sexta-feira, 8 de abril de 2016
"O eterno petista"
"A Operação Lava Jato e as discussões sobre o impeachment de Dilma revelaram um tipo interessante de brasileiro – o eterno petista.
O eterno petista continua defendendo o PT mesmo depois de todos os seus ideais terem sido traídos pelo partido. Continua petista mesmo depois do PT ter levado a níveis estratosféricos a corrupção que prometia erradicar. Mesmo depois do partido se aliar aos homens que o eterno petista considerava os vilões da política brasileira.
Para justificar a durabilidade da sua crença, o eterno petista é capaz das mais impressionantes acrobacias intelectuais. Foi assim na última década – quando Lula decidiu manter a política econômica de FHC, ou durante o mensalão, na aliança com Fernando Collor e Paulo Maluf, no petrolão, nas trapalhadas econômicas de Dilma, na reforma do sítio e do tríplex, na nomeação de Lula ao cargo de ministro. É interessante imaginar como o eterno petista reagirá se o PT continuar governando o Brasil nas próximas décadas.
Em 2017, a inflação chegará a 32%. O eterno petista dirá, primeiro, que vivemos uma conspiração de estatísticos do IBGE e da FGV contra o governo Dilma. Depois, vai requentar discursos dos anos 80 e culpará os donos de supermercados pelo aumento dos preços.
Em 2018, durante uma conversa com diretores da OAS, Lula dirá “como assim não tem mais doação pra campanha, querido? Quer contrato com a Petrobras ou não? ”. O eterno petista dirá que Lula foi vítima de um grampo ilegal determinado por juízes com motivações golpistas que só investigam o PT. “A luta contra a corrupção foi também o mote usado pelos que apoiaram o golpe em 1964”, afirmará o eterno petista em vídeos e em artigos de jornal.
“Cadê meus milhão?”, dirá Lula numa outra ligação grampeada com autorização judicial. O eterno petista explicará que Lula na verdade se referia a doações de milhos para os voluntários de sua campanha a presidente, e que ele não sabe flexionar o plural porque tem uma origem humilde, e exatamente por isso é preciso votar nele e se revoltar contra blogueiros da elite conservadora que ridicularizam as limitações gramaticais dos brasileiros menos favorecidos.
Em janeiro de 2019, em sua primeira semana de governo, o presidente Lula vai ordenar o BNDES a emprestar 33 trilhões de reais para a Odebrecht, a OAS e a Camargo Correia. O Jornal Nacional revelará que 20% desse valor foram parar na conta de um dos filhos do presidente. O eterno petista absolverá o PT e acusará a “imprensa controlada por cinco famílias que nunca toleraram a ascensão de Lula”."
- Jornalista e escritor Leandro Narloch, com humor irresistível, em sua coluna no site da Veja. Leia o texto inteiro aqui.
(Lucas Colombo)
terça-feira, 16 de fevereiro de 2016
Editor's choice
Em ordem cronológica, o que de melhor o MM publicou nos últimos 12 meses, na visão deste editor. Para (re)ler nas férias.
- "Que crítica?!...", by Carlos Fernando e Frederico Barbosa
- "O cinema e a guerra", by Muriel Paraboni
- "Operação Questionar", by Lucas Colombo
- "TV Excelência" (Mad Men), by Lucas Colombo
- "Las ventanas", by Emerson Machado
- "Ativismo é a segunda pauta", by Lucas Barroso
- "A linguagem do rio", by Muriel Paraboni
- "A essência da arte", by Lucas Barroso
- "Contra os clichês" (entrevista com Cíntia Moscovich), by Lucas Colombo
- "Não há rei no Brasil" (Chatô), by Rafael Fais
- "Longo tempo de Quaresma", by Lucas Colombo
(Lucas Colombo)
segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
Editor's choice
Para este editor, o que de melhor o MM publicou em 2013, em ordem cronológica:
- "Reis magos Blues" (seção Toca-disco), by Moziel T. Monk
- "Nem mesmo o amor", by Muriel Paraboni
- "Chet", by Lucas Colombo
- "Casa" (seção Enquadramentos), by Marcelo Donadussi
- "Personagens brasileiros, 2013", by Lucas Colombo
- "Livros sobre o mensalão" - I, II e III, by Rafael Fais
- "Visões do ano", by Lucas Barroso
- "Jornalismo em 2013", by Rafael Fais
Feliz 2014.
