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terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Editor's choice


Em ordem cronológica, o que de melhor o MM publicou nos últimos 12 meses, na visão deste editor. Para (re)ler nas férias.

- "Que crítica?!...", by Carlos Fernando e Frederico Barbosa
- "O cinema e a guerra", by Muriel Paraboni
- "Operação Questionar", by Lucas Colombo
- "TV Excelência" (Mad Men), by Lucas Colombo
- "Las ventanas", by Emerson Machado
- "Ativismo é a segunda pauta", by Lucas Barroso
- "A linguagem do rio", by Muriel Paraboni
- "A essência da arte", by Lucas Barroso
- "Contra os clichês" (entrevista com Cíntia Moscovich), by Lucas Colombo
- "Não há rei no Brasil" (Chatô), by Rafael Fais
- "Longo tempo de Quaresma", by Lucas Colombo

(Lucas Colombo)

quarta-feira, 26 de agosto de 2015

MM no MC


(Foto do Marcos Alexandre, da Fan Page do programa)

A indicação, por Caio Blinder, de “Os Melhores Textos do Mínimo Múltiplo”, no “Manhattan Connection” de 28/06, foi um orgulho, é claro, deste site e meu, seu editor e também o organizador do livro. Desnecessário contar, aqui, como iniciou minha admiração pelo programa – o texto de abertura da entrevista com o Caio dá conta disso. Conforme digo ali, assisto ao “Manhattan” desde os tempos de GNT, em que a (até meio saudosa) vinheta de abertura era aquela da música de “letra” indecifrável. A entrevista de 2009 foi a “oficialização” dessa relação, e a aparição do livro nas mãos de Caio, na bancada, seu ápice...

O programa, de lá para cá, nunca deixou de aparecer nos textos do
MM. Citei o Lucas Mendes aqui (2010), contestei os “críticos” do programa aqui (2014), para dar só dois exemplos. Mas não sou o único a tê-lo como referência: outros colunistas e colaboradores do site, igualmente. A esses colaboradores que respondo, quando perguntam sobre quão “acessíveis” são Caio e Lucas, que as trocas de e-mails com eles são sempre muito amigáveis. Ambos já avaliaram bem o MM, e, por isso, incluí seus nomes entre os dos grandes profissionais que nos incentivaram nesses sete anos, em meu texto de Apresentação, no livro.

O “Manhattan” é, ainda, o único programa que paro para assistir na TV (séries e outros conteúdos, geralmente vejo no computador). É verdade que ele, aos poucos, mudou. Lúcia Guimarães, integrante da mesa entre 2002 e 2008, trazia mais matérias sobre jazz e artes visuais; Pedro Andrade, seu sucessor, aborda mais cinema e cultura pop. As pautas sobre política e economia eram menos numerosas, o que permitia a Caio, Ricardo Amorim e Diogo Mainardi se “enfrentarem” mais longamente nos debates. Diogo, afora isso, era mais disposto às suas provocações e ironias; ainda não tinha o “cansaço” que ele, em 2013, nos 20 anos do programa, usou como explicação para sua acidez hoje menor. Mas eles têm-se aberto mais a entrevistas ultimamente (tanto que uma das edições que mais repercutiram, mesmo que por ação dos detratores, foi a da conversa com a dona daquela rede de lojas, ano passado), e mantêm a conjugação de alto nível intelectual com informalidade – o programa é “desabotoado”, falava
Francis –, além do esmero na seleção de temas. Não são muitos os programas em que se discute “Ulysses”, como discutiram há não muito tempo. Em que se comenta a poesia de Dylan Thomas, como no mesmo programa do dia 28. Em que se fala dos fatos políticos e econômicos com... qual é mesmo aquela palavra? Densidade. Em que se abordam efemérides históricas com... qual é aquela outra? Conhecimento. O “Manhattan” é, há 22 anos, a ilha de sofisticação, humor inteligente e jornalismo culto em meio ao oceano de mediocridade da TV brasileira. Foi um prazer e uma honra ver nele a indicação da nossa coletânea, reconhecimento que se soma aos feitos por Correio do Povo e Continente Multicultural, entre outros. A audiência deste “fanático seguidor” do programa continua garantida.

