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quarta-feira, 13 de julho de 2016

Tempos (pós-) modernos



O muito bom MoMA de San Francisco, California, reinaugurado em maio, abriga a escultura "Sequence" (2006), feita com placas de aço por Richard Serra, para mim o mais respeitável nome da chamada arte contemporânea. Trabalho grande e elegante, como se espera de seu autor, compõe-se de elipses retorcidas interligadas por um "S", por dentro das quais o público pode andar, como num labirinto. O "S" dá a impressão de que estamos voltando para o ponto de onde partimos, mas não estamos.

O aço pesado consegue transmitir leveza. Eis a ambiguidade sempre desejada numa obra de arte.



E o museu tem ainda uma mostra temporária com os mobiles de Alexander Calder, o escultor americano morto há 40 anos. Chapas de metal coloridas e vazadas unidas por fios de arame, que se movem com o vento. Frequentador do Brasil entre os anos 1940 e 1960 (doou a peça "Black widow" para o Instituto dos Arquitetos do Brasil, em SP), Calder deitou influências na chamada segunda geração modernista. Sua obra ecoa, em especial, na de Abraham Palatnik, com a diferença de que as esculturas desse se movimentam ordenadamente por força de motores e imãs.


Um de seus stabiles, com os quais os "Bichos" de Lygia Clark dialogam:


Elegância, leveza, precisão e reflexão.

(Lucas Colombo, de San Francisco - EUA)

domingo, 6 de dezembro de 2015

Paralisia bienal


Percorrer a 10ª Bienal do Mercosul, encerrada hoje, fez-me lembrar um artigo do Daniel Piza, "Mitos paralisantes", do livro "Questão de gosto", em que ele diz existir, na cultura brasileira, grupos que vivem de "agregar bajuladores em eventos auto-referentes", vendendo "a mesma ideia há 40 anos" mesmo que ainda se afirmem inovadores, e que, com esse discurso de sempre, impedem a arte brasileira de ir para frente. Nomes aos bois: cinema glauberiano, tropicalismo, teatro de Zé Celso e... concretismo e antropofagia. Essa Bienal deu razão a Piza. Estavam ali, de novo, Augusto de Campos e Ferreira Gullar e o lugar-comum da antropofagia oswaldiana, o deglutir de influências estrangeiras e sua devolução como produto 'original', 'nacional'. E tome Tarsila, tome Oiticica...

A mostra do Santander Cultural, intitulada, claro, "Antropofagia neobarroca", foi toda nessa direção, sem esquecer a velha abordagem do "colonialismo", cara à esquerda latino-americana. Isso explica a presença de "Ecce Homo", do uruguaio Federico Arnaud, vídeo com a logomarca da Coca-Cola. As telas de artistas contemporâneos que também compunham a mostra eram mais ilustrações do que pinturas, com pouca interação entre figura e fundo, nada muito digno de atenção, e a clássica "Tiradentes supliciado", de Pedro Américo, me pareceu constar mais pelo valor histórico do que artístico. Uma curiosidade era a pintura de 1994 de Beatriz Milhazes, ainda sem as características que nos acostumamos a ver na autora (muitas cores, arabescos), a não ser os círculos concêntricos. Gostei de "Anaconda", do venezuelano Carlos Zerpa, 2013, foto abaixo. Exemplo do que se pode fazer com um material de uso superado como discos de vinil, além de, claro, ser uma boa representação do 'envolvimento' que a música nos proporciona. Mais do que uma referência ao mito amazônico do réptil que come grandes animais e os rumina por dias, no que seria 'antropofágico', etc. etc.