(Lucas Colombo)
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
Editor's choice
O que de melhor o MM publicou em 2012, na visão deste editor. Em ordem cronológica:
- "Estradas e caminhos" (seção Enquadramentos), by Danny Bittencourt
- "Uma lágrima para Daniel Piza", by Lucas Colombo
- "Kubrick", by Leandro Schallenberger
- "Ensaio sobre o Facebook", by Rafael Fais
- "Os desastres da guerra", by Lucas Colombo
- "Lobos e tijolos", by Fabiano Schüler
- Especial "O Mensalão e Nós": "Papo jovem", by Lucas, "O saque", by Rafael, e "Fragmentos de um julgamento", by Leandro
- "2012, o fim do mundo", by Lucas Barroso
- Aqui no blog: série "Quem fez minha cabeça"
Feliz 2013.
(Lucas Colombo)
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
"Short cuts" - Cenas da vida (brasileira)
"I lived in Brazil for fifteen years and have observed that the culture alluded to in this article is rampant throughout all levels of society, rich or poor, not just in Brasília.
The really blatant cases brought to public attention are frowned upon by all, but by-in-large people tolerate it as they too takes 'short cuts' (jeitinho).
Parents grease the way for their kids in to schools and universities (or better grades), traffic offenses can often be 'resolved' on the spot rather than getting a ticket, petty theft in the work place is rife, the bureaucracy is so stifling that 'facilitators' are often the only way to get things done. Red traffic lights are a pretty colour, to be obeyed when one pleases. Just some simple examples. It's everywhere.
How do you change a culture? I don't know, maybe education brings a higher level of personal pride and stops cheating. Maybe better policing will wake people up. But until the overriding culture changes, don't expect miracles in the capital."
- O melhor do artigo da revista The Economist sobre a (suposta) "faxina" de Dilma foi ter provocado este comentário categoria "disse tudo" do(a) leitor(a) Dwrig. Sem mais.
(Lucas Colombo)
terça-feira, 26 de abril de 2011
Entre R$ 116 mil e R$ 131 mil por mês
Altamente recomendável que se leia isto.
Como disse anos atrás (lembram? Espero que sim) o agora ex-deputado Carlos Rodrigues, a vida de um parlamentar brasileiro é mesmo muito dura.
(Lucas Colombo)
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
Poucas e boas pós-eleitorais
Se houve o post abaixo, teria de haver este. Aqui vão (bons) tweets de colunistas e colaboradores do MM sobre o pós-eleição:
- Lucas Colombo (@lucas_colombo)
. Dilma já declarou que prefere o “barulho da imprensa livre ao silêncio das ditaduras”. Façamos barulho, então.
. Aécio Neves diz que, antes de ter candidato à presidência, o PSDB precisa ter um projeto para o país. Será que a ficha enfim caiu?
. Como a Dilma tem aparecido e falado bastante, não?.. Assim sabemos bem sua visão de Brasil e quais seus projetos. Excelente.
- Flávio Aguilar (@flavioaguilar)
. Não comemoro vitória de ninguém. Teremos 4 anos para saber o resultado de nossas escolhas neste ano.
. Quero saber é quando teremos o primeiro presidente rastafári.
- Leandro Narloch (@lnarloch)
. Dilma e Serra passaram o último mês dizendo que o respectivo adversário é incompetente p/ governar o país. Ambos estão certos.
. Em 89, o Nordeste votou em peso no Collor, e a turma disse que era coronelismo. Hoje o Nordeste garante a vitória da Dilma. E aí, é o quê?
. Quais ideias ganharam ontem? A julgar pelo discurso da Dilma (meritocracia, menos tributos, menos controle da mídia), foram as tucanas.
- Leandro Demori (@braziu)
. "Pela primeira vez no Brasil uma mulher assume a Presidência" (copiem, colem na capa dos jornais e vão pra cama). Boa noite.
. Sugestão de polêmica para a semana: "presidente" ou "presidenta"? Quem optar pela primeira é Sexista do Mal.
. Dilma no JN reconhece e sabe que os próximos anos serão piores do que os mais recentes.
