesso de "c"), você usar como argumento a ausência de um Shakespeare e de um Picasso, a programação dos canais de TV aberta e as músicas tocadas nas rádios, eu concordarei que os tempos são de aridez. Quem, no entanto, é bem informado e tem uma ativa vida cultural, lê ao menos um livro e assiste a alguns filmes por mês, prestigia exposições e ouve alguns CDs, com discernimento e sem preconceitos, sabe que existe, sim, gente bravamente produzindo coisa boa, coisa interessante, por esse mundão. O cenário está longe de ser animador, mas também não é apocalíptico.
A boa música, por exemplo, não deixou de existir, não. Nunca nos abandonou. Basta prestar atenção, que ela aparece. Como na pessoa de Karrin Allyson, cantora americana de jazz que começou nos anos 1990 e hoje é uma das mais respeitadas intérpretes contemporâneas. De voz levemente rouca, suave sem deixar de ser forte, Karrin já lançou onze discos, com repertório eclético, mas sempre pendendo ao jazz. Também adora música brasileira - tanto que gravou um álbum basicamente só com canções de Tom Jobim, "Imagina", de 2008. Ótima intérprete, é frequentemente saudada na imprensa americana como dona de grande capacidade de "roubar" canções para si, cantá-las como se ela as tivesse composto. Conheci-a há alguns anos, quando ouvi Night and Day, de Cole Porter, na voz dela, num arranjo acústico e bossa novístico. Depois ouvi-a também em Blame it on my Youth e numa delicada, mas intensa interpretação de Coração Vagabundo, uma das melhores de Caetano Veloso, que ela canta toda em português no disco "From Paris to Rio", de repertório brasileiro e francês. Foi o bastante para torná-la uma das minhas preferidas da "nova guarda" (na falta de expressão melhor). No mesmo "From Paris to Rio", Karrin defende uma versão bilíngue de "O Barquinho (My Little Boat)", de Roberto Menescal. Esforça-se no português e canta com swing e classe, como vocês podem ver no vídeo abaixo, registro de um show no Montreux Jazz Festival de 2003. Ela sabe o que faz.
Outra que sabe o que faz - dá aulas na faculdade de música de Berklee, inclusive - é a moça abaixo, Esperanza Spalding. Ela é uma grande revelação do canto jazzístico. E também toca baixo acústico muito bem. O vídeo, de uma apresentação na Casa Branca, com Barack e Michelle Obama na plateia (Mr.
President, aliás, gosta muito de jazz), a traz em Overjoyed, de Stevie Wonder. Esperanza canta de um jeito tão doce, tão gracioso, suingado e contagiante, que podemos até perdoar o fato de ela ter feito participação especial no último disco da brasileira Ana Carolina.
Esperanza tem 25 anos, e sua música é de alta qualidade. O trocadilho é inevitável: isso nos dá esperança.
(Lucas Colombo)
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Jobinianas
Chora manso, bem baixinho... Há exatos 15 anos, morreu Antônio Carlos Jobim, o mestre da canção, o compositor brasileiro mais gravado e reverenciado no mundo, o músico que, ao lado de João Gilberto, renovou a tradição da MPB ao unir harmonias de jazz e música de câmara ao ritmo do samba e, assim, formatar a bossa nova. Seja na suavidade rica da bossa, no diálogo com Villa-Lobos no disco "Matita Perê" (1973), nos sambas do início da carreira, no álbum "Passarim" (1987), ouvi-lo é sempre fascinante. Façamos isso logo, então.
O vídeo abaixo é um registro gracioso de um encontro de Tom com João, em 1992, em que este lembra uma introdução feita a Garota de Ipanema, especialmente para um show que reuniu os dois, Vinícius de Moraes e o conjunto vocal Os Cariocas, trinta anos antes, num restaurante do Rio. Foi nesse show, chamado "Encontro", em que Garota foi apresentada pela primeira vez. João começava cantando: "Tom, e se você fizesse agora uma canção/ Que possa nos dizer/ Contar o que é o amor?". No que Tom seguia: "Olha, Joãozinho, eu não saberia/ Sem Vinicius pra fazer a poesia..." Vinicius emendava: "Para essa canção se realizar/ Quem dera o João para cantar..." E o modesto João encerrava o assunto: "Ah, mas quem sou eu?/ Eu sou mais vocês/ Melhor se nós cantássemos os três..." E, então, finalmente eles iam de "Olha que coisa mais linda/ Mais cheia de graça...", a sincopada melodia de Jobim que, aliada aos dissílabos de Vinicius, tão bem representa o 'balanço' da garota a caminho do mar.
