Saudoso de cinema argentino, busquei A Odisseia dos Tontos, o filme recente mais 'badalado' de lá, feito pelo diretor de Um Conto Chinês (2011) com base num romance de Eduardo Sacheri, mesmo autor do livro que originou O Segredo de Seus Olhos (2010). Perdi tempo. A boa história e os diálogos ágeis e espirituosos, traços habituais do cinema dos vizinhos, estão ali. Outro item costumeiro, a ambiguidade dos personagens, que faz a história tomar rumos por vezes inesperados, não. É uma trama maniqueísta e previsível, muito condescendente com aqueles tipos, fortalezas morais que parecem não ter defeitos. O único, talvez, tenha sido a ingenuidade de acreditar nos banqueiros e políticos malvadões (não que muitos não sejam) que arruinaram a Argentina em 2001 só para encher os bolsos com la guita confiscada. Rousseau adoraria o filme. Mas eu prefiro Relatos Selvagens, O Filho da Noiva, O Segredo de Seus Olhos, O Cidadão Ilustre, A História Oficial... (Lucas Colombo)
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quarta-feira, 1 de julho de 2020
MM Não Recomenda - A Odisseia dos Tontos, de Sebastián Borensztein
Saudoso de cinema argentino, busquei A Odisseia dos Tontos, o filme recente mais 'badalado' de lá, feito pelo diretor de Um Conto Chinês (2011) com base num romance de Eduardo Sacheri, mesmo autor do livro que originou O Segredo de Seus Olhos (2010). Perdi tempo. A boa história e os diálogos ágeis e espirituosos, traços habituais do cinema dos vizinhos, estão ali. Outro item costumeiro, a ambiguidade dos personagens, que faz a história tomar rumos por vezes inesperados, não. É uma trama maniqueísta e previsível, muito condescendente com aqueles tipos, fortalezas morais que parecem não ter defeitos. O único, talvez, tenha sido a ingenuidade de acreditar nos banqueiros e políticos malvadões (não que muitos não sejam) que arruinaram a Argentina em 2001 só para encher os bolsos com la guita confiscada. Rousseau adoraria o filme. Mas eu prefiro Relatos Selvagens, O Filho da Noiva, O Segredo de Seus Olhos, O Cidadão Ilustre, A História Oficial... (Lucas Colombo)
sexta-feira, 30 de agosto de 2019
MM Recomenda - Roda Gigante, de Woody Allen
Sempre que sai um Woody Allen, as reações são duas, opostas: 1. “Woody volta à boa forma!”. 2. “Mais uma porcaria. Bom é só o Woody dos anos 80”. O primeiro grupo não faz crítica; confunde desejo com realidade, pois o diretor nunca voltou à forma que exibia nos anos 80, ainda que em ótimos momentos como Match Point e Midnight in Paris. O segundo grupo se comporta do modo que Paulo Francis descreveu como “irritação do amante rejeitado”. Ama tanto Woody que não aceita nada abaixo de uma obra-prima por ano. Não percebe que um Woody Allen nota 7 ainda está acima do que se vê por aí nos cinemas. É o caso de Roda Gigante, de 2017. O título é apropriado, porque Woody tem andado em círculos: a história lembra o recente Blue Jasmine e o mais antigo Setembro, com a personagem, Ginny (Kate Winslet, contida e precisa, as usual), que carrega culpa por um erro definidor de sua vida, tem família disfuncional e se apaixona por um homem no qual deposita muitas esperanças. Trata-se mesmo de um Woody Allen menor, sem a classe exibida nos anos 80 e 90. A fotografia carregada, de cores quentes, é redundante, over como a interpretação de Jim Beluchi e a canastrice de Justin Timberlake, ator que parece ter como único recurso de interpretação