"O canibal" (2000), de Ana Norogandro, também me fez parar para fotografar:


A exposição reservada ao MARGS, "Modernismo em paralaxe", deveria se chamar "Pós-modernismo em paralaxe", pois o que mais se viam eram trabalhos da chamada 
segunda fase modernista, iniciada nos anos 1960. Li que a proposta era "desconstruir a noção de um movimento internacional coeso e organizado", mas, sorry, a proposta não foi atingida. As peças expostas eram bastante semelhantes, voltadas às estéticas modernistas conhecidas: cubismo, abstracionismo geométrico, concretismo... E, como de hábito, havia na mostra alguns daqueles trabalhos de "arte contemporânea" que não dá para levar muito a sério. Caso de "Pilha", do carioca Milton Machado, apenas gaveteiros empilhados (talvez fosse mais pertinente a uma feira de móveis); das colagens do gaúcho André Petry, muito simples na forma e de conteúdo pouco ambicioso; e da videoarte do mexicano Francisco Ugarte, 2011, uma projeção de slides de formas geométricas (se você quiser uma obra criativa mais satisfatória envolvendo projeção de slides, fique com essa cena linda da primeira temporada de Mad Men). Me prendeu mais a tela com uma das paisagens nebulosas, algo melancólicas, de Guignard. A foto a seguir é um detalhe da escultura "Coluna neoconcreta", do austríaco naturalizado brasileiro Franz Weissmann, com os "Parangolés" de Oiticica ao fundo. Aliás, um contrassenso: criadas para que o público pudesse trajá-las, essas capas e túnicas foram expostas na parede, com aquela faixa branca de "Não ultrapasse" no chão a impedir o contato dos visitantes.


Na Usina do Gasômetro, um trabalho discreto e atraente era o "Tintas Polvo" (2013), de Adriana Varejão, um conjunto de bisnagas de tinta desenvolvido pela artista a partir 
de cores que, numa pesquisa, brasileiros atribuíram às suas peles: "parda clara", "meio preto", "sapecada", "branquinha" e por aí vai. Valeu ver, também, a instalação "Roda dos prazeres", de Lygia Pape, e os globos iluminados do colombiano Oswaldo Maciá. Pelo inusitado, o maior destaque lá era a mostra "Olfatório: o cheiro na arte", constituída por obras que exalam ou evocam aromas, agradáveis - a exemplo das caixas olfativas de José Ronaldo Lima - ou desagradáveis - a videoarte da paraguaia Patricia Wich, composta por imagens de corpos em decomposição. That's rare.

Ainda na Usina, a seção "Aparatos do corpo", reunião de trabalhos que representavam corpos ou a relação do homem com as vestimentas, tinha um excelente Iberê, "Mímica", (1987), do período em que o grande pintor voltou ao figurativismo (abaixo, detalhe). De resto, muita arte conceitual, aquela que exige do espectador conhecer o 'conceito' para, só assim, entender as obras, em boa parte responsável pelo afastamento do público das artes visuais nas últimas décadas, e, guess what?, mais um Oiticica, com, de novo, a instalação "Tropicália".


Bienal de altos e baixos, mais baixos que altos. E que barulho e problemas geram esses baixos.


(Texto e fotos: Lucas Colombo)

segunda-feira, 23 de março de 2015

Na Fundação Iberê Camargo, Porto Alegre



A "Solidão" derradeira do grande artista, parte da exposição alusiva ao seu centenário, "Iberê Camargo: Século 21", inaugurada em novembro e com término marcado para o próximo domingo. Estão nela, também, pinturas das séries "Ciclistas", "As idiotas" e "No vento e na terra", que, por si só, já lhe garantiriam um alto nível, comprovariam a atemporalidade de seu autor e tornariam ainda mais desnecessários os trabalhos de "arte contemporânea" (que Iberê, aliás, detestava), pobres em material e conteúdo, escolhidos para o que se revela um "diálogo" muito forçado, pretensioso até, com as telas.


(Lucas Colombo)

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Editor's choice


Em ordem cronológica, o que de melhor o MM publicou em 2014, na visão deste editor:

- "Geografia", by Lucas Barroso
- "Ética a Internauta", by Lucas Colombo
- "Memórias sem cárcere", by Rafael Fais
- "Anotações", by Lucas Colombo
- "(Não) Gostar de futebol", by Leandro Schallenberger
- "Mickey é um rato limpinho?", by Rafael Fais
- "A dama canta o blues", by Lucas Colombo
- "O realismo do instinto", by Muriel Paraboni
- "Arte não é corrida", by Lucas Barroso
- "Centenário da independência", by Lucas Colombo
- "Você acreditou em 2014?", by Lucas Barroso
- "Eu, você, nós dois", by Lucas Colombo

Feliz 2015.