Já este aqui é uma gravação de 1962 (mesmo ano do show acima citado), para um programa da TV americana, com Tom ensinando o grande saxofonista barítono Gerry Mulligan, no apartamento dele em Nova York, a tocar o Samba de uma Nota Só. Gerry, ao clarinete, atrapalha-se com a rhythm section na última frase da melodia, mas Jobim o ajuda a entrar no compasso.
Tom reúne o nacional e o internacional, o rigor e a informalidade, a tristeza e a alegria, a complexidade e a simplicidade. Com sua música, olhava "para dentro" e "para fora" ao mesmo tempo - uma atitude rara nesses trópicos. É uma pena que os jornais não tenham falado dele hoje... Se todos fossem iguais a Tom Jobim, que maravilha seria.
(Lucas Colombo)
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Viva Villa
Como sempre digo, nada melhor para homenagear um grande músico do que apreciando sua música. Morto há exatos 50 anos, Heitor Villa-Lobos tem, concordo, uma obra de altos e baixos, mas os "altos" são realmente inesquecíveis. E neles, para mim, estão - além, é claro, das Bachianas Brasileiras - suas composições para violão, de melodias marcantes. No Youtube há vários registros de grandes violonistas interpretando os Choros, os Estudos e os Prelúdios, mas fiquei com esses dois: Turíbio Santos e Julian Bream.
Neste vídeo, Turíbio executa o "Choros N.1", de 1920, uma das mais conhecidas composições de Villa:
E neste, o inglês Bream toca os Prelúdios 3 e 4, de 1940, num especial antigo da BBC:
O violão é central na música brasileira, e que o "erudito" Villa, ele mesmo um "chorão" na juventude, tenha se dedicado também à "música popular" de um jeito tão intenso e criativo, dialogando com a música de câmara, é algo a se ressaltar sempre. Música boa é música boa, não importa o gênero. E Villa sabia disso. Escutemos.
(Lucas Colombo)
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
Take Brubeck
Além dos 50 anos da morte de Billie Holiday, 2009 também marca o cinquentenário do lançamento de "Time Out", do Dave Brubeck Quartet, o segundo álbum de jazz mais vendido da história (perde apenas para o igualmente cinquentão "Kind of Blue", de Miles Davis e cia.) e um dos mais inovadores, em termos de ritmo, do gênero. Clique no vídeo acima e veja Brubeck ao piano, Paul Desmond no sax alto, Joe Morello na bateria e Eugene Wright no contrabaixo tocando a surrada, mas nem por isso menos obra-prima, "Take Five", a terceira faixa do disco, composta por Desmond num inusitado compasso de 5/4.
Na época, em 1959, Brubeck viu a gravadora Columbia torcer o nariz para sua proposta de lançar músicas tocadas em compassos, até então, "estranhos" ao jazz, que fugiam aos tradicionais 4/4 ou 3/4 (valsa), aos quais, inclusive, as plateias já estavam acostumadas. Seguiu, contudo, o projeto e criou temas como o hoje também clássico "Blue Rondo a la Turk" (primeira faixa do álbum), uma mescla de jazz, música "erudita" e música popular turca executada alternadamente em compasso 9/8 (ufa!) e em 4/4, e "Everybody's Jumpin'" e "Pick up Sticks", desenvolvidos em 6/4. Nas outras composições, também inoculou ousadias rítmicas: em "Three to Get Ready", por exemplo, tempos de 3/4 e 4/4 se revezam, e, em "Kathy's Waltz", os mesmos se cruzam, proporcionando um suadouro ao ouvinte que tenta acompanhar tal 'cadência'... Mesmo carregando tantas experimentações, o LP acabou sendo lançado pela gravadora - e, surprise!, tornou-se um grande sucesso, vendendo milhares de cópias, num período em que o rock já começava a dar as caras, e a conquistar corações, no mundo da música. Isso porque, a despeito da complexidade rítmica, as composições de "Time Out" têm swing e melodias marcantes, o que justifica o fato de "Take Five", por exemplo, ter virado música "assoviável" até por quem não conhece jazz com profundidade.