- Bruno Galera (@bgalera)
. Gaúchos dementes, parem de reclamar do Tiririca. DANRLEI, PAULO BORGES, JOSÉ OTÁVIO GERMANO, MANO CHANGES.
- Fabiano Schüler (@fschuler)
. E aí? Votaram na abóbora ou no morcego?
. Pessoas que ainda reclamam do resultado das eleições: mostrem que vocês são tão democratas quanto alegam ser e acatem a vontade da maioria.
sexta-feira, 1 de outubro de 2010
Poucas e boas eleitorais
Alguns (bons) tweets de colunistas e colaboradores do MM sobre o processo eleitoral:
- Lucas Colombo (@lucas_colombo)
. Realmente, brasileiro adora aplaudir tudo. #debaterecord
. O horário político do Collor, em Alagoas, diz que ele foi cassado "em razão do preconceito contra nordestinos". Eu mereço.
. Serra está especialista em falar só de SP. Dilma está especialista em ler teleprompter. E o Brasil vai bem.
- Flávio Aguilar (@flavioaguilar)
. ATENÇÃO PARA O PLÍNIO
. Marina acha que está concorrendo à presidência da Dinamarca com esse papo ambiental-cabeça.
- Leandro Demori (@braziu)
. Ficha Limpa é uma lei que procura impedir que você vote em bandido. Você precisa de uma lei pra isso. Reflita (evite).
. Dilma quer que o Brasil se torne "um país de classe média". Mas o grande vilão do Braziu não era a classe média? Naummm tendi.
. Serra cantando, Serra lendo a Bíblia. É um susto atrás do outro, Braziu. #horarioeleitoral
- Moziel T.Monk (@blodega)
. Ontem, ao invés do debate, assisti a "Machete". mentira por mentira...
- Bruno Galera (@bgalera)
. Alguém mais fica tenso com aquele cartaz da Juliana Brizola onde aparece o fantasma do véio? Tá louco.
- Fabiano Schüler (@fschuler)
. Candidato @joseserra, para sua "defesa civil nacional" chegar "rápido" a SC saindo de BSB, só com helicópteros supersônicos. Que não existem.
. "Precisamos gerar emprego. Para isso, precisamos de uma taxa de crescimento elevada", diz a @dilmabr. ORLY?
segunda-feira, 7 de dezembro de 2009
Rapidinhas
- FHC publica artigo sobre governo Lula intitulado "Para onde vamos?". Nada mais sintomático da desqualificação do PSDB como partido de oposição (ou que se diz de oposição): eles não sabem que projeto alternativo ao de Lula (que também não tem projeto) oferecer ao povo. E é assim, sem saber aonde vai, que o Brasil vai. Ou se esvai.
- "Caminho das Índias" recebe prêmio Emmy Internacional de melhor telenovela de 2009. Se essa foi eleita a "melhor", imaginem como devem ser ruins as outras.
- Governador José Roberto Arruda, do Distrito Federal (a terra dos panetones), é gravado recebendo dinheiro de suposto esquema de propina. Nas imagens, que falam por si, diz despudoradamente "Ah, ótimo!" no momento em que seu ex-secretário, Durval Barbosa, lhe passa um maço de notas. E pensar que ele foi eleito para o governo do DF depois de ter violado o painel de votações do Senado, em 2001... O brasileiro não desiste nunca, mesmo.
(Lucas Colombo)
sábado, 14 de novembro de 2009
Mito tem perna (ou saia) curta / Apagão mental
Entre as várias conclusões que podemos extrair do caso da aluna da Uniban, está a de que os mitos acerca do Brasil e do povo brasileiro, como quaisquer mitos, realmente não resistem a fatos. Diante de um severo ato de hostilidade como esse, continuar ufanando-se de que o brasileiro é "um povo pacífico e sem preconceitos" não faria o menor sentido. A não ser para o Brasil oficial, aquele cuja distância do Brasil real pode ser medida pela reação ao blecaute de terça-feira, em que se tentou a todo custo minimizar o episódio e se esquivar de maiores investigações. "Foi um microproblema", nas palavras do ministro Tarso Genro, que parece não ter sido avisado de que 60 milhões de pessoas foram atingidas pela falta de luz, em 18 estados, por longas horas. E é um "Caso encerrado", para o ministro Edison Lobão, que responsabilizou somente a natureza (que raios fortes caíram na região de Itaberá, hein?) e pediu a Deus que dissabores assim não mais aconteçam. Rezemos.