(Lucas Colombo)

terça-feira, 30 de junho de 2015

No Manhattan Connection



Depois de aparecer, na semana passada, na redação de Nova York da GloboNews, nossa coletânea "Os Melhores Textos do Mínimo Múltiplo" foi indicada por Caio Blinder, no Manhattan Connection do último domingo, 28/06.

Aqui, MM também na TVE, na Continente e no Correio do Povo, entre outros.

(Lucas Colombo)

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Na tela da GloboNews


(Nosso colaborador Jeison Karnal fez o registro)

"Os Melhores Textos do Mínimo Múltiplo" apareceu na estante ao lado do jornalista Jorge Pontual, correspondente da GloboNews em Nova York, na edição de ontem do programa GloboNews em Pauta.

(Lucas Colombo)

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Insensata comparação




Ouço gente dizendo que assistir às séries americanas de TV é o mesmo que ser "noveleiro".

É uma simplificação, claro.

Quem acompanha as atuais séries americanas não toma contato com a mesma estética e o mesmo conteúdo de quem acompanha novelas. Toma contato com obras criativas muito mais satisfatórias.

A qualidade nem se compara. Todas as de que já vi episódios - Mad Men (promo acima), House, Law & Order SVU, The Tudors, Brothers & Sisters (a primeira temporada), Damages e outras já encerradas, como Sopranos e Seinfeld - apresentam grande cuidado na produção, com cenários e figurinos minuciosamente compostos. Por serem semanais e não diárias, são feitas com calma, o que se reflete, por exemplo, na fotografia, bem planejada, e não 'padronizada' como a que vemos por aqui. As cenas são mais longas; não há mudança frenética de planos, nem abuso de closes. Os enredos não duram meses. Há subentendidos, elipses e outras sutilezas narrativas que respeitam a inteligência do espectador. Há ritmo. Os diálogos são eficientes, sem chavões - quando há algum, é justamente para questioná-lo - e cheios de referências à arte e a questões políticas.
Os personagens não se dividem entre 'mocinhos' e 'vilões'; todos são ambíguos. Os atores são de verdade, não ex-modelos ou participantes de reality shows, e suas atuações são homogêneas.

Não tenho informação de haver um personagem tão fascinante como House na TV brasileira. Nem histórias intrincadas feito as de Law & Order. Nem textos que não abrem concessões ao politicamente correto como o de Mad Men, uma das melhores produções televisivas a que já assisti, cujos personagens, na Manhattan do início dos anos 1960, fumam, bebem e fazem piadas sexistas o tempo todo. Nem, salvo raríssimas exceções, atores com os recursos dramáticos de Glenn Close, Sally Field, Hugh Laurie, Jon Hamm, Mariska Hargitay, Edie Falco.

Se for para comparar os dois produtos, que seja para constatar a superioridade do lá do hemisfério norte, inclusive no trato com o público, nunca percebido como consumidor de um entretenimento banal e esquemático - como "noveleiro". Vinho não é suco de uva. Bom programa a todos.


(Lucas Colombo)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Rapidinhas


- FHC publica artigo sobre governo Lula intitulado "Para onde vamos?". Nada mais sintomático da desqualificação do PSDB como partido de oposição (ou que se diz de oposição): eles não sabem que projeto alternativo ao de Lula (que também não tem projeto) oferecer ao povo. E é assim, sem saber aonde vai, que o Brasil vai. Ou se esvai.


- "Caminho das Índias" recebe prêmio Emmy Internacional de melhor telenovela de 2009. Se essa foi eleita a "melhor", imaginem como devem ser ruins as outras.

- Governador José Roberto Arruda, do Distrito Federal (a terra dos panetones), é gravado recebendo dinheiro de suposto esquema de propina. Nas imagens, que falam por si, diz despudoradamente "Ah, ótimo!" no momento em que seu ex-secretário, Durval Barbosa, lhe passa um maço de notas. E pensar que ele foi eleito para o governo do DF depois de ter violado o painel de votações do Senado, em 2001... O brasileiro não desiste nunca, mesmo.

(Lucas Colombo)

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Porque é um clássico




"
Believe it or not, I'm not hoooooome!"