balançar a cabeça. Mas o bom roteiro está lá, rico em referências: das tragédias gregas, com a “heroína” condenada pelo destino ao sofrimento, ao teatro moderno de Eugene O’Neil e Tennessee Williams (Ginny tem muito de Mary Tyron e de Blanche Dubois). Roda Gigante é mesmo “teatral”, de várias (e longas, o que é comum no diretor) cenas internas, mas isso não chega a ser problema. E é um filme tão bem escrito (“- Você acha que a tragédia que ocorre com uma pessoa é sempre culpa dela? - Não. O destino também tem um papel nisso. Há na vida mais coisas que fogem ao nosso controle do que queremos admitir.”) e tão perspicaz na observação daqueles seres humanos, que só se pode recomendar que seja visto. Apesar dos pesares. Coisas da cultura deste começo de século 21, em que parece se confirmar o aforismo de Karl Kraus: “Quando o sol da cultura está baixo, até anões projetam grandes sombras”. (Lucas Colombo)
terça-feira, 19 de fevereiro de 2019
MM Não Recomenda - Roma, de Alfonso Cuarón + MM Recomenda - A Esposa, de Björn Runge
Os gringos até podem cair nessa de que Roma, lançado recentemente pela Netflix e concorrente ao Oscar, é uma obra-prima do cinema moderno. Não é. Mas eles acreditarem nisso, tudo bem. O que assusta é que nós estejamos repercutindo essa falácia. No Brasil, temos diversos exemplares de Roma. É um filme que reproduzimos aos montes, desde o Cinema Novo. Todo ano tem uns dez, no mínimo. Recentemente, tivemos os didáticos Que Horas Ela Volta e Casa Grande, descrevendo a relação entre pobres e ricos. A história de Roma é a batida via crúcis do miserável. Em que ele é, acima de tudo, um forte. O desafortunado suporta as agruras do mundo, sempre meio alienado, e segue em frente. Pois a vida é assim mesmo. Os bem vividos são os culpados, os alienados de verdade, que não enxergam a real situação das coisas. O pobre vive a História. O rico só serve para narrá-la. Roma é um dramalhão frio, que se passa na Cidade do México, década de 70, durante o truculento governo do presidente Luis Echeverría Álvarez, considerado uma ditadura perfeita por Mario Vargas Llosa. Narra a rotina de uma empregada doméstica de família. O pai do clã some, restando às mulheres da casa tomarem conta de tudo. O motivo da fuga só é explicitado no fim. E aí está uma boa sacada. Somente aí. Todo o resto é lugar-comum para nós, terceiro-mundistas. Ao longo de duas horas, ficamos diante da mesma estética de um filme nacional típico. A lentidão de acontecimentos, a trilha insignificante, a culpa burguesa do diretor (o mexicano Alfonso Cuarón, mas poderia ser algum Moreira Salles, não faria diferença), pesando no roteiro. O diferencial para nossos filmes, e que piora as coisas, é que Roma é rodado em um cafona preto e branco. Aquela fotografia pretensiosa (Salve, Sebastião Salgado!). Entretanto, nem tudo é negativo. É preciso também ver o lado bom. E a vantagem de Roma para outros filmes enfadonhos é que ele está disponível somente no catálogo da Netflix. Basta dar um stop e escolher outro. (Lucas Barroso)
* * *
A Esposa é um filme de pouco brilho, do ponto de vista formal. Narrativa quadradinha, convencional, com planos bonitos, diálogos afiados e grande atuação de Glenn Close (merecidamente a favorita ao Oscar de melhor atriz). Mas como faz pensar sobre questões com que toda pessoa que vive de escrita se defronta. Se alguém copidesca o texto de outro, quem é o verdadeiro autor? Como ver um incompetente ganhar elogios ou prêmios imerecidos e não nutrir ressentimento por isso? Se um escritor não conseguir ser publicado ou lido, deve desistir ou insistir? Não há respostas fáceis, e o filme não oferece nenhuma. O que é bom. (Lucas Colombo)