Perdoe-me por colocá-lo em tão má companhia, meu caro Machado, mas você tinha toda a razão quando afirmou que "O Brasil oficial é burlesco e caricato". E obrigado por você e outros escritores como Nelson Rodrigues terem existido, para que possamos, por meio de suas histórias, obter um retrato da hipocrisia, da mesquinhez e das frustrações que a sociedade brasileira esconde sob os clichês da "tranquilidade" e da "convivência em paz"...
(Lucas Colombo)
sexta-feira, 30 de outubro de 2009
História e Ideologia
Deu na Folha Online: o ex-governador de São Paulo, Orestes Quércia, presidente do PMDB paulista, garantiu que seu partido estará ao lado de José Serra na campanha à presidência da República no ano que vem, e não de Dilma Rousseff, com quem a cúpula nacional da legenda fechou um pré-acordo na semana passada. E soltou essa:
- "Não se pode fazer alianças visando cargos, o que contraria a história e a ideologia do PMDB".
Ok.
(Lucas Colombo)
terça-feira, 18 de agosto de 2009
Até porque um lobista pode ter pagado
"Quando, nos isteitis, houve o escândalo de Watergate, os engraçadinhos perguntavam: 'Você compraria um carro usado do Nixon?'. Pois, olhem, eu, do Renan Calheiros, não compraria nem um carro novo."
- Millôr Fernandes, o gênio sempre citado neste blog, no site dele.
(Lucas Colombo)
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
Santíssima Trindade
Atentem para o que declarou o senador Wellington Salgado (PMDB-MG), no Painel da Folha de S.Paulo, sobre a instituição dos "suplentes", aqueles senhores (ou senhoras) que, por indisponibilidade do titular, assumem cadeiras no Congresso sem terem um voto sequer. Ele, que é suplente do ministro das Comunicações, Hélio Costa, defende o sistema com um argumento mui interessante:
"Jesus Cristo também é suplente. O Espírito Santo é segundo suplente. Deus é o titular."
O que Salgado quis dizer com isso? Ele, que é ardoroso aliado de Renan Calheiros e de José Sarney e que afirmou na última segunda-feira, durante debate no plenário com o senador Cristóvam Buarque (PDT-DF), que "o país está maravilhoso", como se não estivéssemos ainda em desaceleração econômica, com educação ruim nas escolas, saúde pública de quinta, falta de segurança e descalabros éticos em Brasília? Ele quis dizer que homens como Renan, Sarney e Fernando Collor são "deuses"? Não entendi.
(Lucas Colombo)
quinta-feira, 9 de julho de 2009
quarta-feira, 1 de julho de 2009
Francis e o presidente do Senado
Já que, para o presidente Lula, ele não pode ser tratado como "uma pessoa comum", peço desculpas e licença para inserir aqui este trecho de um especial do Manhattan Connection sobre o saudoso Paulo Francis, em que o jornalista qualifica José Sarney, o incomum, como "barracuda". Perdoe-me, presidente, mas o vídeo é muito bom.
A gentil referência de Francis a Sarney ocorre aos 4min15s. E há outras pérolas:
1:00 - Francis cita uma máxima de Winston Churchill (“Espero, senhores, que depois de um razoável período de discussão todos concordem comigo”) para ilustrar o que não gosta no Manhattan Connection.
2:05 - "Jornalismo, hoje, ficou análise e pesquisa. Ninguém mais tem opinião de nada. Eu sou um dos últimos dinossauros que ainda emitem uma opinião. 90% é 'o que o consumidor quer'."
2:37 - (para o recém-eleito FHC) "Fernando, você acha que tem um mandato para modernizar finalmente o Brasil, para fazer o Brasil entrar no século 20 antes que acabe?..." (e o FH não entendeu a ironia e corrigiu para "século 21", claro).
3:23 - "Ahhh, o Clinton é o maior achacador..."