(Lucas Colombo)

segunda-feira, 16 de março de 2009

Reunião mendigada em "Manhattan"


"Os baseados da Conexão em Pó começam falando da reunião que Lula mendigou com Obama. Foi bom para os dois: o álcool não vai encher o tanque dos carros americanos (pois sabemos que vai encher outra coisa) mas os companheiros finalmente se encontraram e as relações estão engrenadas. Lula não sabe quem foi Greta Garbo e nunca viu Casablanca, mas bateu a Rainha Cristina e começou uma grande amizade com o presidente americano. Parece que a conversa sobre o pepinaço valeu o investimento - afinal a Venezuela está ocupada e o Brasil é a ponte para a américa latina."

- trecho do post do colega Marcos Alexandre sobre a edição de ontem do Manhattan Connection, no blog do fã-clube do programa, que linca para a entrevista com o Caio.

(Lucas Colombo)

quarta-feira, 4 de março de 2009

F5


É um prazer estar de volta, senhoras e senhores, e vamos logo atualizar a vida aqui no blog:




- Um colega leitor perguntou qual era, e
nfim, minha avaliação do filme "Ensaio sobre a Cegueira", já que, na minha retrospectiva de 2008, apenas mencionei a recepção morna que o longa de Fernando Meirelles obteve da crítica. Digo, então, com todas as letras, que não gostei. Tudo bem que minhas restrições são mais à obra de José Saramago do que ao filme em si. Definitivamente não gosto do discurso político ultrapassado do português (Saramago é daquelas pessoas que se referem à "burguesia" e à "elite" como se fossem responsáveis por todos os males da humanidade) e acho que, mesmo escrevendo bem, ele chama mais atenção por suas opiniões do que por seus livros. Mas "Cegueira" deixa a desejar em muitos aspectos, principalmente no que tange à verossimilhança. "Mas a história é uma metáfora, uma alegoria!", diz a maioria dos espectadores do filme e leitores do romance. Exatamente, meus caros. Mesmo quando se fantasia, deve-se partir da realidade. O fato de "Cegueira" ser uma alegoria não o exime da necessidade de ter um pé no real. E isso é o que não vemos em muitos momentos do longa. Não convence, por exemplo, que a personagem da ótima Julianne Moore (foto), a única que não perdeu a visão, não se valha, naquela situação crítica, de seu privilegiado estado para sorrateiramente pegar algumas caixas de comida retidas pelo personagem de Gael García Bernal - e pior!, não tirar dele o revólver, instrumento com que ele ameaça os outros e impõe sua 'autoridade'. A história também é maniqueísta (a turma do oftalmologista e sua mulher é do bem, a do homem com o revólver é do mal, e pronto), e seu final é de um romantismo dispensável (o japonês volta a enxergar ao começar a viver em grupo, compartilhando as coisas, carinhosamente...). A fotografia esbranquiçada, a interpretação de Julianne e o humor ácido que advém da cena em que Gael, cego, faz cover de Stevie Wonder são os pontos positivos. Mas a inverossimilhança, o maniqueísmo e a ideologia não salvam a história.

- E outro amigo me perguntou o que achei da minissérie "Maysa", exibida pela Globo em janeiro. Bom, só assisti a dois episódios (e folheando uma revista), mas posso afirmar que, do pouco que vi, não gostei. O tom era melodramático, a atriz Larissa Maciel sofria mais do que sua personagem exigia e foram tomadas muitas liberdades em relação à história da cantora. Vários críticos apontaram isso mesmo: que o autor da série criou situaçõ
es que não constam nas biografias existentes sobre Maysa. Em casos como esse, de cinebiografias (ou telebiografias, enfim), mesmo que muitas vezes seja necessário inserir diálogos e cenas ficcionais para "amarrar" o roteiro, deve-se ter cuidado, sob pena de perda da credibilidade do produto apresentado. No mais, o foco foi muito a vida particular de Maysa e não tanto seu papel na música brasileira, que não é fundamental, mas também não é dispensável. Ela era uma cantora de boleros e sambas-canções que se aventurou pela bossa nova, fazendo uma espécie de 'ponte' entre esses gêneros. Sempre preferiu, porém, a dor-de-cotovelo ao cantinho e violão. Que alguns críticos a chamem de "bossanovista" é piada das mais engraçadas.