Um dos discos mais presentes em coleções do estilo musical americano pelo mundo, "Time Out" é uma prova de que há, sim, vezes em que sucesso popular e qualidade artística andam juntos. Pouquíssimas, mas há. Os críticos que, em 1959, não perceberam o caráter inovador da obra e a condenaram por 'bulir' com a tradição rítmica do jazz hoje a reconhecem como "obrigatória". Quanto a Dave Brubeck, segue na ativa, em seus 88 anos. Saudemo-lo.
(Lucas Colombo)
segunda-feira, 27 de julho de 2009
A dama canta o blues
O que escrever sobre Billie Holiday, neste mês em que se completam 50 anos de sua morte? O que ainda não foi dito sobre essa fabulosa cantora? Ela é minha intérprete favorita de jazz, ao lado de Sarah Vaughan e Blossom Dearie, e morreu em 17 de julho de 1959, aos 44 anos. Corro o risco de ser redundante e apenas destacar o que é sempre destacado nela, porém não vejo muito espaço para manobra. É impossível não elogiar seu timbre inconfundível, sua sensualidade, sua grande capacidade de expressar emoções através do canto, etc etc... Ouvi-la é fascinante. Sua voz não é exatamente delicada, é áspera, rascante, anasalada, mas de grandes profundidade e flexibilidade. Com seu fraseado original e sua sensibilidade melódica, Billie contribuiu para definir o que é "cantar" no jazz. Ela é referência. Muitas intérpretes contemporâneas, aliás, de Cassandra Wilson a Madeleine Peyroux, rezam em seu altar.
No vídeo acima, retirado de um especial televisivo de 1957, Lady Day - como foi apelidada pelo parceiro Lester Young - canta "Fine and Mellow", composição sua gravada pela primeira vez em 1939. Ao seu lado, estão os grandes saxofonistas Ben Webster, Gerry Mulligan, Coleman Hawkins e o próprio Lester Young, além do pianista Mal Waldron. Embora já parecesse cansada, Billie está toda ali, com seu jeito insinuante e a força que impunha aos versos que entoava. No início do vídeo, ela salienta que, para cantar o blues, "você tem de senti-lo", e que o que canta é parte de sua vida. Tal convicção pode explicar as interpretações viscerais de canções como "Strange Fruit" (um protesto contra o intenso racismo no sul dos EUA, só abolido oficialmente na década de 60), "Lady Sings the Blues" (também título de sua autobiografia), "Sophisticated Lady" (uma das que mais gosto de ouvir na voz dela) e a própria "Fine and Mellow", cuja letra é um lamento feminino em relação aos maus-tratos de um homem ("My man don't love me/he treats me, oh, so mean/He is the lowest man/that I've ever seen"). Billie refletia em sua música o caráter atribulado de sua trajetória. Nascida em 1915, quando sua mãe era ainda uma adolescente, Eleonora Fagan Gough - seu nome verdadeiro - teve infância pobre, sofreu abusos sexuais e chegou a prostituir-se na adolescência. Começou a cantar no início dos anos 1930, em nightclubs nova-iorquinos, foi descoberta pelo produtor John Hammond e consagrou-se depois em apresentações com as orquestras de Duke Ellington e Artie Shaw, mas sua vida pessoal seguiu conturbada. Billie contabilizou episódios de depressão, decepções amorosas e vício em álcool e heroína, o qual, inclusive, levou-a à prisão, por porte de drogas. Morreu de cirrose. Sua arte sobrevive.
"Just treat me right, baby
and I'll stay home night and day..."
(Lucas Colombo)
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