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sexta-feira, 11 de janeiro de 2019
MM Recomenda - Lacombe, Lucien, de Louis Malle
Lacombe, Lucien, filme que completa 45 anos de lançamento neste 2019, é o melhor de Louis Malle (1932-1995). Suas riqueza e força estão na abordagem “neutra” (entre aspas, porque a opção pela “neutralidade” faz sobressair-se uma crítica a todos os lados envolvidos) de um fato político espinhoso: a colaboração de franceses à ocupação nazista durante a Segunda Guerra Mundial. Malle e o escritor Patrick Modiano, com quem elaborou o roteiro, não condenam nem absolvem o personagem, um rapaz simplório e ignorante que adere aos nazistas não por ser exatamente “mau”, mas porque isso o faz se sentir importante e poderoso pela primeira vez na vida. Não defendem tese, não tentam justificar nada; somente contam a história, em toda a sua ambiguidade, a ambiguidade tão esperada em uma obra de arte. Lucien causa nojo, mas também pode causar pena (ser perdoado? Jamais). É uma abordagem quase impossível de se obter, por exemplo, da maioria dos cineastas brasileiros, que infantilmente insistem no esquematismo, em identificar “vilões”, fazer dramaturgia brechtiana para “conscientizar as plateias”. “Há pessoas com que não se pode discutir, gente que navega eternamente na idealização e na mitologia”, disse Malle sobre seu filme, em entrevista de 1975 mas ainda atual. Tão atual quanto a ideia que emana de Lacombe, Lucien: o problema não é ser de esquerda ou de direita, é ser estúpido. (Lucas Colombo)
segunda-feira, 19 de novembro de 2018
MM Recomenda - Daquele Instante em Diante, de Rogério Velloso
Um documentário de 2011 que destrincha a trajetória de Itamar Assumpção, prolífico cantor e compositor que, durante seu período de atuação, não teve reconhecimento de grande parte do público e crítica, sendo taxado de artista "marginal" e "maldito". Ele participou do movimento Vanguarda Paulista, na década de 1980, junto de Arrigo Barnabé, Grupo Rumo, Premê, entre outros. Porém, sua carreira não se resume a isso. Vale ouvir com atenção seus discos. Neles, fica evidente o manancial criativo que foi Itamar Assumpção. Difícil carimbar rótulos no som que ele produziu. No filme, a filha dele, Anelis Assumpção, relembra um diálogo que teve e que demonstra bem o que foi a vida do pai artista (e é também um resumo do que é fazer arte no Brasil hoje):
- E depois que ele fez tudo isso e não teve o reconhecimento merecido, o que aconteceu com o Itamar?
- Depois disso, ele morreu.
(Lucas Barroso)
sábado, 10 de novembro de 2018
MM Recomenda - O Filme da Minha Vida, de Selton Mello
Perguntado sobre o que buscou para O Filme da Minha Vida, lançado no ano passado, Selton Mello respondeu: "A beleza". Esse pensamento raro em cinema brasileiro me levou a assistir ao longa, que está na programação dos canais Telecine. De fato, o diretor conseguiu o que pretendia: fez um belo filme, e distinto do costumeiramente feito aqui. A uma trama familiar e melancólica que se desenrola na Serra Gaúcha do começo dos anos 1960, com alguns tipos que têm função narrativa ou de comic relief, apõe uma fotografia em tom sépia, como