- Também fruí pouca coisa, infelizmente, de John Updike, o escritor americano morto dia 27/01. Apenas um ou outro conto. Mas, neste caso, do pouco que li, gostei. Updike ambientava suas histórias nos subúrbios de cidades dos EUA, procurando analisar como as mudanças po
líticas e culturais do país se refletiam sobre o americano médio. Versátil, escreveu romances, contos e poemas e fazia críticas literárias para a New Yorker. Ganhou dois prêmios Pulitzer, por, respectivamente, "Coelho Cresce" e "Coelho Cai", da sua tetralogia do coelho - completada por "Coelho em Crise" e "Coelho se Cala". Sua obra talvez não tenha a altura da de seu contemporâneo Philip Roth, mas Updike era um escritor inteligente e apaixonado (publicou mais de 50 livros). E pessoalmente, dizem testemunhas, era um homem muito educado e elegante.


(Foto: Reuters/The Economist)

- Falando em escritores - mas, dessa vez, d
e um ruim: a eleição do grande acadêmico (Machado, fundador da ABL, deve estar se revirando no túmulo) José Sarney para a presidência do Senado, com apoio de Lula, bem que poderia ter aquela musiquinha do comercial do finado banco Bamerindus (lembram?), adaptada ao momento, como trilha sonora: "o tempo passa, o tempo voa, e os políticos brasileiros continuam numa boaaaa...". Que um dinossauro político como Sarney (a The Economist, em artigo, chamou-o assim) assuma o comando do Congresso falando em 'renovação' é risível, ainda mais sendo ele de um partido fisiológico como o PMDB e tendo os insuspeitáveis Renan Calheiros e Gim Argello como cabos eleitorais. Sarney e sua agremiação fazem o que sempre fizeram: ficar do lado de quem está no governo, seguir a maré, conscientes de que isso renderá poder e verbas para seus currais eleitorais. Foi assim na presidência do próprio senador maranhense, e na de Collor, na de Itamar, na de FHC e na de Lula. Maior partido nacional, o PMDB é, como declarou o senador Jarbas Vasconcelos na entrevista à Veja, amorfo. Um balaio de gatos, um exemplo vivo de como é ruim o sistema político brasileiro. E o fato de Sarney ser vinculado ao Maranhão e ter mandato de senador pelo Amapá só aumenta a esquizofrenia. Ah!, ele já disse que apoiará Dilma Rousseff em 2010, claro. Lula agradece.

- Em tempos de inútil reforma ortográfica, fico com o escritor Milton Hatoum e não abro: no Brasil, precisamos de "idéias" com acento agudo.


(Lucas Colombo)

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Olhares de "Capitu"



A série "Capitu", adaptação de Luis Fernando Carvalho para "Dom Casmurro", de Machado de Assis, foi muito bela - belíssima, como diria o
agregado José Dias, aquele personagem que adora superlativos. Quando eu soube que Carvalho seria o diretor, imaginei algo na linha de "Os Maias", sua memorável adaptação do romance de Eça de Queiróz exibida pela Globo em 2001 (fracasso de audiência, mas um marco na TV brasileira pelo requinte na produção). Ao ver, porém, as chamadas da estréia, percebi então que seria um trabalho mais no estilo que o diretor assumiu a partir de "Hoje é Dia de Maria": algo mais over, mais para "o teatral e o barroco", como comentou no seu blog o Daniel Piza, colaborador do roteiro. "Capitu" foi, sim, puxada para o caricatural, mas em nenhum momento desrespeitou o romance.