4:30 - (sobre o affair Itamar Franco e Lilian Ramos) "O presidente Itamar Franco é um pamonha, e pamonha tá sempre fazendo pamonheira."
4:44 - "Ah, mas isso é um negócio ótimo pra fazer com o Roberto Freire, com o Inocêncio Oliveira: você enche de piche a pessoa, põe penas e solta no meio da rua. E põe pra fora da cidade..."
5:06 - (em 1994) "Se o Lula for presidente, eu mudo de nacionalidade."
5:19 - "Não há realmente coisa mais perniciosa para o Brasil do que a Petrobrás." (alô, membros da CPI)
5:37 - "Você já fez chamada a cobrar pra Embratel? (imitando a gravação) 'Você discou UM, UM, OITO, DOIS, MEIA, CINCO, UM, DOIS, UM. Aguarde'."
A discussão com o Caio no final (uma das várias que tiveram), sobre a participação de mulheres no exército americano, também é imperdível.
Francis, morto em 1997, foi, como sabem, um grande crítico do atual e controverso presidente do Senado. Chamava-o de "coco de bigodes" e dizia que sua presidência da república, iniciada em 1985 com a morte de Tancredo Neves, significava um "regresso à taba" para o Brasil. Soltou a melhor, porém, quando Sarney visitou Nova York e alugou uma limusine branca para se locomover: "Até a máfia já desistiu das limusines brancas por sabê-las jecas demais", comentou então. Nesta mesma ocasião, o autor dos "Diários da Corte" assegurou ter sentido o "cheiro de capim" a um quarteirão do hotel onde estava a comitiva brasileira. Waaal.
Para ser assim tratado por Paulo Francis, Sarney realmente não deve ser uma pessoa comum. Lula tem razão. O que esses internautas que lançaram o "Fora, Sarney" no Twitter estão pensando?...
(Lucas Colombo)
quarta-feira, 10 de junho de 2009
Festival de Besteiras que Assola o País
Tragédias como a do voo 447 da Air France geram comoção no mundo inteiro, e não é para menos. É algo chocante, lamentável, e o fato de que as causas do acidente poderão demorar meses para serem esclarecidas é realmente aflitivo. Mas também é de se lamentar a capacidade que os políticos da Pátria Amada têm de disparar o botão da falastrice diante de momentos críticos como esse. Não bastam os "místicos" dizendo estar na numerologia a razão para o desastre e os engraçadinhos fazendo associações com a série "Lost" - o presidente Lula e o ministro da Defesa, Nelson Jobim, também tiveram de contribuir para o Febeapá com suas declarações infundadas e precipitadas.
Lula, por exemplo, achou que a hora era propícia para um de seus costumeiros arroubos nacionalistas a la Policarpo Quaresma e foi logo afirmando: “Um país que pode achar petróleo a seis mil metros de profundidade pode achar um avião a dois mil metros”. O que uma coisa tem a ver com a outra, deusdocéu? Prospectar petróleo não é mesma coisa que procurar destroços de aeronaves, seja na profundidade que for. Vir com ufanismo em momentos de luto e comoção nacional não pode ser atitude mais deselegante. O presidente cumpriria muito melhor seu papel se orientasse a Marinha e a Aeronáutica a se esforçarem ao máximo para encontrar destroços e corpos e mandasse palavras de conforto às famílias das vítimas. Sonhemos com esse dia.
Quanto ao ministro Jobim, sua delicadeza e sua aversão a holofotes já são notórios. Lembram quando ele assumiu a Defesa no lugar de Waldir Pires, depois do acidente da TAM em Congonhas, dizendo na presença do ex-ministro que "o que faltava ali era comando"? E a destreza que ele exibiu ao averiguar e comentar a famigerada pista do aeroporto, como se fosse um grande especialista no assunto? E as tantas vezes em que ele apareceu vestindo farda, para não restar dúvidas de que ele é um 'comandante'? Isso tudo também não foi suficiente. Jobim teve que anunciar solenemente, na semana passada, para a imprensa do país e do mundo, que os primeiros destroços encontrados no mar eram do avião da Air France. Mas, opa!, descobriu-se depois que não eram. Ô, precipitação. Ô, vaidade. O ministro "bavard" ("falastrão", como o chamou a imprensa francesa), porém, disse ontem que não considera um erro ter-se adiantado ao exame das peças encontradas e que o importante era resolver "a angústia das famílias". Como se anunciar com certeza e para os quatro cantos uma informação não-confirmada ajudasse nesse sentido...