(Lucas Colombo)

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Mais Inhotim


Para complementar o breve texto sobre o Instituto Cultural Inhotim, de minha última coluna, publico aqui algumas fotos e mais informações a respeito. O arquivo de imagens do site do museu, porém, é evidentemente maior e mais rico. Acessem.


Localizado no vilarejo de Brumadinho, a 60km de Belo Horizonte, o espaço, fundado pelo empresário e mecenas Bernardo Paz, foi aberto ao grande público em 2005, e hoje recebe centenas de milhares de visitantes por ano. É lugar para ser contemplado com calma. Por isso chegamos cedo, vindos de Lagoa Santa – cidade vizinha a BH – e passando pela chamada Linha Verde, rodovia bem cuidada e recentemente duplicada, ladeada por vegetação do cerrado. Almoçamos num restaurante de lá mesmo e saímos perto do horário de fechamento, around 16h, ainda com algumas obras por ver.

Até onde se sabe, não existe iniciativa similar no mundo, de unir a arte contemporânea à natureza, numa mescla de museu com jardim botânico. A paisagem tropical dos 350 mil m
2 de Inhotim, por sinal, é bela. Ir de uma galeria a outra caminhando por entre suas palmeiras, eucaliptos e lagos ornamentais, habitados por garças e patos, e observando o horizonte de montanhas, é muito agradável. Segundo informações do instituto, são mais de três mil as espécies de plantas cultivadas. Só de aráceas (como antúrios e copos-de-leite) são 400 espécies, e de orquídeas, mais de 300.


Inhotim apresenta o que há de melhor em arte contemporânea. Focada nos trabalhos feitos a partir dos anos 1960, a coleção de Paz, conforme indiquei na coluna, não é 100% imperdível, mas tem coisas bastante boas. São mais de cem artistas, nacionais e estrangeiros, que aparecem com instalações, esculturas, desenhos, pinturas, fotografias e videoartes. As peças estão expostas ao ar livre ou dentro dos pavilhões e galerias, algumas com nomes de contemporâneos festejados, como Adriana Varejão (a mais bonita; parece flutuar sobre um dos lagos) e Cildo Meireles (suas famosas “Coca-colas” estão nela). Mostras temporárias também são realizadas.

Uma das esculturas “sem cabeça” e em posições improváveis da série Sem Título (2000-2005), de Edgard de Souza, exposta em meio a um dos jardins. O escultor tomou seu próprio corpo como modelo.


“Jardim de Narciso”, da japonesa Yayoi Kusama, feito inicialmente em 1966 (este é uma nova versão). Quinhentas bolas de aço inoxidável que espelham a natureza ao redor e se movimentam com o vento, mudando a obra de lugar.


“Penetrável Magic Square #5”, de Helio Oiticica, 1977. Chamado pelo artista de “A invenção da cor”, faz uma bonita composição com o verde da paisagem.

Além dos nomes que citei no texto da coluna, Inhotim tem ainda Waltércio Caldas, Amílcar de Castro, Iran do Espírito Santo, Matthew Barney (esse um dos dispensáveis, a meu ver), Chris Burden (outro com um trabalho, ainda que grandioso, difícil de levar a sério), Olafur Eliasson e Steve McQueen. Sai-se de lá positivamente surpreso com o diálogo que o instituto promove entre arte contemporânea e natureza. Em todos os aspectos, Inhotim é um empreendimento e tanto.