fotos antigas, e uma trilha sonora que vai da delicadeza sentimental de Charles Aznavour (Hier Encore) ao soul explosivo de Nina Simone (I Put a Spell on You). Ficou algo Fellini sem a histeria. O problema, recorrente no cinema nacional, são os diálogos, no caso um tanto literários - traindo a origem da história, um romance do chileno Antonio Skármeta - e com imprecisões temporais. Mas o filme é um bonito e bem-vindo esforço que merece parabéns. É o melhor longa brasileiro que vi nos últimos anos (ou o único realmente bom). (Lucas Colombo)
terça-feira, 18 de setembro de 2018
MM Não Recomenda - Hereditário, filme de Ari Aster
Como todo mundo está comentando, talvez você, assim como eu, fique curioso e tome a decisão de assistir ao filme Hereditary num dia chuvoso qualquer. Não cometa esse erro. Não bastasse ser um filme de terror (gênero necessariamente infantil, com as exceções de praxe), Hereditary segue a modinha de criar narrativas cheias de detalhes confusos que, no final, farão sentido. Funciona com Christopher Nolan, mas nas mãos de um roteirista menor é uma verdadeira catástrofe. Você talvez - talvez! - tenha medo e fique realmente intrigado durante parte do filme. Mas aquele final... Ah, aquele final é digno de um Ed Wood. (Paulo Polzonoff)
terça-feira, 21 de agosto de 2018
MM Não Recomenda - Baseado em Fatos Reais, de Roman Polanski
O novo Polanski, Baseado Em Fatos Reais, sobre escritora antipática em bloqueio criativo que acolhe fã misteriosa, é quase ruim. Narrativa muito acelerada, trilha sonora insistente, Eva Green se esforçando para parecer "enigmática". A história lembra o americano Louca Obsessão (1990), e o recurso à confusão entre ficção e realidade lembra trocentas outras obras criativas. Se você quiser ver um bom filme recente com personagem escritor e que se vale do mesmo recurso de um jeito bem mais envolvente, vá de O Cidadão Ilustre, dos argentinos Mariano Cohn e Gastón Duprat. Polanski perdeu a mão há muito tempo. Alguém que fez filmaços como O Bebê de Rosemary, Repulsa ao Sexo e O Pianista nem precisaria mais fazer muita coisa. (Lucas Colombo)
terça-feira, 29 de agosto de 2017
A grande beleza (que resta)
O filme mais recente do canadense Denys Arcand, diretor do definitivo As Invasões Bárbaras (2003), teve lançamento discretíssimo no Brasil, provavelmente por causa da recepção fria que obteve de público e crítica internacionais. É lamentável que não tenham notado que O Reino da Beleza vale a pena. Arcand parece tê-lo feito (cada filme dele contém um ceticismo sobre seu tempo que permite pensar isso) para resistir ao embrutecimento generalizado, para convidar-nos a contemplar e valorizar o pouco de beleza que ainda há no mundo. Porque há, e ele a mostra: beleza da natureza, das cidades, das pessoas, das coisas simples da vida. É de uma elegância total o trabalho, inclusive no ritmo narrativo e nos diálogos. E, com a trama banal de um homem dividido entre a mulher e a amante, não vai muito além disso. Nem precisava. Buscar o belo, hoje, é um gesto ousado (sim, como foi a busca do “choque” décadas atrás) que já faz por si só uma criação artística se destacar na paisagem. Ao contrário da visão de terra arrasada que expôs no título anterior, A Idade das Trevas (2007), o diretor nos diz agora que a beleza ainda é possível. Ficou mais ingênuo? Não: mais sereno. Vejamos Denys Arcand, vejamos a beleza, e reflitamos sobre tudo isso.