Ao ouvir tais bobagens ditas por nossos governantes na esteira dessa última catástrofe aérea, foi impossível não recordar o comentário da então diretora da ANAC, Denise Abreu (a do charuto, sabe?), na época da queda do avião da Gol, que, ao ser abordada pelas famílias das vítimas sobre o resgate dos corpos, tascou: "Vocês são inteligentes, o avião caiu de onze mil metros de altura. O que vocês esperam? Corpos?". E a reação do ministro Marco Aurélio Garcia, em meio à tristeza e à revolta pelo acidente da TAM, em 2007, de fazer gesto obsceno diante da notícia de que a desgraça poderia ter sido causada por falha mecânica, o que aliviaria a responsabilidade do governo. Desastres aéreos são sempre envoltos em mistério. Claro é apenas o que esperar das autoridades brasileiras nessas horas: declarações e atitudes estapafúrdias. O Febeapá agradece.
(Lucas Colombo)
quinta-feira, 7 de maio de 2009
"Isto é o meu Brasil, ô ô..."
Do deputado Sérgio Moraes, do PTB do estado mais politizado do Brasil, relator do processo contra o também deputado Edmar Moreira (o do castelo) no Conselho de Ética da Câmara:
- Estou me lixando para a opinião pública. Até porque a opinião pública não acredita no que vocês (a imprensa) escrevem. Nós nos reelegemos mesmo assim. (O Globo, ontem)
Do presidente Lula, sobre a "farra" das passagens aéreas na Câmara:
- Existe uma hipocrisia muito grande nessa história da Câmara. Sempre foi assim. Não vejo onde está o tamanho do crime em levar a mulher ou o sindicalista para Brasília. (Folha, 01/05)
Que tal, caros eleitores e contribuintes??
(Lucas Colombo)
terça-feira, 28 de abril de 2009
Distinção
Ok, então: os líderes partidários da Câmara dos Deputados, depois de muita pressão da mídia, restringiram o uso de passagens aéreas pelos senhores congressistas. Agora, só deputados e assessores autorizados poderão viajar às custas do erário, e apenas dentro do país. É de se apoiar uma medida (supostamente) moralizadora como essa, mas, mais ainda, é de se lamentar o fato de ser o Brasil um país onde os deputados, em vez de debater e votar temas de interesse nacional, passaram uma semana inteira discutindo se seus parentes e amigos, mesmo sem ligação alguma com o mandato, também poderiam utilizar a cota de bilhetes aéreos a que o parlamentar tem direito... Se fôssemos um país sério, isso jamais ocorreria. O patrimonialismo é a maior praga da política brasileira, e para mudar este quadro é preciso transparência, discussão e conscientização - todos artigos raros por aqui. Embora também tenha resvalado e cedido passagens para familiares, Fernando Gabeira merece distinção, por ter, ao menos, ido a público e reconhecido seu erro, sem tentar relativizar ou sair pela tangente ("as regras não são claras", "não é ilegal, todo mundo faz"..), como a imensa maioria de seus colegas. Ele simplesmente admitiu que errou e se dispôs a trabalhar para que tal erro não continuasse vivo na Casa. Além disso, pretende devolver o dinheiro. Que político brasileiro você já viu fazendo isso? Ainda que embarcando na mesma prática patrimonialista dos outros, Gabeira distinguiu-se pela tomada de consciência. É muito fácil cair na ladainha do "político é assim mesmo, tudo vagabundo", difícil é fazer distinções. E essas, como o caso do deputado carioca, devem ser reconhecidas e saudadas.