(Texto e fotos: Lucas Colombo)

domingo, 29 de novembro de 2009

Impressões bienais - 2009


Pois é. A 7ª Bienal do Mercosul, encerrada h
oje, realmente não empolgou. Em comparação com edições como as de 2005 e de 2007, coerentes, enxutas e instigantes (e, a meu ver, as melhores so far), a seleção deste ano foi irregular e fraca. Talvez por ter sido curada quase que totalmente por um grupo de artistas e, por isso, não ter contado com certo 'distanciamento crítico' na escolha de trabalhos, talvez pelas limitações mesmas das obras, talvez pela escassa diversidade, certamente por tudo isso junto, o fato é que a Bienal não trouxe produções surpreendentes, que suscitassem enigmas ou se destacassem pela plasticidade (com a mostra Desenho das Ideias, no Margs, aparecendo como excessão). Nos armazéns do Cais do Porto, costumeiramente o centro das edições do evento, havia muitos equívocos e pouca coisa deveras intrigante. A areia que ocupava todo o armazém A3 competia com as obras 'de fato'; a "Experiência de Cinema", de Rosângela Rennó, aparentemente interessante, não estava funcionando quando estive lá; o vídeo da argentina Ana Gallardo, com a cantora à frente de uma partitura denunciando a exploração sexual de crianças, não tinha sutileza (e a música era brega); e o módulo lunar de PVC, de Paulo Nenflídio, cá entre nós, não dava para levar a sério. A videoinstalação "Variações sobre o Santo Job", do colombiano José A. Restrepo, foi uma das obras mais faladas, mas o "labirinto de vidro" do também colombiano Gabriel Sierra e a estrutura fóssil do inglês Ryan Gander foram as que mais me provocaram prazer intelectual e estético:



Sob o título "Grito e Escuta", a Bienal preten
dia gerar discussão acerca do 'papel social' do artista, mas não conseguiu. Esta edição serviu mais como gancho para o debate sobre arte contemporânea que se tem travado na imprensa porto-alegrense, desencadeado por um artigo (de tom deselegante, aliás) do historiador Voltaire Shilling, publicado na ZH, chamando de "abominações" os trabalhos que artistas contemporâneos fizeram para a cidade ou cederam a ela depois de participarem de bienais passadas (a "Super Cuia", por exemplo). A discussão, como geralmente ocorre nesse cordial Brasil, ficou no Gre-Nal: de um lado, os defensores xiitas dos "pós-modernos", e de outro, os fundamentalistas das belas artes. Poucas foram as vozes céticas e ponderadas que se manifestaram para dizer o óbvio: arte contemporânea não é, em si, boa ou ruim, feia ou bonita. O que há são trabalhos com mais ou menos valor estético. É claro que existe muita empulhação em arte contemporânea, só que não se pode, preconceituosamente, ignorá-la por completo, descartá-la de modo cabal como fonte de investigações e de interpretações sobre as sociedades e sobre nós, complicados humanos. Ao contrário do que reza o senso comum, gosto se discute, sim, mas com discernimento e elegância, por favor. Que os debates se aprimorem e se aprofundem - e aconteçam sempre. Se é para destacar um 'ensinamento' dessa Bienal, é este aí de baixo, do trabalho "Surplus Reality", feito pelo mexicano Pedro Reyes. Ainda pouco sutil, mas um bom recado.


(Texto e fotos: Lucas Colombo)