Diogo Mainardi não deixa de ter razão ao considerar, em sua coluna dessa semana na Veja, que Carvalho transformou "Dom Casmurro" em "circo", que tornou espalhafatosa a história contada de forma "seca e desencantada" pelo narrador-personagem Bentinho. Outros críticos também foram nessa direção, ressaltando que faltou a "Capitu" as sutilezas do romance. OK, eu também não gosto de exagero e acho que poderia ter havido "mais Machado" na série, mais concisão, mais sutileza. Mas atenção, pessoal: tratava-se de uma ADAPTAÇÃO! Não era uma simples 'transposição' do livro para a tela. A visão do diretor, é claro, está sempre envolvida nesses casos. O próprio Daniel Piza disse que, se fosse ele o autor da adaptação, teria feito diferente, menos caricato, menos barroco. Também salientou, contudo, que a inventividade, a beleza e os bons atores da série eram pontos altamente elogiáveis. E, de fato, foram. Luis Fernando Carvalho é mesmo daquele jeito, e isso não tira o mérito da produção. O visual, com aquela iluminação e aquela direção de arte, foi deslumbrante. A primeira vez em que Capitu aparece, no início do primeiro episódio, dançando e riscando o chão com giz, foi uma das cenas mais bonitas que já vi (a música da banda Beirut colaborou). O primeiro episódio, aliás, começou um tanto confuso, com uma montagem muito acelerada, mas depois o ritmo diminuiu um pouco e a série encontrou o rumo. Os atores, realmente, também estavam bem. As atuações de Michel Melamed e Letícia Persiles foram, com razão, bastante destacadas pela crítica, mas ouvi quase ninguém mencionar (só o Luis Carlos Merten, que eu lembre) o talento do garoto que interpretou o Bentinho jovem, César Cardadeiro. Que expressão facial ele tem! Isso tudo sem falar que "Capitu" não pretendeu, em nenhum momento, apresentar como certo o que no livro é só imprecisão: se Capitu traiu ou não o marido com Escobar; se Bentinho sentia atração sexual pelo amigo (hipótese bem-humoradamente levantada por Millôr Fernandes); se tudo não passa de imaginação do enciumado narrador. Luis Fernando Carvalho respeitou as ambigüidades do texto de Machado.

"Capitu" foi, enfim, com o perdão do clichê, um oásis em meio ao deserto que é a TV brasileira. E o prazer de abrir o livro para 'reler' as cenas que se tinha acabado de ver na tela, coisa que fiz, não tem preço. Quer algo melhor do que assistir à cena do primeiro beijo de Bentinho e Capitu, consumado após ele pentear os cabelos dela, e depois voltar ao livro de Machado para conferir suas palavras? "Mas, enfim, os cabelos iam acabando, por mais que eu os quisesse intermináveis. Não pedi ao céu que eles fossem tão longos como os da Aurora, porque não conhecia ainda esta divindade que os velhos poetas me apresentaram depois; mas desejei penteá-los por todos os séculos dos séculos, tecer duas tranças que pudessem envolver o infinito por um número inominável de vezes. Se isto vos parecer enfático, desgraçado leitor, é que nunca penteastes uma pequena, nunca pusestes as mãos adolescentes na jovem cabeça de uma ninfa"... Salve, Machado!


(Lucas Colombo)

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

No ar, Machado - II



O segundo e último especial que a GloboNews produziu sobre Machado de Assis, exibido ontem, manteve a qualidade do primeiro. O tema foi a obra do mestre, um homem que nunca saiu do Rio de Janeiro e, mesmo assim, foi o mais internacional dos escritores brasileiros do século 19, como bem frisou o apresentador Claufe Rodrigues. Vários aspectos da literatura machadiana foram comentados pelos entrevistados - o jornalista Daniel Piza e os acadêmicos Sérgio Paulo Rouanet e Antonio Carlos Secchin. Rouanet falou da influência de Shoppenhauer na obra de Machado (o pessimismo do filósofo alemão contribuiu para o ceticismo e a ironia do escritor carioca) e dos trabalhos em poesia do autor, que tinham caráter filosófico, especulativo - e são menos importantes que os trabalhos em prosa. Machado tinha 33 anos quando publicou seu primeiro romance, "Ressurreição", que trazia características românticas. Ele, no entanto, não apreciava o ideário do Romantismo, os personagens idealizados, a valorização do local, do nacional. Mesmo em seus romances "românticos" ("Helena", "A mão e a luva", "Iaiá Garcia" e o supracitado) já mostrava um certo distanciamento do estilo. Em 1880, então, durante uma temporada em Friburgo, ao lado de Carolina, para se recuperar de uma das várias doenças que teve, Machado elaborou os primeiros capítulos do romance que seria publicado no ano seguinte sob o título "Memórias Póstumas de Brás Cubas". E foi a revolução que foi. O humor, a verve crítica e a liberdade formal do texto eram inéditos na literatura que se produzia no Brasil, naquela época. Sobre "Dom Casmurro" e seu mistério infinito, Piza disse tratar-se de uma obra com "virtuosismo de sugestões", na qual o que se sabe é o olhar de Bentinho sobre os fatos, o que ele pensa ter acontecido entre Capitu e Escobar. O que não se sabe é o que não é narrado por ele. E essa é a grande questão.