(Lucas Colombo)
quinta-feira, 19 de março de 2009
"O Brasil oficial é caricato e burlesco" - Machado de Assis
Da ZH de hoje:
"Exemplos de diretorias:
> Diretoria da Secretaria de Ata
> Diretoria do Centro de Altos Estudos da Consultoria
> Diretoria de Subsecretaria de Pessoal Inativo
> Diretoria de Subsecretaria de Contratações Diretas
> Diretoria de Coordenação de Rádio em Ondas Curtas
> Diretoria de Coordenação de Visitação
> Diretoria de Coordenação de Apoio Aeroportuário
> Diretoria da Subsecretaria de Divulgação e Inteligência
> Diretoria da Subsecretaria de Polícia Ostensiva
> Diretoria da Subsecretaria de Formação da Comunidade
> Diretoria da Subsecretaria de Projetos Especiais
> Diretoria da Coordenação de Retransmissão de Televisão
> Diretoria da Subsecretaria de Anais
> Diretoria da Subsecretaria de Pessoal Comissionado
> Diretoria da Subsecretaria de Planejamento Contábil de Contratações
> Diretoria da Subsecretaria de Administração de Suprimentos"
O Teatro Brasil não se cansa de brindar a plateia com suas tragicomédias políticas em vários atos, defendidas por atores sempre magistrais no que fazem e escritas a partir daquele velho argumento: "o poder público não é do 'público', é de quem o ocupa". Vejam que espetáculo o Senado tem oferecido nas últimas semanas. Só para citar os casos mais recentes: Roseana Sarney deu a amigos e parentes passagens aéreas a que tem direito como parlamentar, seu pai (o "barracuda", como o chamava Paulo Francis) levou seguranças do Senado para vigiar propriedades de sua família no Maranhão e Tião Viana emprestou para a filha telefone celular disponibilizado e pago pela Casa. Como se não bastasse, vieram a informação de que parentes de funcionários, para driblar a proibição do nepotismo, têm sido empregados por empresas terceirizadas que prestam serviços ao Senado e, também, a 'descoberta' de que a Casa conta com 136 - ops!, 181 incríveis diretorias, número que nem a maior empresa privada do país apresenta e que supera mais de duas vezes a quantidade de senadores (81). Cá entre nós: é estritamente necessário existir, sustentada pelo dinheiro do contribuinte, a "Diretoria da Coordenação de Retransmissão de Televisão"? Só se for para quem as chefia, por motivos óbvios (salário pode atingir R$ 24,5 mil), e para quem as cria (presidentes da Casa e 1ºs secretários), por poder acomodar nelas servidores apadrinhados e cabos eleitorais. Todos esses episódios são representativos da forte confusão entre público e privado que marca a política brasileira. Enquanto não se mudar a ideia, tão arraigada entre nossos 'administradores', de que a máquina pública pode ser usada para fins pessoais, continuaremos assistindo de camarote a toda essa desfaçatez.
(Lucas Colombo)
quarta-feira, 4 de março de 2009
F5
É um prazer estar de volta, senhoras e senhores, e vamos logo atualizar a vida aqui no blog:

- Um colega leitor perguntou qual era, enfim, minha avaliação do filme "Ensaio sobre a Cegueira", já que, na minha retrospectiva de 2008, apenas mencionei a recepção morna que o longa de Fernando Meirelles obteve da crítica. Digo, então, com todas as letras, que não gostei. Tudo bem que minhas restrições são mais à obra de José Saramago do que ao filme em si. Definitivamente não gosto do discurso político ultrapassado do português (Saramago é daquelas pessoas que se referem à "burguesia" e à "elite" como se fossem responsáveis por todos os males da humanidade) e acho que, mesmo escrevendo bem, ele chama mais atenção por suas opiniões do que por seus livros. Mas "Cegueira" deixa a desejar em muitos aspectos, principalmente no que tange à verossimilhança. "Mas a história é uma metáfora, uma alegoria!", diz a maioria dos espectadores do filme e leitores do romance. Exatamente, meus caros. Mesmo quando se fantasia, deve-se partir da realidade. O fato de "Cegueira" ser uma alegoria não o exime da necessidade de ter um pé no real. E isso é o que não vemos em muitos momentos do longa. Não convence, por exemplo, que a personagem da ótima Julianne Moore (foto), a única que não perdeu a visão, não se valha, naquela situação crítica, de seu privilegiado estado para sorrateiramente pegar algumas caixas de comida retidas pelo personagem de Gael García Bernal - e pior!, não tirar dele o revólver, instrumento com que ele ameaça os outros e impõe sua 'autoridade'. A história também é maniqueísta (a turma do oftalmologista e sua mulher é do bem, a do homem com o revólver é do mal, e pronto), e seu final é de um romantismo dispensável (o japonês volta a enxergar ao começar a viver em grupo, compartilhando as coisas, carinhosamente...). A fotografia esbranquiçada, a interpretação de Julianne e o humor ácido que advém da cena em que Gael, cego, faz cover de Stevie Wonder são os pontos positivos. Mas a inverossimilhança, o maniqueísmo e a ideologia não salvam a história.