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Beaux Arts

Está terminando a exposição “Arte na França 1860-1960: O Realismo”, inaugurada mês passado no Margs, em Porto Alegre, como parte da programação referente ao Ano da França no Brasil. “Realismo” é um conceito controverso – qualquer um que tenha discutido o assunto minimamente em algum momento de sua vida entende que é impossível a um artista “retratar a realidade exterior tal como ela é”, ser “objetivo”, e a mostra não tocou nessa questão. A oportunidade, contudo, foi rara. Afinal, não é todo dia que se pode ver assim, a 70cm de distância, o “gênio das cores” Henri Matisse (“O Busto de Gesso”, 1919), uma das paisagens suaves de Claude Monet (“A Canoa sobre o Epta”, 1890), as formas simples e cores contrastantes de Paul Gauguin (“Pobre Pescador”, 1896), os ‘rabiscos’ que misturam fantasia e realidade de Joan Miró (“Figura com Vela”, 1925) e as figuras longilíneas de olhos vazios de Amedeo Modigliani (“Retrato de Leopold Zborowski”, 1916-19), além de Balthus, Manet, Picasso, Cézanne e outros tantos. Com 140 peças ao todo, a exposição, como pode-se ver pelos nomes que citei, não abarcava apenas pintores nascidos na França, mas também aqueles que tiveram, de algum modo, uma relação com o país – os brasileiros Tarsila do Amaral, Anita Malfatti e Iberê Camargo, presentes com retratos e autorretratos, por exemplo, estudaram lá. E o título também não dizia tudo. O “realismo” francês era apenas o ponto de partida, o mote, já que, como igualmente se pode notar pelas obras mencionadas, havia trabalhos vinculados ao surrealismo, ao impressionismo, ao expressionismo e até à Pop Art, movimentos devedores daquele da segunda metade do século 19. O segundo andar, inclusive, estava todo reservado a contemporâneos, à arte recente voltada ao realismo (gostei das telas do marroquino Henri Barande, pela economia e pela sutileza que faltou às outras da seção, “fotográficas demais). A disposição dos óleos mais célebres, no térreo, sugeria, em certos momentos, pontos de contato, diálogos entre autores brasileiros e franceses ou radicados na França. Era o caso de “Jovem de Cabelos Compridos” (1942), de Lasar Segall (que estudou em Paris), colocada ao lado do pequeno – em tamanho – “Cabeça de Mulher” (1909), de Picasso; e de Paulo Rossi Osir ao lado de Modigliani. “Arte na França” exibiu, além disso, telas que fugiam da noção usual que se tem de determinados artistas. Como de Cândido Portinari, cujo “Retrato de Inah Prudente de Moraes” (1936) destoa, pelos tons mais escuros, da ‘solaridade’ que comumente se associa à sua pintura, a exemplo de “Menino do Papagaio” (1954), também presente no Museu, e outras de sua fase “social” (que, concordo com o Daniel Piza, faz concessões emotivas). Ainda, o “Auto-Retrato” de Tarsila do Amaral revelava ao público que a criadora do “Abaporu” também desenhava formas mais convencionais. Ponto para o curador, Eric Corne, francês.

Fui à exposição num dia de semana, final de tarde, e é claro que os conhecidos “As Meninas Cahen d’Anvers”, ou “Rosa e Azul” (1881), de Renoir, e “A Arlesiana”, de van Gogh, concentravam as maiores atenções dos visitantes. Conforme dados da organização, mais de cem mil pessoas circularam pelo palacete da Praça da Alfândega só nas primeiras quatro semanas. O “ingresso solidário” (um agasalho ou 1kg de alimento não-perecível) pode ter estimulado o comparecimento. Mas essa é uma mensagem positiva. O público, em geral, parecia interessado – um sujeito, aliás, vendo-me consultar as anotações que eu previamente fizera para ir à mostra, chegou a pedir-me informações sobre a “arte viva” do grande Gustave Courbet, nome-símbolo do realismo, para entender melhor os dois soturnos e perfeitos retratos à sua frente... A deselegância de alguns, porém, como sempre, não ficou do lado de fora do Margs, juntamente com nossas pastas e bolsas: vi gente desrespeitando a faixa amarela e atendendo ao celular, mesmo depois de todos os avisos na recepção. A organização, também, poderia tomar mais cuidado com a iluminação, pois alguns quadros refletiam a luz e atrapalhavam a visualização do público: não consegui achar um ‘ângulo’ para ver o “Retrato de Marcelim Desboutin”, de Manet, sem que a luz incidisse bem no rosto da figura... Pequenos ajustes técnicos teriam deixado a mostra com mais qualidade ainda. Mas valeu.