"Machado de Assis: o bruxo das palavras" também citou a polêmica que Machado travou com o português Eça de Queiróz e as críticas que ele recebia de Sílvio Romero, seu "inimigo declarado". O sergipano Romero não gostava de Machado por considerá-lo "pouco nacional", pouco brasileiro, um autor que emulava o jeito de os autores ingleses escreverem (Machado é celebrado até hoje - e Romero, é lembrado por quem?). O programa tratou, ainda, da fundação da Academia Brasileira de Letras, da qual Machado foi o primeiro presidente, escolhido por unanimidade. Sim, ele foi consagrado em vida. Coisa para poucos.

A última pergunta do apresentador aos entrevistados foi: por que ler Machado? "Porque ele é bom", disse Rouanet, simplesmente.

É mais do que bom. É Machado. Leiamo-lo, então.

(Lucas Colombo)

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

No ar, Machado



Muito bom o primeiro dos dois especiais que a GloboNews preparou sobre Machado de Assis, neste mês em que a morte do nosso autor maior completa cem anos. "Machado de Assis: o bruxo das palavras", transmitido ontem à noite, estava rico visualmente: exibiu imagens da exposição que o Museu da Língua Portuguesa (São Paulo) organizou para o centenário, fac-símiles de cartas enviadas por Machado a amigos e familiares e muitas fotografias do autor, dos seus próximos e do Rio de Janeiro do final do século 19. O conteúdo também estava no ponto, objetivo, reforçando algumas informações já 'batidas' sobre Machado e apresentando outras mais curiosas. Os entrevistados passaram detalhes saborosos sobre a vida do escritor. O jornalista Daniel Piza, biógrafo de Machado, brincou que ele poderia ser considerado um "catálogo de doenças": era epilético, gago, asmático e tinha sérios problemas de visão. Falou também que, em sua juventude, Machado era um sujeito muito afável e espirituoso, que gostava de 'sacanear' os colegas de redação roubando-lhes os chapéus. Na maturidade, porém, ele tendeu mais à melancolia - foi o que comentou o escritor Moacyr Scliar. Machado vivia num estado de espírito que, conforme Scliar, poderia ser hoje descrito como depressivo. O programa também mostrou o caráter autodidata do homenageado, que fazia exercícios de grego e de alemão por conta própria, e salientou que, até hoje, não se sabe quando nem como ele aprendeu a ler e a escrever. Sabe-se, porém, que ele cresceu num ambiente relativamente culto. Seus dois pais eram alfabetizados, o que, para a época, era algo extraordinário, tendo em vista que o analfabetismo no Brasil, na segunda metade do século 19, beirava os 85%. Sobre a 'politização' de Machado, Piza afirmou que o escritor não era exatamente 'politizado' no sentido de expôr seu 'lado' em suas crônicas, de 'subir em palanque' feito seu amigo abolicionista Joaquim Nabuco. Machado preferia as entrelinhas, preferia ser mais sutil. Ele vivenciou fatos históricos muito importantes para o Brasil, como o fim da escravidão e a queda da monarquia, e o especial mostrou uma crônica em que Machado conta ter saído às ruas para comemorar a abolição dos escravos, em 1888 - mas a produção não ressaltou que a proclamação da República, por sua vez, desagradou ao escritor, que era monarquista, como Nabuco. O início da carreira literária do 'bruxo', aos 15 anos, publicando textos nos jornais sob a 'benção' de gente como o escritor Manuel Antônio de Almeida e o editor Paula Brito, também foi abordado, assim como seu casamento com Carolina. Tudo isso entremeado por leituras em off de aforismos e trechos de crônicas do autor. Um prazer de programa.

A segunda parte de "Machado de Assis: o bruxo das palavras", que se concentrará na obra do escritor, irá ao ar no próximo domingo, dia 21. Não percamos.

(Lucas Colombo)