(Lucas Colombo)
quarta-feira, 30 de novembro de 2016
Indignação inócua
Philip Roth geralmente não gosta das adaptações cinematográficas de seus romances, e com razão. Em Fatal, versão de O Animal Agonizante, e Revelações, de A Marca Humana, para citar só dois casos, passou-se uma niveladora sobre as histórias. Acontece o mesmo em Indignação, dirigido por James Schamus. Não é contado pelo protagonista à beira da morte, como o livro. Sim, é difícil fazer um enorme flashback dar certo como filme, mas então que se adaptasse outro autor, ora. A força de Indignação, que nem é dos melhores títulos de Roth, se deve muito a esse recurso narrativo, cuja referência o americano admitiu ter sido o Brás Cubas machadiano: sob efeito de morfina, no hospital, o jovem judeu Marcus, ferido na Guerra da Coreia, recapitula sua vida e reflete sobre a inexorabilidade do destino, sobre como o momento histórico e a cultura em que estamos inseridos sufocam nossos projetos de vida. A adaptação não vai fundo nessa reflexão; prefere enfatizar o envolvimento de Marcus com Olívia, moça ao mesmo tempo depressiva e altiva. Ela é o tema de um ótimo - bem rothiano, pela crueza blasé - diálogo do romance, entre Marcus e seu roommate da universidade: "Ela chupou meu pau". "Ok, fico feliz por você, Marcus, mas, se não se importa, tenho um trabalho a fazer...". Esse, pelo menos, entrou no filme. Está lá também a discussão áspera sobre religião que o jovem trava com o reitor. Não entrou, porém, uma das melhores cenas do livro, bastante ao estilo "obsessivo" de Roth: Marcus gosta tanto do que Olívia escreve numa carta, que lambe a assinatura dela demoradamente. Só na última cena o filme consegue ser sutil, mas aí já é tarde. O ator, Logan Lerman, fraquinho, também não colabora para melhorar as coisas ao ficar com a mesma expressão facial do início ao fim. Não adianta, nunca é fácil adaptar uma voz literária de primeira linha (mais ou menos o que ressaltou este artigo da New Yorker). A discussão é velha, mas incontornável.
(Lucas Colombo)
terça-feira, 16 de fevereiro de 2016
Editor's choice
Em ordem cronológica, o que de melhor o MM publicou nos últimos 12 meses, na visão deste editor. Para (re)ler nas férias.
- "Que crítica?!...", by Carlos Fernando e Frederico Barbosa
- "O cinema e a guerra", by Muriel Paraboni
- "Operação Questionar", by Lucas Colombo
- "TV Excelência" (Mad Men), by Lucas Colombo
- "Las ventanas", by Emerson Machado
- "Ativismo é a segunda pauta", by Lucas Barroso
- "A linguagem do rio", by Muriel Paraboni
- "A essência da arte", by Lucas Barroso
- "Contra os clichês" (entrevista com Cíntia Moscovich), by Lucas Colombo
- "Não há rei no Brasil" (Chatô), by Rafael Fais
- "Longo tempo de Quaresma", by Lucas Colombo
(Lucas Colombo)
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quinta-feira, 19 de novembro de 2015
Complacência
“A complacência da crítica com um filme como Onde Anda Você, de Sérgio Rezende, é de pasmar. Sempre contaminada por ideologia, mesmo sem saber, ela viu ali uma busca felliniana da inocência brasileira que merece elogio já por tal pretensão. Mas o fato é que o filme, mistura de Tieta e Central do Brasil, não passa de uma sucessão de clichês (com a cena final na praia) e piadas sem graça (até aquela do falso paralítico!), com atuações muito desiguais. Não teremos uma cultura sólida enquanto o padrão de exigência continuar tão baixo.”
- Daniel Piza, em comentário de 25 de abril de 2004 que vale muitíssimo para este momento de quase unanimidade crítica em torno de “Que horas ela volta?”, filme de defeitos semelhantes aos aí relacionados. Os críticos de dez anos atrás devem ser os mesmos de agora.
(Lucas Colombo)
domingo, 29 de março de 2015
Com as garras de fora
Os diálogos mais afiados e as falas mais mordazes de "Relatos Selvagens", o excelente filme argentino ganhador do Prêmio Goya e indicado a Melhor Filme Estrangeiro no último Oscar. O roteiro e a direção são de Damián Szifron.
* * *
- Às vezes, é assim: preciso destruir a autoestima de um pobre infeliz para proteger os ouvidos de toda uma população.
Crítico musical à ex-namorada de um aspirante a músico que defenestrou com uma resenha.
* * *
Garçonete ao cliente que chega sozinho:
- Boa noite. Um só?