(Lucas Colombo)

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Mostra "Variantes", de Herbert Bender



Seção "MM Recomenda": Herbert Schein Bender, artista plástico há mais de 20 anos e ilustrador de várias de minhas colunas, inaugurou ontem a exposição "Variantes", na Câmara de Vereadores de Taquara (Av. Júlio de Castilhos, 2191), cidade da região metropolitana de Porto Alegre, onde vive. Pinturas sobre tela, desenhos e objetos pictóricos (que utilizam papelão corrugado reciclado ou madeira como suporte, podendo ser acrescidos de diversos tipos de materiais) produzidos entre 1986 e 2004 compõem a mostra, aberta até o dia 26 de junho, com entrada franca. O horário de visitação é, de segundas a quintas, das 7h30min às 11h30min e das 13h30min às 18h, e às sextas, das 8h às 14h. "Variantes" é uma promoção da Academia Lítero-Cultural Taquarense, com apoio da Faccat, da Câmara de Vereadores e da videolocadora Daskino.

Algumas ilustrações de Herbert para colunas minhas aqui, aqui e aqui. Trabalho de primeira.

(Lucas Colombo)

terça-feira, 1 de julho de 2008

Impávidos que nem Muhammad Ali


Foto: Agência Bossa/Santander Cultural


Soube hoje que o artista urbano Nunca, um dos nomes presentes na mostra TRANSFER, em cartaz no Santander Cultural (Porto Alegre), finalizou um painel (foto) que estava confeccionando no próprio espaço da mostra, para o público acompanhar. Em uma parede de 15x8 metros, ele fez uma pintura que remete à já famosa foto de uma tribo indígena isolada no Acre, divulgada pela FUNAI em maio e bastante comentada na imprensa brasileira e também na internacional. A imagem que inspirou Nunca mostrava índios pintados para a guerra, atirando flechas contra o avião da FUNAI, em plena Floresta Amazônica. A fundação afirmou se tratar de uma tribo totalmente desconhecida e sem nenhum contato com o homem civilizado.

Pois bem. A tal foto gerou polêmica. O jornal inglês The Guardian e o espanhol El País publicaram matérias, semana passada, dando conta de que a imagem seria uma fraude. O próprio sertanista que tirou a foto, José Carlos Meirelles, teria confessado para um correspondente estrangeiro no Brasil que a tribo era conhecida desde 1910. Conforme o Guardian e o El País, a área onde a tribo se encontrava também seria conhecida pela FUNAI há quase 20 anos. E, segundo um site da Holanda, um antropólogo de lá, ao analisar a foto, concluiu que ela era resultado de uma 'encenação' para a câmera (a impressão - impressão, repito - ao olhar a foto é essa, mesmo). Tudo teria sido armado por Meirelles e pela organização de defesa dos índios Survival International para chamar a atenção sobre a exploração ilegal de madeira naquela região do Brasil.

Ontem, porém, o sertanista divulgou uma nota em que afirma ter havido equívocos no tratamento que a imprensa estrangeira dispensou ao caso. Disse que, realmente, a existência daquela tribo é conhecida há muito tempo, mas que, dessa informação, o The Guardian tirou a conclusão precipitada de que a foto havia sido uma fraude. Meirelles sustentou que divulgou a imagem apenas para mostrar que a tribo existe, e não para anunciar a 'descoberta' dela. A imprensa européia teria 'embarcado' na matéria do Guardian, fazendo um estardalhaço que, segundo Meirelles, só contribuiu para que os madeireiros continuem motivados a explorar as terras dos índios. E aí, quem está certo nessa história?

A polêmica foi assunto no Estadão e no Manhattan Connection do último domingo. Enquanto as coisas não se esclarecem, fiquemos com o interessante painel de Nunca no Santander. Na realização deste parece que não houve nenhuma farsa.

(Lucas Colombo)

terça-feira, 20 de maio de 2008

Abaporu, 80 anos


Interessante este depoimento de Tarsila do Amaral sobre a relação entre o Abaporu (1928) e a origem do movimento antropofágico nas artes brasileiras, que retirei de uma entrevista que a pintora deu para a Veja, em 1972:
(Lucas Colombo)