- E outro amigo me perguntou o que achei da minissérie "Maysa", exibida pela Globo em janeiro. Bom, só assisti a dois episódios (e folheando uma revista), mas posso afirmar que, do pouco que vi, não gostei. O tom era melodramático, a atriz Larissa Maciel sofria mais do que sua personagem exigia e foram tomadas muitas liberdades em relação à história da cantora. Vários críticos apontaram isso mesmo: que o autor da série criou situações que não constam nas biografias existentes sobre Maysa. Em casos como esse, de cinebiografias (ou telebiografias, enfim), mesmo que muitas vezes seja necessário inserir diálogos e cenas ficcionais para "amarrar" o roteiro, deve-se ter cuidado, sob pena de perda da credibilidade do produto apresentado. No mais, o foco foi muito a vida particular de Maysa e não tanto seu papel na música brasileira, que não é fundamental, mas também não é dispensável. Ela era uma cantora de boleros e sambas-canções que se aventurou pela bossa nova, fazendo uma espécie de 'ponte' entre esses gêneros. Sempre preferiu, porém, a dor-de-cotovelo ao cantinho e violão. Que alguns críticos a chamem de "bossanovista" é piada das mais engraçadas.
- Também fruí pouca coisa, infelizmente, de John Updike, o escritor americano morto dia 27/01. Apenas um ou outro conto. Mas, neste caso, do pouco que li, gostei. Updike ambientava suas histórias nos subúrbios de cidades dos EUA, procurando analisar como as mudanças políticas e culturais do país se refletiam sobre o americano médio. Versátil, escreveu romances, contos e poemas e fazia críticas literárias para a New Yorker. Ganhou dois prêmios Pulitzer, por, respectivamente, "Coelho Cresce" e "Coelho Cai", da sua tetralogia do coelho - completada por "Coelho em Crise" e "Coelho se Cala". Sua obra talvez não tenha a altura da de seu contemporâneo Philip Roth, mas Updike era um escritor inteligente e apaixonado (publicou mais de 50 livros). E pessoalmente, dizem testemunhas, era um homem muito educado e elegante.
- Falando em escritores - mas, dessa vez, de um ruim: a eleição do grande acadêmico (Machado, fundador da ABL, deve estar se revirando no túmulo) José Sarney para a presidência do Senado, com apoio de Lula, bem que poderia ter aquela musiquinha do comercial do finado banco Bamerindus (lembram?), adaptada ao momento, como trilha sonora: "o tempo passa, o tempo voa, e os políticos brasileiros continuam numa boaaaa...". Que um dinossauro político como Sarney (a The Economist, em artigo, chamou-o assim) assuma o comando do Congresso falando em 'renovação' é risível, ainda mais sendo ele de um partido fisiológico como o PMDB e tendo os insuspeitáveis Renan Calheiros e Gim Argello como cabos eleitorais. Sarney e sua agremiação fazem o que sempre fizeram: ficar do lado de quem está no governo, seguir a maré, conscientes de que isso renderá poder e verbas para seus currais eleitorais. Foi assim na presidência do próprio senador maranhense, e na de Collor, na de Itamar, na de FHC e na de Lula. Maior partido nacional, o PMDB é, como declarou o senador Jarbas Vasconcelos na entrevista à Veja, amorfo. Um balaio de gatos, um exemplo vivo de como é ruim o sistema político brasileiro. E o fato de Sarney ser vinculado ao Maranhão e ter mandato de senador pelo Amapá só aumenta a esquizofrenia. Ah!, ele já disse que apoiará Dilma Rousseff em 2010, claro. Lula agradece.
- Em tempos de inútil reforma ortográfica, fico com o escritor Milton Hatoum e não abro: no Brasil, precisamos de "idéias" com acento agudo.
(Lucas Colombo)