- Vejo que você é boa para matemática...
Mais adiante:
- O que vai beber?
- Coca light.
- Coca light?
[pausadamente] - Coca... light... Quer que eu anote?
E mais adiante, para a colega de cozinha:
- Ele vai se candidatar a prefeito. Esse filho da puta. Dá pra acreditar?
- Mas como não vou acreditar, se os filhos da puta governam o mundo?
* * *
Homem que teve carro guinchado injustamente, para o atendente do Departamento de Trânsito:
- Você sabe que é um delinquente, não?
- Só estou fazendo meu trabalho, senhor.
- Não. Quem trabalha para delinquentes são outros delinquentes.
Para a recepcionista da empresa na qual quer deixar um currículo e que lhe diz que o diretor, amigo, não está:
- E a secretária dele?
- Saiu para almoçar.
- Mas são 4 da tarde.
- Não controlo seus horários.
- Quer saber? Melhor não te deixar porra nenhuma. Por mim, podem ir todos à merda. [indo embora] Almoçando às 4 da tarde... acham que sou idiota...
* * *
- Com todas as empresas de celular e todas as promoções que existem, é estranhíssimo que essa moça tenha comprado justo a linha do teu professor de violão... É uma coincidência incrível, não?...
Noiva para o noivo, na festa de casamento, após ligar para o celular de quem ele lhe dissera ser do seu professor de violão, mas que, na verdade, é da amante.
Depois, respondendo à sogra que pede por uma dança com seu "príncipe":
- Sim, claro, "rainha"... é todo seu.
(Lucas Colombo)
segunda-feira, 22 de dezembro de 2014
Editor's choice
Em ordem cronológica, o que de melhor o MM publicou em 2014, na visão deste editor:
- "Geografia", by Lucas Barroso
- "Ética a Internauta", by Lucas Colombo
- "Memórias sem cárcere", by Rafael Fais
- "Anotações", by Lucas Colombo
- "(Não) Gostar de futebol", by Leandro Schallenberger
- "Mickey é um rato limpinho?", by Rafael Fais
- "A dama canta o blues", by Lucas Colombo
- "O realismo do instinto", by Muriel Paraboni
- "Arte não é corrida", by Lucas Barroso
- "Centenário da independência", by Lucas Colombo
- "Você acreditou em 2014?", by Lucas Barroso
- "Eu, você, nós dois", by Lucas Colombo
Feliz 2015.
(Lucas Colombo)
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terça-feira, 8 de abril de 2014
Sala de cinema
- Certa caretice formal e a supressão de fatos importantes do período abordado da vida da filósofa e escritora impedem “Hannah Arendt”, de Margarethe von Trotta, de ser considerado um filme especial. Mas ele também não se revela perda de tempo: é adulto e merece ser visto, sobretudo por ilustrar o preço que se paga pela independência intelectual e, com isso, transmitir a necessidade de mantê-la. Para a cultura do compadrio brasileira, constitui-se em um forte recado. Como outro alerta, este especificamente para o momento de relativização política que o país vive, serve uma fala da cena em que a filósofa explica sua famigerada posição quanto ao nazista Eichmann: “Tentar entender não é perdoar”.
- Outro filme
“de personagem”, “Blue Jasmine” é
quase – porque não tem a carga sexual, p. e. – uma cópia ‘atualizada’ de “Um
Bonde Chamado Desejo”, a grande peça de Tennessee Williams, na história
de uma ricaça de Nova York que, em decadência material e pessoal após a prisão
do marido por fraude financeira, vai morar com a irmã ‘humilde’ e o noivo
bronco dela. Por isso, não é imperdível, mas, mesmo quando nota 8, um Woody Allen ainda é superior à maioria do que se vê nos cinemas. Não poupa ninguém,
ao mostrar que ambas as irmãs têm limitações e carências e que há pessoas
medíocres tanto na classe alta quanto na baixa (sem o simplismo de esta aparecer
como vítima daquela). E, como sempre nas produções do diretor, oferece ótimas
atuações e parte de um roteiro bem elaborado: Cate Blanchett (foto), merecidamente Oscar de melhor
atriz, compõe sem excessos a surtada protagonista, cujo passado conhecemos
pelas voltas no tempo na narrativa e pelas informações que os diálogos, ágeis,
soltam aos poucos.