“Eu quis fazer um quadro que assustasse o Oswald, sabe? Que fosse uma coisa mesmo fora do comum. Aí é que vamos chegar no “Aba-Puru”. Eu mesma não sabia por que eu queria fazer aquilo... depois é que eu descobri. O “Aba-Puru” era aquela figura monstruosa que o senhor conhece, não é? A cabecinha, o bracinho fino apoiado no cotovelo, aquelas pernas compridas, enormes, e junto tinha um cacto que dava a impressão de um sol como se fosse também uma flor e ao mesmo tempo um sol e então quando viu o quadro o Oswald ficou assustadíssimo e perguntou: “Mas o que é isso? Que coisa extraordinária!”. Aí imediatamente telefonou para o Raul Bopp, que estava aqui, e disse: “Venha imediatamente aqui que é pra você ver uma coisa!”. Aí o Bopp foi lá no meu atelier, ali na rua Barão de Piracicaba, um solar muito bonito que meu pai tinha comprado recentemente, o Bopp assustou-se também e o Oswald disse: “Isso é como uma coisa como se fosse um selvagem, uma coisa do mato”, e o Bopp foi da mesma opinião. Aí eu quis dar um nome selvagem também ao quadro, porque eu tinha um dicionário de Montoia, um padre jesuíta que dava tudo. Para dizer homem, por exemplo, na língua dos índios era Abá. Eu queria dizer homem antropófago, folheei o dicionário todo e não encontrei, só nas últimas páginas tinha uma porção de nomes e vi Puru e quando eu li dizia “homem que come carne humana”, então achei, ah, como vai ficar bem, Aba-Puru. E ficou com esse nome. (...) O Raul Bopp achou que devíamos fazer um movimento em torno desse quadro, achou esquisitíssimo, ele gostou muito e depois escreveu um livro interessantíssimo sobre o linguajar indígena do Amazonas. Todos começaram a dizer que o Oswald é que tinha feito o “Aba-Puru” e criado o movimento antropofágico. Ele aceitou que dissessem que era de autoria dele, achou interessante.”

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Impressões bienais


A 6ª Bienal do Mercosul marcou o calendário artístico-cultural de 2007 em Porto Alegre. Durou de 1º de setembro a 18 de novembro. Ficaram as fotos.

Esses são alguns registros do evento que atualizou o público porto-alegrense com a arte contemporânea. Relembre.


Instalação “O ar mais próximo”, do carioca Waltércio Caldas. Oito fios de lã coloridos, dependurados desde o teto, alterando a percepção que se tinha da sala branca. Uma “intervenção mínima, mas não indiferente, no ambiente”, segundo o próprio Waltércio.


“Cubo de nylon”: instalação do venezuelano Jesús Rafael Soto (1923 - 2005), com fios esticados, compondo um retângulo.


Detalhe da pintura “Una vez, cada vez, todas las veces II”, da chilena Magdalena Atria, feita com massinha de modelar. A artista cobriu a parede branca com grandes manchas coloridas, gerando um efeito quase psicodélico.


Detalhe de “Oh, aqueles espelhos com memória”, série do norte-americano Dario Robleto. Vários textos impressos na parede perguntavam: a descrição de uma ação ou de um objeto é suficiente para torná-lo uma obra de arte?


Uma das obras mais celebradas da Bienal: “Marulho”, do carioca Cildo Meireles (desculpe, Paulo Francis...). A instalação simulava um mar (ou um rio? ou um lago?) com fotografias de revistas. As revistas eram como pinceladas, e o vinco entre as páginas sugeria a ondulação.


Mickey, Minnie e, sobre todos, onipotente, o Superman: detalhe da instalação “A lot(e)”, do paulista Nelson Leirner, em que ele ironiza o ‘poder’ da cultura popular dos EUA.


Exposição monográfica do argentino Jorge Macchi, no Santander Cultural: a instalação “Fontana” trazia bacias coloridas, suspensas umas sobre as outras, com apenas um foco de luz descendo desde o teto. Assim, somente a borda da bacia de baixo aparecia. A impressão era de que aros coloridos flutuavam no breu.


Bastante enxuta, a Bienal de 2007 foi, talvez por isso mesmo, uma das mais densas e interessantes. Menos obras = menos espetáculo = mais reflexão. Que venha a 7ª edição. Já estou esperando.

(Texto e fotos: Lucas Colombo)