(Lucas Colombo)
segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
Editor's choice
Para este editor, o que de melhor o MM publicou em 2013, em ordem cronológica:
- "Reis magos Blues" (seção Toca-disco), by Moziel T. Monk
- "Nem mesmo o amor", by Muriel Paraboni
- "Chet", by Lucas Colombo
- "Casa" (seção Enquadramentos), by Marcelo Donadussi
- "Personagens brasileiros, 2013", by Lucas Colombo
- "Livros sobre o mensalão" - I, II e III, by Rafael Fais
- "Visões do ano", by Lucas Barroso
- "Jornalismo em 2013", by Rafael Fais
Feliz 2014.
(Lucas Colombo)
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domingo, 8 de dezembro de 2013
Poucas e boas
- “A tristeza, a compreensão e a desigualdade de nível mental do meu meio familiar agiram sobre mim de um modo curioso: deram-me anseios de inteligência.” (Lima Barreto, na primeira frase de "Recordações do Escrivão Isaías Caminha", de 1909)
- "Gostaria de poder erguer-me entre os mortos, a cada dez anos, caminhar até a banca de jornais e comprar alguns. Não pediria mais nada. Com os jornais debaixo do braço, lívido, esbarrando nos muros, retornaria ao cemitério e leria os desastres do mundo, antes de tornar a dormir, satisfeito na proteção tranquilizadora da sepultura..." (Luis Buñuel, cineasta espanhol, em seu livro de memórias, "Meu último suspiro", comentando que a morte não o incomodava, desde que pudesse fazer isso)
- "A única coisa que se encontra depois de escalar uma montanha são mais montanhas para escalar." (Recém-falecido Nelson Mandela, ex-presidente sul-africano, no que serve como recado aos brasileiros, costumeiramente contentes com pouco)
(Lucas Colombo)
terça-feira, 6 de agosto de 2013
Travessuras da menina má
Para
fazer o espectador compadecer-se de seu protagonista, Lucas, um professor de
jardim de infância injustamente acusado de assédio sexual por uma garotinha sua
aluna, o filme dinamarquês “A Caça”, de Thomas Vinterberg, força a mão na
trilha sonora e em lances melodramáticos, a exemplo do assassinato da
cachorrinha. O final em bom grau “feliz”, com volta de namorada e tudo,
também é dispensável. Mas como faz pensar sobre certa paranoia social
contemporânea – basta uma fala confusa da menina para a diretora da escola já
crer em abuso e seguir as ‘regras’ previstas para tais casos –, sobre espírito de manada – a ‘acusação’ faz a maioria das pessoas sentir-se na obrigação
de rejeitar Lucas – e sobre toda a atual cantilena politicamente correta
em torno de crianças: “são inocentes”, “nunca mentem”, “são fofinhas”, “não se
deve frustrá-las”, etc etc. Olha, levar a sério tudo que uma criança diz/faz e paparicá-la
o tempo inteiro pode ser realmente perigoso. Se Paulo Francis visse as
atitudes da loirinha Klara, repetiria sua divertida provocação: “Herodes foi um
incompreendido”...
(Lucas Colombo)
quarta-feira, 10 de abril de 2013
Mais dois
Safra boa, a do Oscar deste ano. Mas não realmente para fartar-se.
O Rafael já comentou “Argo”. Comento outros dois indicados:
- “Zero dark thirty”, de Kathryn Bigelow, tem, como o admirável título anterior da diretora, “The hurt locker”, o mérito de ser tenso, visualmente sintético (só com um plano de um nativo ou de uma estrada, sem diálogo ou off, já entendemos o que ela quer informar), bem dirigido (a sequência da invasão da casa de Bin Laden é meticulosa), não fazer concessões emotivas (nada de “em nome do nosso grande país”, etc.), nem ter uma dramaturgia ‘fácil’ – não há disputa de mocinhos e vilões, nem final ‘feliz’, nem uma historinha de amor, mesmo que a protagonista, Maya (Jessica Chastain), apareça tão solitária. Merece aplausos, mas não de pé como, presumivelmente, obteve dos críticos de cinema. Ao contrário de “The hurt locker”, não é tão reflexivo, e o name-dropping de membros da Al-Qaeda cansa. Algumas cenas, como a da brincadeira com macacos, parecem desnecessárias. Só nos últimos cinco minutos, dedicados à reverberação que a caçada a Bin Laden provoca em Maya, que o filme torna-se o que deveria ter sido desde o começo. Mas quem acha que a produção é pró-tortura viu-a apressadamente ou com o botão de antiamericanismo ligado, atitude ainda muito comum em nossa crítica.
- Michael Haneke é um dos três maiores diretores de cinema atuais – os outros? Almodóvar e Woody Allen –, e seu “Amor”, Melhor Filme Estrangeiro, é realmente tudo isso que disseram: um retrato-duro-da-degradação-física-e-mental-de-uma-pessoa-no-fim-da-vida. Sua crueza fez-me lembrar “A Morte de Ivan Ilitch”, de Tolstói, mas é claro que não se equiparam, etc. etc. O cinema sem concessões de Haneke deve, obviamente, ser saudado, ainda mais nesta época de grandes suscetibilidades das plateias, em que se procura adoçar tudo. Mas “Amor” – e aqui, então, ao contrário do que comentaram – não é “de fazer o espectador sair transtornado do cinema”, nem o melhor do diretor (ainda é “Caché”) ou um dos melhores ou mais originais dos últimos anos. Terminei-o com a sensação de já ter visto alguns filmes com essa mesma abordagem antes...
(Lucas Colombo)
sexta-feira, 22 de março de 2013
"Argo" e o autoelogio
Assim como o Oscar exagerou ao dar-lhe o prêmio máximo, “Argo” exagera no que expõe. Ao apresentar a história do plano montado pela CIA em parceria com produtores de Hollywood, para retirar de Teerã seis diplomatas americanos que escaparam da invasão da embaixada de seu país, em 1979/1980, o longa parece querer mostrar o cinema como um trabalho salvador, ou como fonte de patriotismo – ou seja, como algo além do que é: entretenimento ou arte. Autoelogio é sempre irritante.
O filme é regular ao revelar um pouco do funcionamento dos órgãos de inteligência do governo dos Estados Unidos. O que está em segundo plano, porém, tira a força da narrativa principal. As disputas internas na CIA pelo comando e realização da operação e o dilema do agente que se sente culpado por não se dedicar ao filho e à esposa, porque seu trabalho o absorve, são manjados subterfúgios. Se o enredo fosse só isso, sem a abordagem do fato histórico inusitado, “Argo” definitivamente seria um filme sem importância.
Mas não há dúvida de que o caso de 1979 merecia ser contado. O mérito de “Argo” é tornar conhecida por um público maior essa vitoriosa passagem da história do serviço de inteligência e da diplomacia dos EUA, tão em baixa nos últimos tempos. Basta lembrar a morte, no ano passado, do embaixador americano na Líbia, Christopher Stevens, e de três funcionários do Departamento de Estado, episódio assumido pela então secretária Hillary Clinton como “falha de segurança” no consulado. Com seu filme, Ben Affleck dá uma forcinha para a autoestima de seu povo, contando uma história em que no final tudo acaba bem devido à astúcia das autoridades do país.
(Rafael Fais)
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